(18) A REDESCOBERTA DO CRISTIANISMO (Jan 2008)
Baseado no livro ‘Cristianismo Perdido’, de J. Needleman, professor de Religiões em Universidade dos EUA e pesquisador das origens do cristianismo; Martins Fontes, 87.
O cristianismo dos primeiros séculos: mostra que aquilo que as doutrinas cristãs pregam, quase nada tem a ver com o que Jesus pregou; que o que Jesus ensinou é o que há séculos ou milênios, o misticismo oriental ensina, como se pode verificar por este e outros textos. Jesus ensinou o modo de se chegar a Deus, numa total união com a divindade absoluta, sem necessidades de intermediários. Por isso ele disse: ‘Eu e o Pai somos um’. A interpretação feita pela igreja é, no dizer de sérios sacerdotes, uma verdadeira ‘tragédia para a civilização ocidental’.
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Extratos:
...Inquirido sobre a existência de algum lugar onde os líderes da Igreja fossem revigorar a fé, sob a orientação de um guia espiritual experiente, a reação do bispo foi surpreendente: ‘Onde? Onde?...’
...É extremamente necessária, para o cristianismo, uma troca de experiências com o Zen Budismo e o Hinduísmo reunindo, num Único Caminho, todos os caminhos para Deus, destruindo os muros artificiais entre as culturas, raças, religiões e nacionalidades. E trazer de volta a tendência, que a Igreja perdeu, para a oração contemplativa (a oração que busca unir o homem a Deus, pregada pela igreja dos primeiros séculos; mais tarde, Tereza de Ávila a ensinava às noviças).
Cada vez se torna mais evidente que, se o cristianismo recuperar sua primitiva tradição, será importante progresso. Com ‘primitiva’, refiro-me ao cristianismo perdido, que produzia no homem uma verdadeira transformação, um cristianismo totalmente diferente que quase nada tem a ver com aquilo que, hoje, as Igrejas e a doutrina cristãs ensinam.
...Convenci-me de ter em minhas mãos documentos que poderiam revolucionar o entendimento atual da religião cristã. Neles deve estar a chave do cristianismo prático, em contraposição às doutrinas e aos rituais de hoje, que apenas tentam fazer com que os fiéis continuem acreditando em teorias que não podem ser provadas ou experimentadas diretamente.
...Com Constantino, o cristianismo assumiu a forma de religião secular e se afastou totalmente daquilo que se poderia chamar ‘um caminho interior’. As pesquisas indicam que, no passado, existiram certas práticas da religião cristã, hoje esquecidas, iguais às práticas das tradições místicas orientais.
...Falei ao Metropolita (chefe da Igreja ortodoxa) que, quando assisti ao culto religioso que ele dirigira, me impressionou a falta de emoção na sua voz e que, hoje, o coro me impressionou do mesmo modo, com a quase total ausência de emoção na voz dos cantores. Respondeu-me: ‘Isso é absolutamente verdadeiro. Foram necessários cinco anos para conseguir isso, mas eles, finalmente, estão começando a compreender... ’ Eu sabia o que ele queria dizer: esse aspecto mais inesperado do cristianismo que, talvez, em nossos dias, pouquíssima gente conhece. ‘Temos de destruir a emoção para chegarmos ao sentimento’. ‘No estado de oração (sem emoção e imaginação) somos vulneráveis (à experiência mística)’ (é o que ensinam os místicos).
...Muito antes de Sócrates e Platão falarem de uma inteligência universal que só desperta no homem quando suas emoções cessam, Heráclito dizia: ‘As almas impassíveis (indiferentes, não-emocionais) são as melhores’ (estão mais próximas da percepção de Deus).
...Na capela, com os monges, o ritual continua: ‘Kyrie eleison, Kyrie eleison, Senhor, tende piedade de nós... ’, repetidas vezes, interminavelmente... As dores voltam redobradas, os joelhos na pedra dura, as costas doem a cada prostração, braços estendidos e a testa tocando o chão de pedra... Com frio, faminto, suado, cansado, subo e desço, mecanicamente, trinta, cinqüenta vezes. Tento encontrar um pensamento em que me concentre para não me perder no desconforto físico, e então..., percebo que não há mais pensamentos em minha mente... não há associações... nada..., somente um vazio... (semelhante à meditação dinâmica do Osho; na meditação das tradições místicas orientais, busca-se o Vazio que, se obtido, pode levar o indivíduo a ser preenchido pela divindade).
...Qual é a resposta correta ao amor de Deus? ‘Aceitá-lo. Não há nada a fazer’. (Não faça nada; tudo já está feito e a escolha não é nossa).
...Eu sabia terem existido, no cristianismo primitivo, exercícios e métodos para atingir a experiência religiosa (mística), hoje totalmente esquecidos. ‘Se você permanecer no serviço religioso com as mãos caídas ao lado do corpo, a cabeça ligeiramente inclinada, não muito, o peso do corpo tranqüilamente equilibrado... Começará a perceber que ocorrerão algumas modificações em você. A respiração muda, certos músculos relaxam, outros se tornam firmes sem tensão... Os exercícios, sobre os quais você indaga, originaram-se desse modo, da observação que os Padres fizeram do que acontecia quando se encontravam em estado de oração... ’
...Atenção sobre si mesmo (Gurdjef, Krishnamurti, Benoit) é o que importa; é isso que traz o conhecimento real e, em conseqüência, a fé real (convencimento). Este é o verdadeiro ensinamento da tradição cristã, o conhecimento que salva, que transforma a vida do homem (resultando no novo homem). E isso nada tem a ver com crer ou acreditar, pois está comprovado pela experiência pessoal de muitos.
...O cristianismo, como as tradições orientais, reconhece que o pensamento (raciocínio ou desejo) por si só não pode mudar a natureza humana; que sua doutrina não pode ser apenas, como tem sido, uma explicação das coisas, uma explanação sobre, particularmente, a vida de Jesus; mas que deve ser um meio de transformar totalmente o homem. Podemos ter pensamentos elevados, caráter íntegro e, apesar disso, não seremos capazes de viver de acordo com o que sabemos ser verdadeiro e correto, e não mudaremos para melhor. Isso é fato evidente na experiência de cada um. Enquanto nossa vida emocional continuar sendo o que é, nem todo o pensar correto do mundo, e todas as orações, conseguirão mudar uma vírgula de nossa natureza essencial, de nossa personalidade (isto é, não daremos um passo em direção a Deus).
Quando temos compreensão intelectual de uma grande idéia, vem-nos a convicção de que viveremos de acordo com essa idéia, que nossa vida mudará. Parece que não percebemos o grande número de vezes que a vida mostra como erramos ao pensar assim, pois continuamos a cair e a cair. Em especial, os pensamentos ligados às mais importantes verdades têm o poder de envolver toda nossa consciência, que ficamos cegos ao fato de que são os impulsos emocionais e físicos que dirigem totalmente nossa vida do dia-a-dia e nos fazem errar continuamente.
...As tradições, ao afirmarem que Deus está além da compreensão do homem, não estão dizendo que é impossível captar a natureza de Deus. A inteligência tenta compreender Deus. Mas serão apenas idéias, e idéias não podem nos transformar. Algo mais difícil e indefinível é necessário. O homem não pode depositar esperanças no seu intelecto porque nem mesmo o máximo aperfeiçoamento de sua mente pode levá-lo a uma relação com Deus, embora muitos religiosos assim pensem e afirmem (não é a evolução que salva).
...A emoção (e a imaginação, segundo o Zen) é um dos principais fatores que mantêm o ser humano no estado de ‘psicose espiritual’, fato que o afasta de Deus.
...O intelecto e a razão sempre exigiram a necessidade de entender as experiências que outros deixaram. Na Idade Média, essa exigência deu demasiada ênfase à autoridade das Escrituras e dos dogmas, deixando em segundo plano a experiência interior, pessoal. Após o Renascimento e a revolução científica, a prova experimental e a demonstração lógica ganharam importância. Esse debate entre revelação e fé continua até hoje, sem que ambos os lados suspeitem que a verdadeira questão é a ativação, no íntimo do homem, de algo muito mais importante: uma qualidade inteiramente nova de atenção.
...A percepção e o auto-conhecimento só são possíveis num certo estado interior, que não seja distorcido pelas emoções e pensamentos. O que liberta o homem é esse estado de atenção, que afasta o ego e purifica a mente. O conhecimento que liberta só pode ser adquirido nesse estado específico de consciência (quando o ego se afasta).
...Se a Igreja conhece a verdade, porque houve necessidade do dogma, um elemento imposto e opressivo para todos? Porque um ensino destinado a orientar nossa relação com Deus se transformou numa imposição de afirmações que provocam reações de descrença na doutrina da Igreja? É porque, na impossibilidade de comunicar a experiência inefável de alguns, através do dogma a Igreja tenta fazer que, dessa experiência, os fiéis tenham, pelo menos, um vislumbre.
...As tradições místicas enfatizam a ilusão dos bens terrenos e a soberana realidade do mundo atemporal, e afirmam que todos nós temos capacidade de chegar a Deus pelas ‘nossas próprias forças’. O cristianismo, ao contrário, nega isso categoricamente, em razão do pecado original que implica uma separação entre o homem e Deus, que o homem, sozinho, não consegue eliminar; afirma que Deus é absolutamente inacessível, e que só Ele pode fazer o homem participar de sua natureza divina. Contudo, nas tradições místicas, a alma é, por natureza, divina, e só necessita eliminar as ilusões que a afastam dessa compreensão para encontrar Deus, encontrando-se (pela meditação).
Para o cristianismo, só se salvam os que crêem, não importando seu elevado grau de vida interior. Uma criança e um medíocre, se crêem, estão mais próximos da salvação que os maiores ascetas. Há pessoas muitíssimo religiosas, mas isso de nada lhes vale se não são cristãs; o que salva é crer e aceitar Jesus como salvador. Assim, comparadas ao cristianismo, as religiões ‘pagãs’ parecem obsoletas e deturpadas pois afirmam que já estamos todos salvos. Contudo, a afirmação dos sábios é que ‘seria uma perda irreparável se as outras tradições desaparecessem da Terra’. Mas, lamentavelmente, muitas já desapareceram devido à ação de missionários cristãos!... Contrariando esta acusação, uma encíclica de Pio XII diz: ‘A Igreja jamais tratou as doutrinas pagãs com desrespeito ou desdém; ao contrário, purificou-as de todo erro, complementando-as em seguida, e rematando-as com a sabedoria cristã, destruindo a corrupção e, em especial, a idolatria... ’ (!!!) (vê-se acima com que desrespeito a Igreja as tratou, pois julgou-as impuras, incompletas, erradas, corruptas e idólatras).
...Reações emocionais, apego e desejo, são inimigos da verdade e levam o pensamento e o raciocínio ao engano. O objetivo da psicologia da religião deve ser fazer que percebamos (pelo auto-conhecimento) nossa condição real, quando livre de reações egoístas. Contudo, a linguagem do cristianismo se envolveu com as reações das emoções, em vez de se voltar para o sentimento, que é o caminho correto.
...Pela doutrina cristã, o abismo entre o homem e Deus é tão vasto e profundo que todo o esforço para vencê-lo é inútil. Diferentemente, as tradições não-cristãs (e até Paulo) afirmam que ‘já’ estamos salvos, que não há nada a fazer quanto a isso, afirmações que alguns dizem ser perigosa, pois leva o homem à passividade e, daí, ao ‘pecado’ da preguiça e do orgulho. (Krishnamurti e o Zen afirmam que desde sempre estamos salvos; falta-nos apenas a percepção desse fato, difícil devido às ilusões vindas da percepção do mundo ao nosso redor). Contudo, na própria doutrina cristã, nos Evangelhos e outras partes da Bíblia, assegura-se que nada escolhemos, não decidimos. Basta analisar, cuidadosamente, essas passagens (que, provavelmente, o papado se esqueceu de modificar), e veremos que isso é um fato. Se é fato, como poderemos escolher nos salvar? Jesus mesmo disse a Pilatos: ‘Nenhum poder teríeis se do alto não vos fosse dado!’ A ciência mais avançada afirma a mesma coisa: que o ser humano (com certeza todos os demais seres cerebrados), nada escolhe. O universo é todo ele interdependente, interconexo, inter-relacionado tão completamente que cada fenômeno, cada evento, depende de todos os demais fenômenos ou eventos e não da vontade de seres individuais. (Krishnamurti enfatiza: ‘Aquele que escolhe é imaturo’, não significando que nossa escolha pode ser frustrada, mas que aquele que ‘pensa’ que escolhe não despertou ainda. Dessa presunção vêm todos os conflitos e sofrimentos do homem, desde a frustração pelo fato de não se realizar o escolhido, até as maiores guerras e violências).
...A busca, no verdadeiro sentido, é uma característica da mente humana, fato que a psicologia ocidental e as religiões populares ainda não reconhecem. (A ciência está chegando à idêntica conclusão, como indicam pesquisas recentes). Isso mostra que todos necessitamos da Verdade; não sabemos como nem onde encontrá-la, mas existe em nós uma esperança que tem raízes num profundo sentimento de urgência em nossa mente.
...Os iluminados condenam as religiões organizadas; apontam-nas como responsáveis pelo condicionamento da inteligência, imposto por dogmas e mistérios da fé; afirmam que a causa principal da aflição humana é a tendência que o homem tem de impor, à totalidade de sua vida, idéias mecânicas, condicionadas, o que acarreta toda sorte de violência, conflito e injustiça da historia da humanidade, e que a religião organizada é até mais culpada que as ideologias políticas, pois disfarça aquilo que impõe aos fiéis com idéias ‘sagradas’, como Deus, paraíso, salvação, espiritualidade, pecado, ressurreição, reencarnação, castigos e prêmios. O chamado ‘amor cristão’ é apenas o receio do castigo que faz o homem esforçar-se para ser bom, levado por impulsos de medo e ambição. O amor verdadeiro, segundo o Zen, é impossível sem que cesse a dissipação da energia psíquica acarretada pela imaginação e emoção, através da atenção em si mesmo em todas as situações.
É preciso estarmos sempre atentos às reações internas (emoções) produzidas pelos acontecimentos externos, que geram sentimentos negativos de desagrado, violência, aborrecimento, ressentimento, ciúme, injustiça, etc., ou mesmo positivos, como de euforia, alegria, prazer, reações que, praticamente, dominam nossa vida interior, com reflexos em nossa conduta exterior. Não devemos esquecer que é visão comum a todas as tradições, inclusive ao cristianismo primitivo, que as emoções, positivas ou negativas, são obstáculo à percepção de que já estamos salvos.
...Freud trouxe enorme depreciação da possibilidade humana. O sofrimento neurótico do homem resulta, segundo as tradições, da falta de conhecimento de si mesmo, não da repressão à sexualidade, como supunha Freud. No íntimo do homem existe a necessidade de conhecer a verdade, fato que distingue o homem dos demais animais. A falta de auto-conhecimento, produz efeitos fisiológicos, psicológicos e sociais sempre danosos. Toda corrupção da religião e, em conseqüência, da civilização, tem início quando o esforço para o auto-conhecimento se torna menos atrativo do que a satisfação dos interesses pessoais.
Mas, existiria no homem uma atração natural pela verdade mais forte do que a natural atração pelo prazer? Parece que as religiões, no Ocidente, acreditam que não, tanto que, por isso, incutiram, na mente dos homens, idéias como inferno, pecados mortais, penas eternas, satanás, reencarnações, carma, mundos expiatórios etc., cujo objetivo é, pelo medo egoísta, manter os homens na fé, presos à igreja, isto é, levá-os à prática das virtudes, as quais, conforme ensina a Igreja, asseguram uma antevisão do céu, prêmio pelo esforço consumido para, conforme os mandamentos, parecer virtuoso. Contudo, no cristianismo primitivo (mas não nas Escrituras Sagradas, que devem ter sido modificadas, convenientemente, pelos grandes da Igreja, para a manutenção do poder temporal, em todos esses séculos), as virtudes, não sendo espontâneas, mas praticadas em obediência a mandamentos, eram consideradas obstáculo para a salvação, devido ao desperdício de energias exigidas para sua prática (é o que, também, assegura o Zen budismo).
...A idéia de santidade, no Ocidente, contribuiu para desestimular o homem. O santo é apresentado como um ser dotado de inclinação não natural para a verdade. Suas vidas de sacrifícios e devoção são descritas de tal modo que fazem acreditar ser impossível para nós, cheios de defeitos, seguirmos seus exemplos. E a crença os apresenta dotados do poder milagroso de ajudar quem lhes dirige orações, fato que estimula nos homens a passividade e a credulidade, e a busca pela religião como única maneira de se salvar.
Contudo, os iluminados sempre afirmaram, como Jesus o fez, que é possível a todo homem comum fazer o que eles fizeram, ‘e coisas maiores ainda’, que somos da natureza de Buda, que desde sempre estamos salvos (Hoje, a própria ciência mais avançada confirma).
...Julgar alguém como encarnação de Buda, isto é, tão diferente dos demais que ele pôde chegar ‘lá’ e nós não podemos, é sinal de descrença na justiça divina. No entanto, é o que faz crer a doutrina da Igreja: que somos inferiores, pecadores, corruptos e indignos (tanto que nascemos no pecado original; a igreja, talvez para mostrar como somos indignos, lembra, com freqüência, a frase ‘inter faeces et urinam nasciturum’, isto é, entre fezes e urina todos nascemos) e que o Pai teve de mandar seu filho para morrer na cruz para nos salvar (Contudo, quem foi salvo pela morte de Jesus? Nossas igrejas continuam, ainda, repletas de fiéis orando e pedindo, sempre, pela salvação!).
Por outro lado, ao contrário do que foi dito acima, a Bíblia Cristã afirma que ‘somos o templo do Altíssimo’, que ‘o Pai em nós habita’, que ‘o Reino de Deus já está dentro de nós’. Como conciliar essas contradições? Se o próprio Deus reside em nós, porque temos de exercitar o auto-domínio, o controle de nossos atos, orar a Deus para não cairmos em tentação, orar pela graça, pela salvação?
...A Igreja, no passado, compreendeu e ensinou que deve haver um permanente misticismo, uma prática constante cujo objetivo é fazer com que percebamos a verdade da presença de Deus em nós. Jesus afirmou: ‘Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará’; não disse se conhecermos a verdade, mas que a conheceremos e, assim, seremos libertados. De que? Respondem os místicos que é a libertação da ilusão em que estamos; que então perceberemos a verdade de que temos, todos nós, desde já, a natureza divina.
Estamos, assim, mergulhados na ilusão e para sairmos dela, como as tradições místicas afirmam, e o primitivo cristianismo ensinava, devemos estar sempre conscientes, isto é, atentos. Esse ensinamento foi perdido, na doutrina cristã, e o estar consciente, a atenção, é a coisa mais esquecida de todas. Estar consciente, atento, é estar presente; atenção significa presença em todos os momentos da vida do dia-a-dia; não devaneando, imaginando, lembrando, mas atento.
Quando os olhos, a audição, os sentidos enfim, e os pensamentos vagueiam exteriormente, a mente se torna dispersa em meios às coisas do mundo; mas, se os sentidos se voltam atentos para o coração (para dentro), a mente torna-se fixa, sem pensamentos, e esse é o primeiro passo para nos abrirmos à percepção do divino em nós. Reza o Deuteronômio, 15:9: ‘Guarda-te; não te deixes surpreender pelo pensamento ímpio no teu coração’. Isto é, presta atenção a ti mesmo, à tua totalidade (psíquico e físico); não atentes para uma coisa e não para outra (atenção sem escolha). E como faremos isso? Direcionando, pela vontade, a atenção para nosso interior (‘O ‘eu’ é o caminho, a verdade e a vida’; ‘ninguém vai ao Pai senão por mim’ (pelo eu)).
Devemos buscar, dentro de nós, o Sagrado. O ego impede a atenção ao interior porque ele é dispersivo, desatento; esse é seu mal, e essa desatenção deve ser destruída. Para isso, auto-conhecimento. Não se exige que sempre estejamos exercendo o auto-domínio, mas que percebamos em que condições morais e físicas (psicológicas e fisiológicas), nos achamos a cada instante; que percebamos o nosso estado de ilusão e o condicionamento que desse estado se origina.
...A idéia de Deus atuando no mundo, pelo Espírito Santo, uma suposição do pensamento religioso ocidental, era, primitivamente, um símbolo do jogo das duas forças divinas fundamentais atuando por toda parte e em tudo (yin e yang, como ensina o Taoísmo).
...Símbolo religioso é um sinal, representação, deixada por alguém, que teve maior compreensão, para comunicar sua experiência, em geral não traduzível em palavras, devido à sua compaixão pelos que não a experimentaram. O símbolo objetiva despertar em nós ecos daquela experiência e nos estimular à busca da verdade. Mas, erradamente, nos atrevemos a pensar que compreendemos a verdade do símbolo e criamos assim os males do dogma. As idéias, rituais, símbolos surgem a partir de uma grande experiência e são deixados como diretrizes para nossa orientação e para a destruição do ego, bem como forças para despertar nosso sentimento (e não as emoções).
...Para impedir a degradação da energia dentro de nós, energia que possibilitará a experiência religiosa, exige-se crescente aumento da atenção, que é o que forma a alma em suas infinitas gradações, dentro de nós, como afirmava o cristianismo primitivo. ‘Por trás do que o mundo (e a Igreja) denomina virtude está o secreto desperdício das energias sagradas do homem. Essa verdade jamais deve ser popular e aqueles que sabem devem ser cautelosos ao falar disso, para o bem de todos’. Essa afirmação pode parecer, ao homem comum, destituída de moral; mas ela é a única base da verdadeira moral. O maior inimigo da experiência religiosa (da percepção de Deus) é o que o mundo ocidental chama virtude (pois que, não sendo espontânea, seu exercício resulta em perda da pura energia psíquica que, se acumulada, pode levar ao satori, à percepção de que estamos salvos desde sempre).
...Cada um deve ter capacidade de investigar por si mesmo, para não ser enganado pela história, pelos fatos, pelos outros (não ponhas outra cabeça acima da tua), isto é, cada um deve procurar sua própria experiência e não se satisfazer com a experiência alheia (esta, mesmo que seja experiência genuína, com o tempo, é popularizada e passa a ser interpretada e modificada para ficar compreensível ao homem comum).
...Eu acredito por causa das forças (divinas), e não acredito por causa das forças (divinas). Sou moral ou criminoso, bom ou mau, por causa das forças. Essa é a ‘lei’, a causa real daquilo que eu sou, do que me dirige (conforme escreveu São Paulo, nada escolhemos, ‘o Senhor opera em nós o pensar, o querer e o fazer’).
...Na doutrina cristã primitiva, tão importante era o valor da atenção que se afirmava que ‘nem mesmo Deus pode ajudar aquele que não tem nenhuma atenção’.
...O cristianismo, no correr dos tempos, foi tão desvirtuado pela Igreja que os pesquisadores fazem distinção entre cristandade e cristianismo (veja na obra ‘O Papa e o Concílio’, a introdução de Rui Barbosa). Cristandade é o mesmo cristianismo original, mas esfacelado pela ação da Igreja. O Ocidente só conhece o cristianismo esfacelado. O primitivo cristianismo buscava a Verdade como o misticismo a busca. Ensinava que os ‘momentos de presença’, isto é, de atenção, é que são importantes, e mostrava o abismo existente entre as idéias e conceitos (teoria) e a realidade, coisas que não são mais ensinadas porque se esqueceu a prática da contemplação. Hoje, o cristianismo ensina apenas teorias; as práticas primitivas, que podem nos levar à percepção de Deus, estão esquecidas.
...O cristianismo primitivo buscava o esvaziamento da mente do homem, que então seria preenchido como um ser feito à semelhança de Deus (o Zen, numa palavra: ’esvazia-te’). O homem pode vir a saber que ele é nada menos que Deus, mas sem esse preenchimento não sentirá o tremendo impacto dessa verdade. Só o percebimento da verdade pode gerar compaixão pelo próximo e o real auto-conhecimento. Mesmo os que amam a justiça, mas não têm experiência das forças divinas que atuam em nós, jamais produzirão algo a não ser mais violência e ódio.
...O homem, que não teve experiência da verdade, é escravo da emoção e da imaginação (ilusões), influências que dominam sua vida e que, no primitivo cristianismo, eram denominadas ‘demônios’; essas influências é que são os verdadeiros demônios, pois que impedem a percepção da divindade (como ensina o Zen, é o ‘filme emotivo-imaginativo’ que nos tira toda atenção, e assim acaba com toda energia que poderia trazer o despontar do satori, ou iluminação).
...Despertar a emoção espiritual (sentimento) deve ser o trabalho da religião, o que se realiza pela renúncia do apego aos resultados do espírito (desapego aos frutos da ação; indiferença, como diz K.; e o Zen: se a ‘coisa’ vem, tudo bem; se não vem, tudo bem, também).
...A oração do cristão de hoje não tem qualquer efeito; não chega a Deus. Nela não há qualquer ressonância ou poder. Mas, isso pode ser modificado. Podemos aprender com o budismo que ensina que primeiro temos de buscar nossa libertação (Jesus: ‘Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus que o demais vos virá por acréscimo’ e ‘Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará’) e, só depois, trabalhar para a libertação dos demais. Se não agirmos assim, não teremos a experiência necessária da verdade e cometeremos erros e injustiças. Todos os que pregam o amor ao próximo, sem que tenham recebido esse amor pela experiência, lembrem-se de Isaias que disse: ‘Aquieta-te e sabe: eu sou Deus’, e de Sócrates e Platão que ensinaram ser necessário estar interiormente tranqüilo para que possa surgir aquela força transformadora que em nós desperta inteligência, amor e compaixão. Ensinavam que se deve fazer cessar a sensação do eu (interferência do ego) de todos os pensamentos e raciocínios a fim de atingir um vazio a partir do qual a certeza que não tem nome pode se revelar.
...Buscar a libertação é buscar contato com Deus, em nós mesmos. O homem deve buscar a sua libertação e deve abandonar a fascinação neurótica que sente para libertar os demais (depois de liberto, saberá o que fazer e só fará o que for correto).
...O cristianismo necessita que as tradições orientais lhe tragam, cada vez mais, suas doutrinas, para que possamos ter elementos para a busca interior. Após percebermos Deus em nós, estaremos habilitados a amar o próximo. Precisamos armazenar energia psíquica para deixarmos de ser dependentes de nossas emoções. Essa energia não pode surgir sem um esforço, consigo mesmo, de uma natureza especial (a auto-observação, de Gurdjeff, do Zen e de Osho, a observação sem escolha, de K.). Externamente, devemos agir como pessoas virtuosas; internamente, devemos estar sempre atentos e observar as minúcias de nossa tendência ao ‘pecado’, de nossa impossibilidade de corresponder a esses papéis exteriores (o ‘conhece-te a ti mesmo’).
...Devemos nos dedicar às leis da ressonância, o que só pode ser feito nos estados mentais mais tranqüilos, e essa é, precisamente, a função da meditação. Sentado, corpo tranqüilo e natural, relaxado e alerta, olhos fechados, o mais presente possível, seremos ajudados a construir uma ponte pela qual o Deus artificial (porque criado pela mente do homem) possa ser, pouco a pouco, substituído pelo Deus Real. A meditação nos ensina como sermos tranqüilos no meio de todos os movimentos e ruídos de nossa natureza interior. São palavras, hoje esquecidas, dos padres da primitiva Igreja cristã: ‘Meditação é a coisa mais importante que a humanidade tem a fazer’.
Ao fazer sua prática, não lute contra pensamentos intrusos ou ruídos. Feche os olhos e tente trazer a atenção para seu interior. Não se irrite e nem lute contra esses obstáculos. Aceite todos eles; nem mesmo permaneça com o desejo de que eles cessem. Isso é o melhor a fazer para ter sucesso.
...‘A Nuvem da Ignorância’, traduzida por Fr. William Johnston, afirma que a virtude da humildade só é perfeita quando tem origem na experiência de Deus; é imperfeita, falsa ou imitação, quando provém de outra fonte (como os mandamentos das diferentes igrejas etc.). Ser virtuoso e humilde, amar o próximo, porque a Igreja manda, é absurdo. Mas, aquele que percebeu e sentiu o que realmente é, não tem nenhuma dificuldade para ser humilde, porque duas coisas se lhe tornam claras: primeiro: a degradação, fragilidade e miséria da condição humana (resultantes da ignorância; ou do pecado original, como diz a Igreja); devido a esse pecado, o homem nunca será totalmente livre na vida, não importa o quão santo se torne (?!); segundo: reconheceria o amor além de todo amor que Deus tem para com os homens pois, às vezes, os mais adiantados na oração contemplativa receberão uma graça tão grande, que se sentirão arrebatados de si mesmos (fora de si mesmos; como Paulo, Teresa e os iluminados) e nem cuidarão (não lhes importará, então) se são santos ou pecadores.
Mesmo que todos os anjos e santos do céu, e todos os religiosos do mundo, orem para o crescimento da humildade de alguém, isso de nada adiantará, pois é inteiramente impossível chegar à perfeita humildade (ou a qualquer outra virtude) sem ter a experiência de Deus. Portanto, nunca fuja do trabalho que a aquisição do verdadeiro autoconhecimento exige, pois, quando o tiver adquirido, terá conhecimento do amor de Deus baseado em experiência real, certeza que nada poderá afastar de sua mente (Jung e iluminados, afirmaram o mesmo).
...Em todas as situações e momentos, procure experimentar em você mesmo, não só a Eterna Presença, mas seu ego condicionado, repleto de interpretações equivocadas do mundo (pela falta de auto-conhecimento). É um trabalho difícil porque, quase sempre, o experimentador está ausente, imaginando, devaneando, sonhando, pensando, lembrando. É necessária uma atenção total; só essa atenção traz a presença total do experimentador ao que faz, no aqui-agora.
...Os teólogos cristãos percebem hoje, e com razão, que o cristianismo católico recebeu dose excessiva de influência da forma de pensar grega e que, por isso, a teologia inclinou-se a classificar, conceituar, racionalizar, dividir, departamentalizar tudo, com efeitos nocivos à doutrina e perda de sua essência original. A própria teologia cristã se envolveu nisso, deixando para segundo plano a oração contemplativa (libertadora). Outro fator dessa decadência foi o apego, sem limites, da igreja romana ao poder temporal.
...O cristianismo, católico e protestante, foi sempre incapaz de abrir-se a outras culturas. Grandes missionários, como RN, na Índia e MR, na China, onde estiveram para promover diálogo sério com as tradições orientais, foram, lamentavelmente, condenados ao silêncio pela Igreja. A incapacidade do cristianismo de reconhecer e receber a sabedoria dos chineses e dos hinduístas constitui um episódio de conseqüências trágicas na sua história. Com o Concílio Vaticano II, contudo, purificou-se do exagero grego. Hoje, ao que parece, a Igreja prepara-se para dialogar com as culturas orientais (!?), fato que lhe será muito importante e enriquecedor (muitos monges, padres e fiéis já estudam o zen e o hinduísmo e praticam suas técnicas de meditação).
Grandes missionários (Thomas Merton, William Johnston e outros) acreditavam que o primitivo cristianismo ensinava as mesmas verdades das tradições orientais. W. Johnston, em ‘O Zen Cristão’, afirma a necessidade que existe, entre nós, cristãos, de métodos de oração que envolvam postura física, respiração, atenção e cessação das associações automáticas (condicionadas) do pensamento. (Isso nada mais é que meditação). No Japão, afirma ele, número crescente de cristãos está descobrindo o Zen e reaprendendo a orar pois, o fato lamentável é que muitos monges e freiras católicos estão, todos os dias, ensinando todo tipo de coisas, de literatura a matemática, mas não sabem ensinar a orar. A civilização ocidental tornou-se desequilibrada a tal ponto que os homens sérios não percebem a diferença entre um homem e um computador (como disse o sábio persa: a cultura ocidental é prostituta). Quando isso acontece, a possibilidade contemplativa existente em cada homem definha, e eles fazem coisas loucas. Isso está ocorrendo, até mesmo, entre monges e freiras. São pessoas cuja vida devia prepará-las para o satori. No entanto, elas sentem que nada tem sentido, a menos que estejam se movimentando, o tempo todo, de um lado para outro, fazendo toda sorte de coisas como se as fizessem em nome da caridade pregada pela fé cristã.
No livro ‘Catolicismo Zen’, D. Graham, prior de um mosteiro beneditino na Inglaterra, aponta os aspectos mais importantes da prática e da doutrina do Zen budismo que o cristianismo ocidental precisa, desesperadamente, incorporar a fim de redescobrir aquilo de essencial que foi perdido. Em especial, ressalta a importância da atenção, isto é, o ato de levar a mente a estar em relação com tudo com que se depara. Diz: ‘Não se exige uma concentração intensa, de testa franzida, mas, ao contrário, um despertar da mente sem fixá-la em nada, a quietude da pura atenção’ (Krishnamurti e as tradições orientais: a observação atenta e sem escolha). ‘É preciso aprender que simplesmente olhar as coisas como elas são, com mera atenção, pode ser um ato religioso. Assim, estaremos habilitados a perceber a criação de Deus tal qual é, com nossas mentes livres das emoções egoísticas e, logo, mais conscientes do próprio Deus’. Segundo ele, o futuro do cristianismo pode depender da revisão de suas doutrinas básicas à luz das percepções religiosas do Oriente. Afirma que o grande erro cometido pelo cristianismo do séc. I, talvez a maior tragédia de sua história, pelas graves conseqüências, foi um conservadorismo excessivamente preocupado e incapaz de assimilar doutrinas ‘estranhas’. ‘Talvez devêssemos questionar se a Igreja, em todos estes séculos, não esteve demasiadamente preocupada com a religião em torno de Jesus e muito pouco com a religião de Jesus. ’ (isto é, a Igreja quase que somente ensina sobre a vida de Jesus e não sobre aquilo que Jesus ensinou).
...No budismo mahayana, ensina-se que o estado iluminado de Buda, o grau supremo de sabedoria e compaixão, é acessível a todos; todos somos desde sempre Budas. No cristianismo, contudo, desde o nascimento somos pecadores e só seremos salvos pela graça divina e se formos virtuosos. Essa diferença é que, hoje, está levando muitos ocidentais para as práticas místicas orientais, atração que é reforçada pela sua coerência com as descobertas da física moderna (quântica) e com a nova psicologia transpessoal.
...Hoje, por toda a América, vemos cristãos de muitas seitas introduzindo em suas práticas espirituais a meditação Zen. Buscadores sérios, monges e padres, estão praticando a disciplina da atenção dos ensinamentos budistas. Um deles, H.Cox, diz: ‘Pela minha experiência pessoal com a meditação Zen aprendi que, ao contrário de me tornar alienado da participação ativa no mundo, como muitos pensam e afirmam, ela me permite pensar e agir de modo mais decisivo, mais participativo, ver pessoas e eventos de modo mais nítido, sofrer menos frustrações. Convenci-me de que essa meditação é perfeitamente compatível com a fé cristã e que será sempre uma parte de minhas práticas. Ela deve ser o equivalente moderno de algo que perdemos da tradição cristã, a idéia de um sabat ou tempo prescrito para parar, não fazer nada, permitir seja o que for... ’ (não fazer nada, deixar que venha o que vier, a escolha não é nossa, fechar os olhos e parar de pensar).
Insiste Dom Graham que o cristão precisa buscar alcançar uma qualidade de consciência transformada, ‘a consciência de Cristo’, como o budista busca alcançar a consciência de Buda. Diz que, nas epístolas de Paulo e no quarto Evangelho, está mais do que sugerido que é isso o que todo cristão deve fazer, mas isso foi esquecido pela Igreja.
...Será que aos cristãos é vedado receber outros ensinamentos que não os bíblicos? A realização em nós da ‘consciência de Cristo’ pode muito bem exigir um profundo questionamento dos ensinamentos do cristianismo de hoje. As orações, hoje, quase que somente se resumem em pedir a Deus o que queremos que ele faça para nós ou para outras pessoas, ou que ele faça com que outras pessoas procedam, ou que os acontecimentos ocorram, do modo como nós queremos. (A Igreja se esqueceu que as orações nunca tiveram essa finalidade; que são tão somente meios de nos aproximarmos de Deus, e que, quanto mais próximos dele, mais distantes nós estamos daquelas necessidades e maior compreensão temos em relação aos acontecimentos da vida. Como no poema Zen: ‘Se você ainda não esteve lá, muitos pesares terá. Mas, uma vez lá, como parecem sem importância todas as coisas’ (‘lá’ significando Deus). (K: ‘Com o percebimento, vê-se que todas as coisas pelas quais os homens sofrem, lutam, matam e morrem, são fúteis e infantis’, e Jesus: ‘Buscai, primeiramente, o Reino de Deus; o demais vos será dado por acréscimo’).
...Thomas Merton, monge trapista, dedicado à pesquisa e estudo do misticismo, afirmou claramente em seus escritos, que o Zen tem papel decisivo a desempenhar no Ocidente. Que a chamada renovação cristã significa que os cristãos de hoje estão abertos às tradições asiáticas, prontos, nas palavras do Vaticano II, a ‘reconhecer, preservar e promover os bens espirituais e morais’ encontrados nelas (parece que a meta principal, que é a união com Deus, continua ainda esquecida pela Igreja). Mas Merton acha que isso será muito difícil em face das poderosas tendências seculares e anti-místicas que lutam ativamente contra a restauração do cristianismo contemplativo (primitivo) na Igreja do Ocidente (provavelmente, porque, não necessitando o cristianismo contemplativo de intermediários, os fiéis esvaziassem as igrejas?).
Para ele, o Zen é a única saída para o Ocidente, pois não exige qualquer disputa doutrinária e é, também, totalmente inclassificável em termos religiosos, morais ou filosóficos ocidentais. ‘O verdadeiro caminho do budismo é no sentido de uma iluminação que leva a uma visão além dos sistemas, estruturas culturais e sociais, além de todo ritual e crença religiosa. O Zen nos proporciona o puro ato de ver (ver sem interferência do ego), a pura consciência. E é este o verdadeiro objetivo da meditação e da contemplação, que levam à salvação em Cristo. A meditação, acima de todas a do Zen, não procura explicar, mas enfatizar o prestar atenção, o tornar-se consciente, o estar atento, isto é, desenvolver determinado tipo de consciência que está acima e além da ilusão das fórmulas verbais (da oração discursiva) ou da excitação emocional. Se nos abrirmos às tradições místicas do Oriente, teremos oportunidade extraordinária de aprender mais sobre o potencial de nossa própria tradição, porque as tradições asiáticas se aprofundaram muito mais do que nós em suas práticas. ’
...O que falta, hoje, no cristianismo, é a experiência mística, a experiência direta de Deus; falta o conhecimento de que se pode passar, da teoria e doutrina, para a percepção direta daquilo que a doutrina fala. (Benoit: ‘Devemos deixar de falar e ler a respeito da experiência mística e passar às tentativas de experimentá-la’). O misticismo (e a meditação) resulta da investigação interior, do auto-conhecimento e das tentativas (perseverança). O amor pelo próximo, as virtudes, a fé verdadeira (convicção), a sabedoria e a compaixão, são resultados da meditação, sem a qual essas qualidades não existem (são forçadas).
...O sentimento geral, talvez inconsciente, de milhões de pessoas, é que o cristianismo, simplesmente não tem poder para realizar qualquer mudança nos indivíduos. Ele, como é hoje, não produz qualquer resultado, quer no indivíduo, quer no mundo. A associação equivocada da Igreja de hoje com correntes políticas, econômicas e sociais, disfarça essa terrível lacuna (vazio) das práticas religiosas cristãs.
...Questão relevante é a necessidade de ‘acumulação interior de energia que resulta da atenção’, energia que pode levar ao ‘satori’, à iluminação, verdades que a Igreja de hoje não mais ensina, talvez porque tenha se esquecido.
...Merton e Suzuki equiparam a expressão ‘pureza de coração’ (mente ou coração sem mácula, descontaminado, limpo), dos Padres primitivos, ao ‘vazio’ (no qual não há impurezas), do Zen. ‘Ambos referem um certo estado de consciência no qual o homem está livre (cessam) de pensamentos e desejos, de todas as imagens e associações que perturbam e ocupam a mente, trazendo uma condição favorável à mais elevada experiência, que rejeita até as idéias mais puras e espirituais e não admite nenhum conceito’ (é a meditação). A ‘pureza de coração’ põe o homem num estado de unidade e vazio, o qual Deus pode vir a preencher.
...Gurdjieff (como muitos sacerdotes cristãos) afirma que é extremamente difícil encontrar, no mundo, um verdadeiro cristão. E pergunta: ‘Pode alguém amar seu próximo por mandamento? Isso é impossível, mas é o que manda o cristianismo. É necessário amar, mas primeiro devemos ser capazes, capacidade que nos é dada pelas práticas da religião. Infelizmente, com o tempo, a Igreja adotou o amar sem a capacidade de fazê-lo porque foram esquecidas as práticas que deviam preceder o amar. Assim, é ingênuo, desonesto e insensato usar o nome de cristão. ’ A capacidade de amar é resultado da percepção de Deus. O que, hoje, denominamos amor não passa de apego, qualidade egoísta.
...A característica fundamental do cristianismo, que foi esquecida, é esse movimento interior que torna possível o contato do homem com Deus. Para Merton e importantes pesquisadores, a conseqüência dessa busca do que se perdeu pode vir a determinar o futuro da tradição cristã, hoje enfraquecida em todos os lugares; e mais ainda: desse resultado pode depender a própria vida do homem no planeta. Não se busca uma nova teologia, ou o retorno aos rituais, nem a ampliação da doutrina, ou sua adaptação aos problemas da vida moderna, mas algo mais essencial e importante do que tudo isso. Aos pesquisadores ficou claro que, no correr dos tempos, o que se perdeu foi o ensinamento sobre os elevados estados de consciência. No cristianismo de hoje, não é mais possível conhecer a doutrina que ensina o processo do despertar, nem conhecer os resultados desse despertar; é ainda menos possível ver a distância que separa o estado de consciência, do homem comum, dos elevados estados de presença, os quais as tradições orientais admitem ser características naturais de todo ser humano, enquanto a crença generalizada entre nós, ocidentais, é a de que tais condições somente ocorreram no passado e apenas a poucos escolhidos (os ‘santos’).
Assim, antes de falarmos desses extraordinários poderes e dons, termos cristãos tradicionais, ligados à espiritualidade superiormente desenvolvida nos ‘santos’, temos de falar de liberdade de escolha, compaixão e inteligência radical, não como características inatas do ser humano, mas como resultados do despertar. Somos homens ‘sub-naturais’ (Maharesh: sub-humanos), mesmo que ‘feitos à imagem de Deus’. Mas, não esqueçamos que ‘antes da Queda, Adão tinha a capacidade de não pecar’ (Significará isso que foi a Queda, geradora do dualismo ‘eu/não-eu’, que introduziu o ser humano na ilusão do pecado? Estaria o homem, antes disso, unido a Deus? Isto é, tudo era Um só? Segundo a moderna física, a resposta é positiva).
...Thomas Keating, abade do mosteiro de São José, Massachusetts, EU, em conferência aos monges, fez uma análise histórica de como o cristianismo ocidental perdeu o método e o significado da oração contemplativa e de que, por isso, sua verdade não pode mais penetrar, hoje, na vida dos homens. Afirmou que a Bíblia, no texto grego, usa o termo gnosis, ‘uma espécie de conhecimento extremamente íntimo, que abrange não apenas o intelecto, mas o homem total’ (é essa a afirmação dos iluminados). Gnosis, em hebraico, significa onisciência divina, uma sabedoria que envolve, vive e opera em todas as esferas do universo. No homem, imagem de Deus, esse saber é uma qualidade que inunda e harmoniza totalmente a natureza humana, baseada numa compreensão do ser humano como uma mente multifacetada (de muitas faces) da qual, a mente individual ordinária que conhecemos, é apenas um diminuto aspecto (assim, a mente que temos tem múltiplos aspectos inexplorados, afirmação idêntica à dos grandes psicólogos e cientistas modernos e dos iluminados).
Isso diz respeito diretamente às tradições orientais, ainda mal compreendidas por nós, ocidentais. Assim como gnosis tem sido erradamente identificada com objetos incomuns dos processos mentais ordinários (comuns), em vez de com uma qualidade nova e superior de auto-conhecimento, do mesmo modo, na tradição metafísica ocidental, as realidades superiores têm sido erradamente identificadas como coisas inexistentes ou extraordinárias, crendices e, por vezes, produto de patologia. A gnosis representa, no homem, o conhecimento que harmoniza a consciência resultante do desenvolvimento de uma nova atenção (que pode produzir elevados estados de consciência).
...O conhecimento superior só surge através do amor que Deus dirige aos homens. O desenvolvimento superior possível ao homem, como o da capacidade de perceber o Sagrado, está subordinado ao bem supremo, isto é, à união do homem com Deus (Meister Eckart). Para isso, é necessária a redescoberta, não da emoção, que é considerada obstáculo para essa redescoberta, mas da técnica espiritual que amplia a consciência (meditação). Porém, no correr da história, a Igreja cristã colocou mais ênfase na salvação humana, esquecendo de ensinar os meios pelos quais essa meta pode ser alcançada. Por quase dois mil anos, a Igreja foi, para nós ocidentais, um centro de esperança, mas, ao mesmo tempo, criou imensa confusão psicológica ao exigir, dos homens, pureza de intenção, isto é, que se amassem uns aos outros, sem o indispensável conhecimento daquilo que permitiria tal pureza. Essa pureza não poderia ser exigida, já que não existia método para o desenvolvimento interior, perdido no tempo. E é impossível saber quanto da hipocrisia religiosa e do sofrimento desnecessário dos cristãos e povos de outras culturas deste nosso mundo, se deve a essa tremenda falha da Igreja Cristã.
...A própria palavra contemplação significava, primitivamente, um ‘conhecimento (ou percepção) de Deus impregnado de amor’, sentido que permaneceu até fins da Idade Média. A prática cristã para o trabalho interior, que poderia resultar na experiência de Deus, era ‘um exercício de ouvir’. A oração consistia na leitura divina, um exercício de atenção de ouvir não só com o ouvido físico, mas com o coração, com todo o ser, numa tentativa de ouvir em níveis cada vez mais profundos. Após a Idade Média, com a fundação das grandes escolas de teologia, deu-se muita ênfase à faculdade de analisar, organizar e classificar, tendência que se aplicou também à vida espiritual e à oração. Aquela leitura divina desvirtuou-se e perdeu importância.
No séc. XVI, acontecimentos históricos e culturais motivaram uma ‘decadência geral nos costumes e na espiritualidade’. Em vista disso, a oração começou a ser utilizada como ‘meio de formação moral’ e não mais como, originalmente, ‘meio de busca de Deus’. Cada método tinha seus fins próprios e diferentes. O conhecimento contemplativo de Deus não se ajustava à divisão aprovada e foi deslocado para segundo plano, o que constituiu ‘verdadeiro desastre para a doutrina tradicional da Igreja’. A mensagem de Keating era que a perda do significado e da prática da oração contemplativa impedia que os cristãos tivessem a experiência direta de Deus. A experiência mística tornou-se profana e suspeita aos olhos da Igreja.
Na Renascença, com os pagãos ‘tomando conta da cristandade’, pareceu necessário ‘reconquistar o mundo para Cristo’, resultando disso que a ação exterior, em vez de a experiência interior, se tornasse o fator dominante da vida religiosa do Ocidente. A religião cristã passou a ser empregada quase exclusivamente a serviço da ação cristã: o objetivo era ‘servir a Deus’ em vez de ser ‘sentir o gosto de Deus’. Todas as formas de misticismo foram levadas a grande descrédito e ‘marginalizadas’. E mais: desde a Reforma Protestante, a Igreja Católica se colocou claramente contra a experiência espiritual individual (porque, da experiência individual surgira o cisma?). A oração contemplativa foi, assim, completamente esquecida (fato que perdura até nossos dias), daí resultando trágicas conseqüências para o mundo ocidental, o nosso mundo cristão.
...A influência na fé católica do bispo francês, Jansênio, nos últimos três séculos, foi enorme. Ele afirmava ser total a corrupção e impotência do homem pós-adâmico: incapaz de amar a Deus, estava de tal modo sob o domínio do pecado que nada, em sua vida interior ou exterior, era bom, e que somente a graça divina, que não era assegurada a todos, poderia salvá-lo. Essa visão pessimista foi levada pelos emigrantes franceses, durante a Revolução Francesa, aos países de língua inglesa, inclusive Irlanda e Estados Unidos, com a vinda de muitos religiosos e padres franceses e irlandeses para esses países. Depois, ao resto do mundo ocidental. A visão era totalmente contrária à do Zen (e de Paulo), que afirma que não há do que nos salvarmos, que todos somos já da natureza de Buda. O cristianismo esqueceu-se de que, conforme afirma a Sagrada Escritura, o homem é ‘feito à imagem e semelhança de Deus’ e que ‘o Altíssimo habita em nós’.
...O poder secular do cristianismo crescera muito desde que se transformou na ‘religião do Estado’. Durante quase dois mil anos, envolveu-se com todos os eventos sociais, políticos, econômicos e culturais, de quase todo o mundo, de tal modo que, hoje, quando se fala ‘cristianismo’, imaginamos que a essência de sua doutrina está ainda viva e intacta, que é a mesma que sempre foi, desde os tempos dos primitivos cristãos (isto é, que não sofreu modificações para se acomodar à conveniência de muitos, dos tempos, dos interesses da Igreja etc., em todos esses séculos de nascimento e morte de tantas nações, tantas guerras, violência, exploração da vida humana, mudanças culturais, ideológicas e filosóficas, movimentos de povos e raças pela superfície do globo). Conhecer, por pouco que seja, a história insana da raça humana e as tortuosidades e complicações da psique do homem, bem como aquilo em que se transformou a doutrina da Igreja, implica numa total descrença na possibilidade de que possa existir, hoje, alguém que consiga encontrar Deus pelo caminho do cristianismo.
...O Mosteiro de São José ensina a ‘oração centralizadora’, comparável ao método descrito em ‘A Nuvem do Desconhecimento’. Conforme o abade, é uma oração ‘não conceptual’ (sem palavras, sem conceitos), equiparada à oração primitiva, dos grandes mestres da tradição cristã, e que sacerdotes e religiosos mais velhos têm enorme dificuldade em assimilar por estarem muito condicionados ao tipo de oração conceptual de hoje. Mas, não tão condicionados, os jovens podem apreender e praticar. O abade fez referência à Meditação Transcendental, de Maharish Mahresh Yogi, que serviu de estímulo para a oração centralizadora, e ao fato comprovado de como essa técnica, muito rapidamente, dá às pessoas uma experiência profunda.
...Evagrius Ponticus, mestre espiritual, séc. IV, condenado pela Igreja como herético, enfatizava a enorme diferença entre emoção e sentimento, esclarecendo acerca do erro da Igreja cristã a respeito da emoção. Nessa diferença, a palavra chave é apatheia, traduzida pelo termo ‘apatia’, mas cujo significado está tão distante do desta palavra quanto diamantes de vidros partidos. Apatheia significa, literalmente, livre de emoções, e é, está sendo reconhecido, hoje, ponto decisivo no caminho espiritual cristão (noutras tradições, indiferença). A atual avidez de ‘experiências’ esconde, talvez inconscientemente, uma busca de emoções comuns (adrenalina), busca tão incentivada, hoje, pelos meios de comunicação em geral e condicionadora do comportamento dos homens. A apatheia é a entrada para a contemplação, a entrada para a suprema beatitude. Será possível que, para ‘não lançar pérolas aos porcos’, as mais importantes lições do cristianismo primitivo foram tão bem ‘ocultadas’ que se perderam?
Os escritos de Evagrius são considerados caminhos para a luta interior cujo objetivo é libertar o homem dos sofrimentos e ilusões que as emoções causam (Buda: a iluminação é o fim de todos os sofrimentos). As emoções e pensamentos, que dão origem a esses sofrimentos, receberam muitas vezes o nome de ‘demônios’, ou pecados, termos que sugerem que o homem, sem uma ajuda transcendental, não pode dominar o fluir das emoções em seu próprio interior, do mesmo modo que não pode controlar o movimento da Terra e os eventos naturais, todos causados pelas duas forças divinas (yin/ yang?) que condicionam todos os acontecimentos. Evagrius lista os tipos de pensamentos (demônios) ‘malignos’ (hoje chamados pela Igreja de ‘pecados’): gula, luxúria, ira, avareza, preguiça, vanglória e orgulho. Chamando-os ‘pensamentos’, ele se referia a elemento extremamente importante da doutrina cristã primitiva relativo às emoções, hoje completamente esquecido, elemento que revela por que as emoções têm sobre nós tanto poder negativo. Em resumo, seus escritos mostram que só quando lhes damos energia psíquica definida, pensando e imaginando sobre esses pensamentos, associações e impulsos, que de início não são ainda emoções, é que eles adquirem a natureza da emoção, a paixão, e assumem o poder incontrolável que têm em nossa vida interior e exterior (e trazem dissipação de energia psíquica, como ensina o Zen). Depois que um pensamento se transformou numa emoção, é impossível destruí-lo; pode-se até mascará-lo com outro sentimento, dar-lhe hipocritamente outro nome ou tentar deixar de tomar conhecimento dele e de seus efeitos. São alternativas inúteis que todos conhecemos em nossa relação cultural com as emoções, inclusive a identificação de certas emoções com ‘o inconsciente’, segundo a moderna psicologia. ‘Devido a esse esquecimento (da prática da oração de contemplação e da indiferença que o homem deve ter em face dos eventos da vida), toda a civilização ocidental está, verdadeira e inexoravelmente, se chocando contra um muro. ’ Isto é, não consegue dar um passo à frente na sua luta pela salvação (por isso, indiferença, e nunca emoção; as coisas sempre acontecem como têm de acontecer; não adiante reclamar, pedir).
...Esquecidas as práticas primitivas, os fiéis estão sendo levados a crer que a experiência direta de Deus é acontecimento raro, reservado apenas aos santos. É como se o cristão, faminto, economizasse com extremo cuidado um pedaço de pão, ignorando completamente que, na sala ao lado, o espera um banquete com todas as melhores iguarias. É só abrir a porta... ‘Lamentável’, diz Pe. M., ‘é que, assim, muitos cristãos não sabem que a Igreja poderia proporcionar uma experiência de Deus igual à do misticismo oriental. Nesse sentido, a Igreja, e nós mesmos, temos sido enorme fracasso. O objetivo, hoje, é corrigir essa falha por meio de uma técnica simples que qualquer pessoa pode utilizar e que pode provocar uma experiência, um primeiro prato do suntuoso banquete oferecido por Deus’.
A experiência de Deus é para todos e não só para os ‘santos’, e a oração centralizadora (Teresa de Ávila: oração de recolhimento e de quietude) é ‘um modo de se predispor para a oração contemplativa’ (para a percepção). João da Cruz e Tereza de Ávila e, antes deles, ‘A Nuvem do Desconhecimento’, ensinaram a tradição a que muitos estão, agora, recorrendo. E a Igreja cristã poderia receber auxílio das tradições orientais. A oração centralizadora é prática semelhante à da Meditação Transcendental e seu objetivo é alcançar aquilo que está além do ego, além do que entendemos por ética (afirma o Zen que, antes da experiência com Deus, toda ética é forçada e prematura).
...O autor diz que o cristianismo, em suas buscas atuais, está procurando algo mais sutil que a experiência de Deus: a experiência do ‘mim mesmo’; mais facilmente distorcido que o conhecimento de Deus: o conhecimento de ‘mim mesmo’; mais necessário do que o poder de ouvir Deus: o poder de ouvir a ‘mim mesmo’. (o ‘mim mesmo’ é o próprio Deus, como afirmam as tradições orientais. A busca de Deus é a busca do ‘mim mesmo’, a busca do ‘eu’).
...A respeito do intercâmbio com as tradições orientais, diz o Pe. O’Hanlon: ‘Não seria surpresa se o resultado desse diálogo, que se inicia com seriedade nunca vista antes, se torne no desenvolvimento religioso mais importante dos séculos futuros’.
...Inácio de Loiola, fundador da Ordem dos Jesuítas diz: ‘Não está em nosso poder adquirir e alcançar uma grande devoção, um amor intenso, lágrimas, ou qualquer outro consolo espiritual, pois tudo isso é dom e graça de Deus’. (isto é, nada escolhemos; tudo vem de Deus, e a meditação é a porta para a percepção disso).
Então, o que deve fazer o homem para se libertar? O Zen, da escola Soto, diz: ‘Não faça nada; apenas sente-se e livre-se da ação da mente!’; o Zen, da escola Rinzai, diz: ‘Busque a iluminação!’ Ambos estão certos; quando não fazemos nada (nem mesmo pensamos), estamos fazendo que a mente se esvazie e que, assim, possa ‘surgir’ a meditação, o satori, a iluminação. Para esvaziar a mente precisamos aprender a estar atentos e relaxados ao mesmo tempo, e acabamos percebendo que estar atento e relaxar são a mesma coisa (Mahresh).
...O auto-conhecimento coloca-nos frente a frente com nossas fraquezas, apegos, ilusões e interpretações erradas. A indiferença implica em não-apego, em não ser mais dominado pelos desejos. Algo tem de ser despertado no homem, algo totalmente além do ego. Aquilo que está entre o homem e Deus, o ‘intermediário’ (a própria mente), deve estar livre das experiências e associações comuns da memória, do pensamento, imaginação e emoção. Esse algo não é a inteligência, nem a razão, mas, sem esse algo, a moral, a ética, o amor, a convicção (não a crença), simplesmente não podem existir no homem.
Nesse ‘intermediário’ estão consciência, abertura, sentimento e, acima de tudo, presença ou atenção. Abrir-se é pureza de intenção, é entregar-se. Como disse São Simeão, o teólogo: ‘Aquele que não tem atenção em si mesmo não pode ver Deus. Ele não pode ser pobre de espírito, nem contrito ou misericordioso, nem dócil e manso, nem trazer paz, ou padecer perseguição pela justiça’ (palavras do Sermão da Montanha). (Gurdjeff e Krishnamurti ensinaram a observação de si, o auto-conhecimento; Sócrates: ‘Conhece-te a ti mesmo e serás Deus’).
...As virtudes cristãs familiares, que metade do mundo procura viver, exigem o desenvolvimento de uma qualidade de consciência muito difícil de adquirir: a atenção. As virtudes são impossíveis sem atenção. (Tereza de Ávila: ‘atenção, atenção, atenção! ’). Sem atenção não há nem mesmo ‘pecado mortal’, que só se aplica ao indivíduo relativamente desenvolvido, consciente do que faz. O mundo da atenção é o mundo da alma humana. Para ser considerado ‘mortal’, o pecado deve ser praticado com pleno conhecimento e dolosamente.
...São Simeão fala sobre os três modos de oração:
O primeiro: ‘... um homem está orando e, elevando as mãos, os olhos e o coração para Deus, mantém na mente pensamentos divinos; imagina bem-aventuranças celestiais, hierarquias de anjos e moradas de santos; reúne na memória tudo que aprendeu nas Escrituras e reflete em tudo isso enquanto ora, contemplando o céu e incitando a alma a desejar e a amar a Deus, às vezes até derramando lágrimas e se lastimando...’
Com esse modo ele pode vir a perder a razão ou cometer suicídio, mas nada lhe resultará dessa oração; permanecerá a vida toda sem dar um passo em direção a Deus. Esse método só leva à divagação ou ‘extravio’ (seu erro: usa o ego, pensa, imagina, usa memória, reflete,... obstáculos à percepção do sagrado; ‘se o eu é, Deus não é’).
O segundo: ‘... um homem afasta sua consciência de todos os objetos exteriores e volta-a para dentro de si mesmo, controlando os sentidos, os pensamentos e a imaginação para que não vagueiem por entre as vaidades do mundo; ora, analisa os pensamentos elevados; ora, reflete nas orações que mentalmente pronuncia; ora, afasta-se dos pensamentos se, influenciados pelo demônio (pelas paixões), eles se voltam na direção de algo vão e mau; ora, com grande esforço, tenta retornar a si mesmo, depois de ter sido apanhado e vencido por alguma paixão’.
Este método também é inútil, porque ele se dá na mente (e a mente é o ego), pensamento lutando contra pensamento; nessa luta consigo mesmo, o homem não pode estar em paz consigo mesmo; é como alguém lutando, no escuro, contra inimigos; ouve suas vozes, sente seus golpes, mas não vê claramente quem são eles, nem porque o atacam. O método não leva um passo à frente (ainda os mesmos erros; o ego está ainda presente).
O terceiro não é a contemplação do céu, nem elevação das mãos a Deus, nem a colocação da mente nas coisas celestiais etc. É manter abertura (entregar-se) a Deus, consciência pura no relacionamento com os demais e com as coisas da vida (indiferença). Este método consiste em pôr toda atenção no coração e a perseverar, sem palavras nem conceitos. É a primitiva ‘oração de recolhimento’ (dos sentidos, da memória, da imaginação) que resulta, se bem feita, ‘na oração de quietude’, que traz silêncio para a mente. (são orações ensinadas por Teresa de Ávila; meditação). ‘Sem elas os cristãos nunca passarão das ‘alucinações da cristandade’ para a percepção das coisas divinas’. Nesse método não há controle, nem esforço, lembrança ou imaginação, emoção ou pensamento.
...Mas, qual é o modo de atenção que pode ligar meu nível atual de consciência ao nível descrito na literatura mística de todas as tradições? É a atenção sobre mim mesmo, atenção para cada gesto e para cada reação, cada pensamento e cada observação (a observação de si, de Gurdjeff; o auto-conhecimento, de Krishnamurti e dos filósofos).
...A alma, ‘princípio intermediário’ existente na natureza humana, está entre o homem e Deus. O que lhe traz poder é a atenção; o desenvolvimento da atenção é o próprio desenvolvimento da alma. A atenção surge espontaneamente pelo profundo auto-questionamento, mas desaparece com a tristeza, medo, tédio, supersatisfação, desilusões (talvez, por isso, Krishnamurti tenha recomendado indiferença e bom humor em qualquer situação).
...Os Padres do velho cristianismo praticavam a auto-observação e o auto-questionamento. ‘Questione sempre!’ Pela auto-investigação total as forças do ‘bem e do mal’ podem se encontrar e se reconciliar em nós (os opostos se equilibram se colocados lado a lado). Desejos, culpas, vergonha, fantasias, remorsos etc. são da mesma natureza e nascem no mesmo lugar onde nascem os pensamentos. Todos são igualmente pensamentos e são todos falta de atenção, distrações e, em conseqüência, desperdiçam a energia do Todo que flui continuamente em nós, e cujo acúmulo pode levar à iluminação.
...Na realidade, não precisamos destruir nossos defeitos, nossas qualidades negativas, como a Igreja recomenda, pois, asseguram os sábios iluminados e a moderna psicologia, os defeitos se equilibrarão com seus opostos, as virtudes, numa matemática que somente eles compreendem (Sagrada Doutrina, de Benoit; Espectro da Consciência, de Ken Wilber; Universo Autoconsciente, de Amit Goswami).
...A alma não é uma entidade fixa. É uma energia que nasce no ser humano toda vez que há desconforto ou contradição, e o conseqüente auto-questionamento. Quanto mais energia ‘na alma’, mais energia estará acumulada para o surgir do satori, como diz o Zen. A maioria de nossas reações emocionais, agradáveis ou desagradáveis, só servem para disfarçar nossas experiências de contradição ou frustração e, por isso, dissipam a energia, e não chegamos a nada. Para impedir essa dissolução, o Zen ensina a atenção a si mesmo, em todos os instantes, até mesmo em meio às atividades comuns do dia-a-dia.
Foi um desastre para o cristianismo o momento em que ele adotou a noção equivocada de que a alma já existe dentro de cada um, desde o nascimento. Isso nos levou a acreditar que os pensamentos, emoções etc. são manifestações da alma e, em conseqüência, ao esforço equivocado de tentar aperfeiçoar nossa alma pelo aperfeiçoamento dos pensamentos e emoções (pela prática das virtudes impostas pelas religiões), isto é, ao esforço inútil de procurar melhorar os pensamentos e as reações. O cristianismo primitivo, ao contrário, diz que somos incapazes de modificar essas funções psicológicas pelo esforço. É o que, também, ensinam as tradições orientais. A mudança só pode vir de uma força superior, além do poder do ego. Então, a busca da felicidade que, numa forma ou noutra é, em última análise, o impulso principal que move toda a humanidade é, desse ponto de vista, particularmente para os cristãos, pouco mais do que o esforço inútil da mente para alterar suas emoções. Só a atenção (sem escolha; a meditação), tem a capacidade de alterar emoções e pensamentos.
...Do ponto de vista do cristianismo primitivo, o que se exige do homem é que amolde sua conduta exterior às normas determinadas para ele (nós nada escolhemos); que não renuncie aos sonhos, mas que não se esforce para ser virtuoso, pois esse não é mais do que um objetivo secundário e limitado. O importante é que saibamos que as ‘duas grandes forças’, que mantêm a integridade do cosmos, produzem sempre resultados éticos, mesmo que, muitas vezes, nos pareçam antiéticos.
...Embora no budismo e hinduismo se afirme que o ego é ilusório e que o homem é Deus, ensina-se a necessidade de um esforço interior para se perceber essas verdades. Esse esforço é a atenção que pode resultar em meditação, ou seja, na experiência mística.
Mas, se já somos Deus, por que o esforço interior? Porque não temos ainda esse percebimento, e obtê-lo é o objetivo desse esforço.
...Enfim, no cristianismo primitivo, a maior virtude é a lembrança de si (atenção), e o esquecimento de si (a distração) é o maior pecado.
...Os anjos, que a Igreja tanto retrata, são somente símbolos das experiências superiores, místicas, e do jubiloso prazer resultante delas, e não seres celestiais, guardiões dos homens, como a Igreja fez pensar.
...Meditação é aquilo que pode levar você ao nirvana (paraíso); nirvana, por sua vez, é a compreensão do sansara (ilusões da vida). A transformação do homem é fruto dessa compreensão, sempre vinda através da perseverança na meditação.
...A dispersão da energia da alma ocorre quando o homem não tem atenção em si mesmo. Logo, é evidente que a dispersão pode ser invertida se o homem dirigir para si mesmo a atenção que, sem necessidade e para prejuízo seu, dá aos pensamentos, emoções e sensações, o que resulta na deturpação de todo o organismo humano, a ponto de cair ao nível de um animal doente. Esse trabalho de inverter a dissolução da energia é a base de todo ascetismo religioso, e a comunicação dessa verdade aos demais é a autêntica moral religiosa (o verdadeiro ‘amor ao semelhante’ que Jesus ensinou). O ascetismo pode resultar no natural desenvolvimento da alma, que é o nascimento do novo homem. Mas o desenvolvimento da alma só se realiza quando o homem está vivenciando, ao mesmo tempo (como também afirma o Zen), todos os apetites, pensamentos e emoções do seu ego, de seu corpo psicossomático (por isso, nada de controle, nem domínio, nem virtude forçada).
...A idéia de dualismo impõe limites inaceitáveis ao poder de Deus. Se o Mal é real, implica a existência de algo que Deus não criou, caso em que Deus não é onipotente; ou que Deus permite o Mal, caso em que não é misericordioso. Todo problema do bem e do mal, como tem sido visto através dos séculos, está contido nesse dilema. Além disso, o dualismo é, de modo evidente, contra a idéia da unidade da criação de Deus. Se Deus é o Todo, o Mal é parte de Deus, e é sua criação (como afirmam as tradições místicas e, hoje, a ciência mais avançada, o dualismo é insustentável. Isto é, não há duas coisas, como Deus e o universo; Deus e o diabo; Deus e eu; tudo é Um).
...A fé cega (sem base) é perigosa. O intelecto, o raciocínio, não devem ser posto de lado (isto é, devemos questionar tudo aquilo que é apresentado como verdade), até que o ego compreenda e se interesse pela própria destruição, porque nem a emoção, nem o pensamento, nem a imaginação podem atingir o desconhecido, que está além do ego. Eles são distrações, obstáculos, e por isso devem ser destruídos. (Essa destruição nos abre a porta ao Sagrado, e só a meditação pode realizá-la).
...A única liberdade do homem (a escolha não é nossa) está em onde colocar sua atenção, quanto dela deve dedicar, no momento, ao mundo interior, e quanto, ao exterior. O exterior não é só o mundo dos objetos; é, também, nossos pensamentos, memórias, imaginações emoções, sensações ou reações de prazer ou desprazer, que canalizam nossas energias para fora, destruindo-as.
...O verdadeiro cristianismo está perdido. Onde ele se enquadra frente a guerras e ameaças de guerras, crises ecológicas, econômicas, políticas, injustiças, fome, doenças? Parece que até nos sentimos envergonhados de falar da busca e de religiões sérias enquanto ocorrem tantas crises, como se a busca de Deus fosse um comodismo, uma fuga aos problemas reais do mundo (a mesma coisa os psiquiatras e psicólogos ocidentais diziam das tradições asiáticas). E como a Igreja teve de enfrentar tais problemas em sua própria carne, pois se envolveu demais com os acontecimentos da vida profana, muitos cristãos vêem a idéia de crescimento interior com desdém e suspeita (porque a Igreja não a pregava e não a prega). Do mesmo modo que, ao homem, parece impossível resolver os problemas do mundo, parece impossível resolver o problema da Igreja, que se omitiu muito ao dar demasiada atenção à ação social e pouca atenção ao desenvolvimento da vida interior.
...De tudo que foi dito, fica evidente que o objetivo maior do cristianismo primitivo, objetivo que se perdeu com o esquecimento da oração de contemplação, era a realização do reino de Deus no interior do homem, por meio de práticas semelhantes àquelas do misticismo oriental, e que a expressão máxima do amor cristão, isto é, do amor ao semelhante, era transmitir o ensinamento, de modo a proporcionar o crescimento da alma nos demais seres humanos. Lembrem-se que Jesus aconselhou a não colocar a ‘luz’ sob o alqueire, mas sobre o velador, para que ilumine a todos.
...Pensamentos e emoções, divagações e imagens mentais, só servem à degradação da energia psíquica. O elemento perdido em nossas vidas é essa força interior de atenção, que evita o surgimento de fatores degradantes, e que pode abrir-nos a porta para o descobrimento da verdade e, em seguida, levar-nos a orientar nossos semelhantes para que, também neles, possa agir essa força (Jesus: Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará).
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Obs.: Para conhecer mais sobre o que se perdeu do Cristianismo, leia ‘Os manuscritos do Mar Morto’, ‘Os manuscritos de Qunram’, ‘Os manuscritos de Jesus’.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
sábado, 6 de novembro de 2010
FÍSICA QUÂNTICA E MISTICISMO
(15) FÍSICA QUÂNTICA E MISTICISMO
(Jan 2008)
(Uma pálida idéia)
(jcl-ribpreto)
- Um elétron pode estar em ‘mais’ de um lugar ao mesmo tempo; os experimentos da física moderna são inequívocos a esse respeito.
- A ciência clássica, cartesiana (anterior), desenvolveu-se de acordo com a suposição fundamental de que existe, fora do observador, uma realidade real, objetiva, que seria algo sólido, constituído de coisas que possuem atributos, como massa, peso, carga elétrica, momentum, posição no espaço, spin, inércia, energia, cor, existência contínua através do tempo, etc. No entanto, tais coisas e todo o universo, de acordo com a nova física, não existem sem que algo lhes perceba a existência; e esse algo é a mente de seres sencientes.
- É errado, por exemplo, supor que um elétron seja um pontinho imponderável de matéria; isso porque, em certas ocasiões, ele é uma nuvem composta de um número infinito de possíveis elétrons, ondulando como uma onda e capaz de mover-se em velocidades superiores à da luz, desmentindo o postulado de Einstein sobre a velocidade. Tais possíveis elétrons parecem uma única partícula somente quando os observamos.
- No átomo, um elétron, quando perde energia, salta de uma órbita mais afastada do núcleo para uma mais próxima. Contudo, ele não passa pelo espaço entre uma órbita e a outra; simplesmente desaparece da mais elevada e aparece na outra.
- Resultados de observações sobre dois elétrons correlacionados, mesmo que separados por distâncias imensas, demonstram que forçosamente deve haver entre eles alguma conexão que permite que a comunicação entre eles se mova mais rápida que a luz. Como, conforme Einstein, nenhuma velocidade pode ser maior que a da luz (300 mil km por segundo) dentro do espaço-tempo, pode-se afirmar que essa comunicação ocorre além do espaço-tempo, logo no domínio do atemporal, no domínio transcendental.
- Em suma, há um número grande demais de provas demonstrando que o mundo objetivo, que costumamos considerar a realidade final é, apenas, ilusão do nosso pensamento, do nosso ego. E não podemos esquecer que todo o conhecimento do homem, em todas as áreas, tem como alicerce essa suposição que, agora, por inumeráveis e inquestionáveis experimentos da nova física, sabe-se ser ilusória.
- Ainda mais, o universo é autoconsciente. Pela física anterior, cartesiana e newtoniana (de Descartes e Newton), a consciência, a mente, era considerada apenas um subproduto da matéria cerebral; logo, o cérebro é que criaria a consciência. Hoje, pela nova física, sabe-se que é a consciência que cria o cérebro e todo o mundo material.
- A consciência é algo transcendental, portanto não-local, e está em tudo, tanto no espaço-tempo quanto além, no atemporal; a consciência é tudo.
- Consciência é o agente que afeta os objetos quânticos para lhes tornar o comportamento apreensível pelos nossos sentidos; a consciência focaliza esses objetos, ondas de probabilidades, de modo que podemos observá-los como partículas, ou coisas, em um único lugar.
- Um objeto quântico pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo (propriedade da onda); o objeto quântico se manifesta na realidade comum só quando o observamos e, com isso, provocamos o colapso da onda, que, instantaneamente, se apresenta como partículas ou objetos; um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico); a manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato pouco importando a distância entre eles (ação quântica instantânea à distância).
- A consciência é o fundamento de todo ser, incluindo a matéria. Tudo existe na consciência e é por ela manipulado. Ela organiza o mundo e lhe dá significado. Mas, para isso, necessita da observação produzida por uma mente senciente (cérebro/mente).
-EXPERIMENTO DAS DUAS FENDA:
(Na internet, no final da página da 'Wilkpedia' referente a esse experimento, explicado pelo 'Dr. Rabbit', está a pergunta:
'E o q tem um observador a ver com isso?' e, em seguida, vem a resposta: 'Um observador colapsa a função de onda simplesmente... por observar'.
É exatamente sobre isso que andamos conversando: a simples observação modifica a natureza. Não havendo um observador não há o colapso da função de onda e, em conseqüência, não há manifestação de partículas, ou seja, de matéria. Por aí se vê q, não existindo um ser senciente observando, tudo continua apenas como ondas; não haverá nem mesmo um universo como o conhecemos. Isso não merece uma reflexão mais profunda? Não indica q o ser humano (e todos os seres sencientes) é necessário para q tudo que aí está à nossa frente exista? A consciência do ser senciente, através da observação deste, é que realiza o processo final da criação determinada por aquilo a que denominamos Deus. Isso não está mostrando que nós não somos nada do que as religiões e crenças populares apregoam? Que somos muito mais do que isso? A consciência 'localizada' (nós) completa a criação da consciência 'não localizada', isto é, da Consciência Universal. Isso não está mostrando que nossa consciência complementa, completa, faz parte ou é a própria consciência de Deus? O que acham disso?
- Sob observação, o objeto quântico deixa de ser onda e se comporta como partícula (de matéria). Mesmo a objetos macroscópicos, como a Lua, por exemplo, a mecânica quântica prevê basicamente idêntico comportamento, com a diferença de que, nesse caso, o espalhamento do pacote de ondas é imperceptivelmente pequeno (nunca zero) entre as observações.
- Para cada evento, questão, fenômeno, problema, existe o que é chamado pela quântica de superposições coerentes, isto é, um número, considerado infinito, pelos sábios, de possibilidades de soluções (o campo das infinitas possibilidades, de Maharish Maresh Yogi). Por isso, todo evento de observação, que é o que produz o colapso da onda de probabilidades localizada fora do espaço-tempo, é potencialmente criativo e pode desvendar, sempre, novas possibilidades, respostas criativas, diferentes das conhecidas às quais nossa mente-localizada está habituada, e, por isso, condicionada.
- A observação faz com que o pacote de ondas entre em colapso e se torne partículas localizadas. Assim, o sujeito (observador) e o objeto (coisa observada) estão inextricavelmente misturados, ligados; não havendo observador, não há coisa observada, porque não há colapso; não havendo coisa observada, não há observador. Vê-se, pois, que, para que o universo se manifeste, o cérebro-mente é necessário; logo, nós, e todos os seres dotados de cérebro e mente, somos necessários.
- A consciência é a realidade única e final. Além dela, tudo é ilusão. Todo o universo sobre o qual pensamos e falamos nada mais é que ilusão, Maya, conforme o Vedanta. O todo é Brahman, Deus, a consciência absoluta, total, que existe além do alcance de Maya. Nada mais existe além da consciência.
- Como apenas existe uma mente, uma consciência, a separatividade entre seres e coisas é nada mais que ilusão. Somos, todos nós, apenas uma mente, uma consciência, embora pareçamos muitas (“Eu e o Pai somos um”).
- Como não há separação entre seres e coisas no universo, somos todos uma só coisa; logo não existe duas coisas como eu e Deus. Por isso disse Shankara: “Eu sou a realidade sem começo e sem fim. Não participo da ilusão ‘eu’ e ‘tu’, ‘isto’ e ‘aquilo’. Eu sou Brahman, o um sem segundo, a bem-aventurança sem fim, a verdade eterna, imutável. Eu resido em todos os seres como consciência pura, o fundamento de todos os fenômenos internos e externos. Eu sou o que desfruta e o que é desfrutado. Nos dias de minha ignorância eu costumava pensar nessas coisas como separadas de mim. Hoje sei que sou tudo”. E disse Ekhart, místico cristão: “Percebo que Deus e eu somos um só”. E Jesus: “Eu e o Pai somos um”.
- A experiência da unidade, quebrados os véus da separatividade, abre as portas para uma transformação do ser (iluminação) que gera amor, compaixão, sabedoria, e liberta o homem da ilusão da separatividade adquirida e dos apegos compensatórios aos quais nos agarramos (poder, riqueza, sexo, drogas, afetos, ilusões, crenças, religiões etc.). Tais apegos, nós os procuramos para preencher nosso vazio interior, nascido de nossa vida sem significado. Como disseram os mestres, somos ainda sub-humanos; nossa vida só adquire significado quando percebermos que somos muito mais que o ego (percepção que vem do auto-conhecimento proporcionado pela meditação).
- Como é que não podemos amar incondicionalmente a todos se só há uma consciência e sabemos que não estamos separados porque somos essa única consciência?
- O dualismo Deus-mundo não resiste ao exame científico. A nova física destruiu o realismo materialista construído pela física cartesiana. Amit Goswami argumenta que o idealismo monista, advindo da unidade de consciência, é não só compatível com a física quântica, mas até essencial para sua interpretação, tanto que os paradoxos da nova física desaparecem quando examinados do ponto de vista do idealismo monista, explicando mesmo questões como pluralidade aparente de consciências e transcendência.
- De conformidade com a nova física, o processo fundamental da Natureza reside fora do espaço-tempo, gerando eventos que neste se localizam, desde que haja observação. Fora do espaço-tempo tudo é transcendência, é estar em parte alguma e em toda parte, no aqui-agora eterno.
- Os objetos quânticos são simultaneamente onda e partícula; mas nunca podemos observar o aspecto onda de um elétron, pois nunca se manifesta no espaço-tempo; nem é partícula, porque esta aparece, nos experimentos, em locais proibidos às partículas. Logo, a física quântica diz que o objeto quântico não é onda nem é partícula, o que lembra as explicações do budismo Mahayana: “Ele ‘não existe’ e ‘não não existe’, simultaneamente. Nem ele existe, nem ele não existe”.
- O observador (todos os seres sencientes) está inescapavelmente envolvido em fazer que aconteça aquilo que parece estar acontecendo, porque só com sua observação há manifestação no espaço-tempo; sem observação nada existe.
- Escolhemos o resultado específico que se manifesta; os fenômenos são apenas prolongamento de nós mesmos. Mas, segundo os novos físicos, e as tradições de misticismo orientais, nada escolhemos como indivíduos. A escolha é da consciência unitiva (consciência total, Deus), que necessita da observação do cérebro-mente para que o escolhido se manifeste; a observação conclui o processo da escolha atemporal.
- Quando observamos, o mundo se torna objetivo. Quando não observamos, nem a nós mesmos, tudo é um.
- Nós, seres conscientes, não temos consciência; é a consciência que nos tem. Ela tudo abrange, do micro ao macrocosmo; no espaço-tempo e além.
- Nós não estamos conscientes de nosso corpo o tempo todo. Na verdade, em circunstâncias comuns, temos pouquíssima consciência de nós mesmos; de vez em quando temos consciência de estarmos vivos. Noutras palavras, nesses momentos, nós pensamos em nós mesmos. Nessas ocasiões, nossa função de onda entra em colapso e sentimos que existimos. Entre essas ocasiões, nossa função de onda se expande em superposições coerentes no domínio transcendental.
- Aquilo que parece continuidade, para um ser humano que observa a si mesmo, o fato de existir, é, na realidade, uma miragem que consiste de numerosos colapsos descontínuos (como num filme, no qual as imagens são descontínuas mas, pela sua velocidade, nos dão a impressão de que são contínuas) isto é, nós, como todos os objetos quânticos, e todos os objetos são quânticos, quando nos observamos ou somos observados, somos corpo-mente; quando não observados, somos apenas ondas de probabilidades coerentes na imensidade do domínio transcendental (Krishnamurti: um novo estado de existir).
- A consciência escolhe entre alternativas coerentes quando manifesta a realidade material. O colapso é um processo de escolha e reconhecimento por um observador consciente; mas não é que cada um ser humano escolha a seu prazer, pois assim o mundo seria uma confusão; sendo a consciência uma só, só há um observador senciente: a própria consciência, aquilo que denominamos o Absoluto, o Todo, Brahman, Deus. Nós, mentes localizadas, completamos a operação com nossa observação.
- A separatividade é resultado do colapso. Só depois deste é que passam a existir objetos, apenas aparentemente separados. Deve-se pensar em objetos quânticos como objetos em potencial (ondas no domínio não-local da realidade que transcende o espaço-tempo, e que podem se manifestar no espaço-tempo). Antes do colapso, nada existe no mundo da relatividade.
- Nós somos a consciência não-local apenas sutilmente velada, mas por um véu que pode ser penetrado em extensões variadas, como testemunharam místicos através dos tempos. Tal véu é produzido pelo que é chamado de hierarquias entrelaçadas, dois níveis de consciência que se confundem: a primária, absoluta, não-localizada, e a secundária, localizada em cada um.
- A iluminação, samadhi, nirvana, satori, é a percepção da consciência não-localizada, total, primária, e isso só acontece através do salto quântico, um salto para fora do sistema habitual, do condicionamento, fato que proporciona tal poder de criatividade que a consciência se vê a si mesma. É o topo, o ápice do auto-conhecimento, quando ficamos conhecendo aquilo que realmente somos (o “conhece-te a ti mesmo”, dos antigos sábios gregos).
- O universo existe como ‘potência’ informe em uma miríade de ramos (possibilidades), no domínio transcendente, que se torna manifesto quando, e somente quando, observado por seres sencientes.
- Para que a inteligência possa operar, o acionamento de um neurônio tem de ser acompanhado pelo acionamento de numerosos neurônios correlatos, a distâncias macroscópicas (até 10 cm, que é a largura do tecido cortical), fato que ocorre com velocidades além da velocidade da luz. Para que isso aconteça, é preciso que correlações não-locais existam no nível molecular do nosso cérebro, nas suas sinapses. Desse modo, até mesmo o pensamento comum depende da natureza dos eventos quânticos, e é um evento quântico.
- Os objetos quânticos macroscópicos, quando não observados permanecem na função de onda, apresentando espalhamento mínimo; por isso aparentam continuidade e apresentam memória; esse fato, entre outros, é responsável pelo surgimento da identidade do ‘self’” pessoal. Nosso cérebro, objeto quântico macroscópico, possui memória devido ao espalhamento mínimo da onda, quando não observado; os objetos microscópicos não a possuem, pois seu espalhamento é total e sua manifestação, no espaço-tempo, é instantânea, regenerando-se imediatamente; e, por isso, não guardam registro (memória) das experiências pelas quais passou.
- Um elétron ou outra partícula quando sob observação, pode estar aqui ou ali; quando não observado pode estar em qualquer ponto do universo. Há inúmeras provas de experimentos a esse respeito; por exemplo, o experimento das ‘duas fendas’; um anteparo com duas fendas mostra que um fóton ou um elétron só se manifesta como partícula quando observado por uma mente sencientes; quando não observado, ele não se manifesta no espaço-tempo, continuando como onda de energia.
- A consciência escolhe o resultado do colapso em todo e qualquer sistema quântico, o que quer dizer que a consciência unitiva escolhe. Uma vez que nossa experiência é consciente, nós escolhemos nossas experiências conscientes, embora permaneçamos inconscientes do processo subjacente. É essa inconsciência que leva à separatividade ilusória, à identidade com o ‘eu’ do self, em oposição ao ‘nós’, ou ‘Eu’, da consciência unitiva.
- Na hierarquia entrelaçada, os níveis estão tão misturados que não podemos identificar os diferentes níveis de consciência. Confundimos a consciência local com a não-local. Por isso ficamos presos na ilusão de que existe um ‘eu’ separado dos demais ‘eus’, e separado do universo manifestado e da consciência total.
- É a descontinuidade ou oscilação instantânea e contínua entre um nível e outro, entre manifestação de partículas e não-manifestação, que nos impede de ver através do véu. Como vemos o mundo do ponto de vista e referência de nosso cérebro (visão e audição, particularmente), temos a ilusão de que somos um ‘eu’ separado, que estamos aqui, dois a cinco centímetros atrás do ponto médio entre as sobrancelhas. Contudo, a ciência quântica, como as tradições místicas, concordam em que não há um ‘eu’ pessoal; o ego é apenas uma referência para uso prático, como afirmou Schroedinger, um dos pais da física quântica.
- Para desfazer essa ilusão temos de saltar para fora do sistema do espaço-tempo, ao qual estamos condicionados, e passar para o nível puro, inviolado, a consciência total (o que pode ser possível através da meditação). O ‘eu’ existe devido à ilusão proporcionada pelo cérebro, de cujo ponto de vista experimentamos o mundo (o ‘eu’ e o ‘não eu’).
- O ‘eu’ é conseqüência, portanto, de uma hierarquia de níveis entrelaçados embora nossa consciência seja a mesma consciência do Ser que está além da divisão sujeito-objeto. Não há, no universo, outra consciência. O self da auto-referência e a consciência da consciência original, primária, constituem, juntos, o que chamamos de autoconsciência.
- É a aparência do mundo da manifestação que nos leva à experiência de um self pessoal individual, ou sujeito, separado dos objetos aparentes. Mas, sujeito e objeto manifestam-se simultaneamente no instante do colapso do estado quântico do cérebro-mente, o que produz tanto o cérebro-mente quanto os objetos ‘lá fora’. Sem colapso não há mundo manifestado, nem cérebro-mente para perceber, nem objetos para serem percebidos, portanto, nem sujeito, nem objeto, nem observador, nem coisa observada. Enquanto o cérebro não entra em colapso, o sujeito-observador e o objeto-coisa observada são uma coisa só: o todo.
- O ego é o local onde acontece a auto-referência de todo o universo (como disse Krishnamurti: ‘por ser a mente vazia, existe o cérebro no espaço e no tempo’, isto é, existimos para preencher a mente total, somos os olhos e ouvidos do Absoluto). Em nós o universo divide-se em dois: a parte do universo que vê e a parte do universo que é vista; isto é, o sujeito que observa e o objeto que é observado, ambos ilusórios.
- O mecanismo de observação-medição do cérebro cria uma memória de cada colapso, isto é, de todas as experiências que temos como reação a um dado estímulo. Se o mesmo, ou um estímulo semelhante, é reapresentado, o registro do cérebro reproduz a velha memória. Esta reprodução torna-se um estímulo secundário para o sistema quântico cérebro-mente, que responde em seguida. O sistema mede a nova resposta e assim continua. Essa interação repetida de observações-medições ocasiona uma mudança fundamental no sistema quântico cérebro-mente e este perde seu caráter regenerativo. (Todo sistema quântico tem características regenerativas instantâneas; daí serem sempre e sempre sistemas novos e sem memória; no entanto, como o cérebro perde seu caráter regenerativo em face da repetição de estímulos e dos estímulos denominados secundários, o cérebro que, como todo sistema quântico não tem memória, passa a tê-la, advindo daí a ilusão de um ‘eu’ que tem continuidade no tempo e é separado dos demais ‘eus’, no espaço e no tempo).
- Antes que a resposta a um dado estímulo se torne condicionada, antes que nós a experimentemos pela enésima vez, o conjunto de probabilidades, as superposições coerentes, entre as quais a consciência escolhe a resposta, abrange os estados mentais comuns a todas as pessoas, em todos os lugares, em todos os tempos. Com o aprendizado, porém, as respostas condicionadas tendem a, gradualmente, ganhar mais peso probabilístico do que as outras respostas não repetidas. Esse é o processo de formação dos comportamentos condicionados, aprendidos e conservados na memória de cada indivíduo. Uma vez aprendida uma tarefa, em todas as situações que a envolvam estará presente, em quase cem por cento, a probabilidade de que uma memória correspondente desencadeie uma resposta condicionada, impedindo as respostas criativas, novas, que a consciência traz. Livrando-se do condicionamento, o homem poderá ter soluções criativas, não experimentadas antes, e poderá ter despertados, em si mesmo, o amor, a compaixão e a sabedoria.
- Para livrar-se do condicionamento é necessário fazer morrer o ‘eu’, que são os pensamentos, memórias, imagens, associações, emoções, desejos, medos, ilusões, advindos da genética, cultura, costumes, crenças, religiões, que nos sujeitam, e dessas coisas ficamos dependentes, presos a elas, mesmo sem saber se são verdades absolutas ou se um dia se realizarão. Cessado o ‘eu’, cessam essas distrações ou desatenções, e poderá então despontar aquele amor, aquela compaixão e aquela beleza acima de tudo o que imaginamos.
- Muito cedo, no desenvolvimento do ser humano, numerosos programas aprendidos se acumulam e dominam o comportamento do cérebro-mente, a despeito do fato de que respostas quânticas não condicionadas estejam disponíveis para novas experiências criativas, especialmente como resposta a estímulos não aprendidos ainda. Se a potência criativa do componente quântico do cérebro-mente deixa assim de ser usada (em face do condicionamento adquirido), a hierarquia entrelaçada do sistema cérebro-mente torna-se uma hierarquia simples, apenas referida aos programas aprendidos e condicionados. Nessa fase, a incerteza criativa sobre ‘quem é que escolhe as respostas’ é eliminada e começamos a assumir um self-ego separado totalmente, individual, que pensa que escolhe e que tem livre-arbítrio. Mas, como afirmam os sábios, ‘aquele que pensa que escolhe é imaturo’. Quem escolhe, como vimos antes, é a consciência unitiva, Deus.
- Em nossa ignorância, identificamo-nos com uma versão limitada do sujeito cósmico e concluímos: “eu sou este corpo-mente”. Perdemos, em face da ilusão dos dualismos, eu-não eu, mente-corpo, vida-morte, espaço-tempo, a identidade com o todo.
- Informações armazenadas de estados de consciência anteriores (memória) podem voltar à consciência. Dessa maneira torna-se possível à consciência ver seu próprio reflexo no espelho da memória, embora sempre com uma defasagem temporal, que é o tempo de reação entre o colapso quântico de um evento no espaço-tempo, e a experiência do ego baseada em introspecção (memória) provocada pelos estímulos secundários.
- Nossa preocupação com o processo secundário (indicado pela defasagem temporal) torna difícil que nos tornemos percebedores de nosso self-quântico, primário, real, e de experienciar os estados mentais puros, acessíveis no nível quântico antes do colapso. As práticas de meditação têm por objetivo eliminar a defasagem temporal e colocar-nos diretamente em contato com esses estados mentais em sua essência mais pura. Provas demonstram que a meditação reduz a defasagem temporal entre os processos primário (consciência pura, não-local) e secundário (cérebro-mente, consciência local), permitindo que se encontrem, o que proporciona a percepção do todo absoluto.
- A defasagem temporal da introspecção secundária permite que a experiência que temos em relação ao ego dê a impressão de ser contínua; e o denominado fluxo ininterrupto de consciência que percebemos em nós é o resultado de uma conversa introspectiva que ocorre em nossa mente espontaneamente, o filme emotivo-imaginativo, que, sem cessar, passa por nosso cérebro, como diz o Zen-Budismo.
- A consciência divide-se em sujeito e objeto através do colapso da função onda do cérebro-mente. O colapso é um evento (advindo de fora do espaço-tempo) de descontinuidade no espaço-tempo, mas experienciamos, assimetricamente, a divisão sujeito-objeto na modalidade aparentemente contínua do ego. Dificilmente (talvez somente pela meditação) percebemos o imediatismo da experiência disponível no nível quântico.
- O mundo manifestado não é maya. A verdadeira maya é a separatividade. Sentirmo-nos e pensarmos que somos realmente separados do todo, essa é toda a ilusão. O ego, também, nada mais é que um engodo, um feixe de memórias condicionadas, o passado, portanto o que já é conhecido.
- O self separado, o ego, não tem livre-arbítrio à parte do self quântico, da consciência unitiva, pois como vimos, nada escolhemos.
- O ‘eu’ não é uma coisa, mas uma relação entre a experiência consciente e o ambiente imediato. Nessa experiência, o mundo parece dividir-se entre sujeito e objetos. Ao ser refletida na memória, pelos processos chamados secundários, essa divisão produz a experiência dominante do ‘ego’, a imagem que formamos do experimentador aparente de nossos atos, pensamentos, e sentimentos do dia-a-dia. Essa identificação, no entanto, jamais é completa. Sempre a consciência deixa alguma abertura para o novo, o desconhecido, a novidade incondicionada, o que torna possível, embora muito raramente, aquilo que conhecemos como livre-arbítrio; pensamos que decidimos, quando quem decide é o sujeito cósmico. O ego, ‘eu’, está associado à experiência de percepção secundária, mas não à primária; esta está além do espaço-tempo, é o self-quântico, a própria divindade.
- Em algumas experiências, a identificação do self-quântico com o ego é muito menor que o habitual, como na experiência criativa, na qual o experienciador freqüentemente descreve o ato como inspirado por Deus. Tais experiências ocorrem de uma clara descontinuidade (o salto quântico), em contraste com a continuidade do ego, mais comum, no fluxo da consciência. São as experiências chamadas transpessoais, uma vez que não é dominante a identidade com a pessoa, ou o ‘eu’ particular do experienciador. Experiências paranormais, como a telepatia, a sincronicidade, ‘projeções’ etc., estão aí explicadas, bem como a chamada visão à distância e a coerência das ondas cerebrais geradas pela meditação.
- A nova física vem mostrar que essas experiências podem ser reais, e, assim, a ciência, sempre hostil às grandes tradições religiosas, pode, hoje, caminhar junto com elas no sentido de levar o ser humano à percepção de sua verdadeira natureza e de seu verdadeiro lugar no universo.
- Não há um poder causal que possa ser atribuído ao ego; seu comportamento é inteiramente determinado pela memória e informações recebidas do ambiente. Portanto, o ego não tem poder de decidir, nem de escolher.
- No processo primário (self-quântico), não existe condicionamento; em conseqüência, não há restrições à liberdade de opção. Já no processo secundário (self-ego), nossas respostas são condicionadas (idéias, pensamentos, decisões, sentimentos, serão condicionados pelas experiências anteriores que se acham gravadas na memória devido às repetições). O indivíduo que penetrou no atemporal (que teve a percepção do self-quântico), sempre agirá corretamente pois, descondicionado, pode escolher, e sua escolha será sempre a correta; seu livre-arbítrio é o próprio arbítrio (escolha, vontade) do todo (ou de Deus, como dizemos).
- Na meditação, a concentração da atenção num objeto mental, no fluir dos pensamentos, ou em todo o campo da percepção, permite que nos tornemos apenas testemunhas (pois o ego deixa de interferir) dos fenômenos mentais que surgem na percepção, do desfile de pensamentos e sentimentos condicionados.
- A meditação cria um hiato entre o despertar das respostas condicionadas mentais e a ânsia física de agir de acordo com elas e, desse modo, pode reforçar a capacidade de ‘nosso’ livre-arbítrio, de decidir contrariamente às respostas e aos atos condicionados, com isso enfraquecendo nosso condicionamento que, com a persistência na prática de meditação, poderá ser superado.
- No sonho e na hipnose, o self torna-se, principalmente testemunha (isto é, vê mas não interfere) e entra num estado que se caracteriza pela ausência de eventos de percepção secundária; assim, são enfraquecidas as inibições normais contra o colapso de estados mentais reprimidos. Por esse motivo, sonho e hipnose são úteis para trazer o inconsciente à percepção consciente. Na EQM, experiência de quase morte, o imediatismo desta libera grande volume do condicionamento inconsciente reprimido, tanto coletivo quanto pessoal; por isso, numerosos pacientes saem dessa experiência transbordantes de alegria e paz, pois, sem condicionamentos, a percepção da realidade é expandida.
- Como superar as esmagadoras possibilidades de respostas condicionadas para conseguir as respostas novas, não condicionadas, criativas? - 1.º) minimizando o condicionamento mental, mantendo conscientemente uma mente aberta ao novo, o que tende a aumentar a possibilidade de respostas não condicionadas; 2.º) pela persistência, que vem aumentar as probabilidades de que uma idéia criativa, mesmo de baixa possibilidade, se manifeste; a persistência aumenta o número de colapsos do estado quântico da mente-cérebro relativo à questão, elevando a probabilidade de conseguirmos uma resposta nova; 3º.) uma vez que a observação consciente é que produz o colapso da superposição coerente existente relativa ao problema, há certa vantagem no processamento inconsciente (meditação, sonho, hipnose) das quais pode aflorar o desconhecido. Disse Spencer Brown: ‘nenhuma atividade, nenhum raciocínio, nenhuma cálculo, nenhum comportamento agitado, nenhuma conversa (cérebro em silêncio); apenas contemplação, mantendo em mente, sem esforço, simplesmente, aquilo cuja resposta desejamos’.
- A atenção, na meditação, a todo o campo da percepção, ou a um mantra, ou objeto mental, desvia nossa atenção de pensamentos ociosos, pois nossa consciência não pode focalizar duas coisas ao mesmo tempo. O mundo externo, que existe em nós como um mapa interno, começa a ceder à medida que nos tornamos mais competentes na atenção ao processo da meditação. Finalmente, chegamos a um ponto em que a própria mente parece habituar-se: embora os eventos no campo da percepção secundária ainda estejam presentes, eles serão poucos e muito separados entre si e, nesses hiatos, os processos primários (do self-quântico) podem revelar-se em sua essência.
- A percepção do processo primário é a percepção atemporal, além do espaço-tempo; o meditador estará livre do espaço-tempo, além do ego e, como afirmam os sábios, e as escrituras ditas sagradas, entre elas o Velho Testamento, ‘quando o eu não é, Deus é’; é, portanto, a percepção do Absoluto ou, se quisermos, a percepção da divindade, a percepção de Deus.
- Como ensinou o profeta, ‘Aquieta-te e sabe: eu sou Deus’, isto é, quando conseguimos silenciar o ‘eu’, quem está ali não é mais nosso ilusório ‘ego’, com suas memórias, expectativas, emoções, desejos, apegos; quando o ‘eu’ não está, quem está é o próprio Deus. O ‘eu’, a consciência localizada do ego cessando, pela perseverança na meditação, abre espaço que pode ser preenchido pela própria Divindade. Por isso, aquietando-se o ego, sabemos que quem está ali é o próprio Deus. O aquietamento do ‘eu’ se consegue pela perseverança na meditação.
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(Jan 2008)
(Uma pálida idéia)
(jcl-ribpreto)
- Um elétron pode estar em ‘mais’ de um lugar ao mesmo tempo; os experimentos da física moderna são inequívocos a esse respeito.
- A ciência clássica, cartesiana (anterior), desenvolveu-se de acordo com a suposição fundamental de que existe, fora do observador, uma realidade real, objetiva, que seria algo sólido, constituído de coisas que possuem atributos, como massa, peso, carga elétrica, momentum, posição no espaço, spin, inércia, energia, cor, existência contínua através do tempo, etc. No entanto, tais coisas e todo o universo, de acordo com a nova física, não existem sem que algo lhes perceba a existência; e esse algo é a mente de seres sencientes.
- É errado, por exemplo, supor que um elétron seja um pontinho imponderável de matéria; isso porque, em certas ocasiões, ele é uma nuvem composta de um número infinito de possíveis elétrons, ondulando como uma onda e capaz de mover-se em velocidades superiores à da luz, desmentindo o postulado de Einstein sobre a velocidade. Tais possíveis elétrons parecem uma única partícula somente quando os observamos.
- No átomo, um elétron, quando perde energia, salta de uma órbita mais afastada do núcleo para uma mais próxima. Contudo, ele não passa pelo espaço entre uma órbita e a outra; simplesmente desaparece da mais elevada e aparece na outra.
- Resultados de observações sobre dois elétrons correlacionados, mesmo que separados por distâncias imensas, demonstram que forçosamente deve haver entre eles alguma conexão que permite que a comunicação entre eles se mova mais rápida que a luz. Como, conforme Einstein, nenhuma velocidade pode ser maior que a da luz (300 mil km por segundo) dentro do espaço-tempo, pode-se afirmar que essa comunicação ocorre além do espaço-tempo, logo no domínio do atemporal, no domínio transcendental.
- Em suma, há um número grande demais de provas demonstrando que o mundo objetivo, que costumamos considerar a realidade final é, apenas, ilusão do nosso pensamento, do nosso ego. E não podemos esquecer que todo o conhecimento do homem, em todas as áreas, tem como alicerce essa suposição que, agora, por inumeráveis e inquestionáveis experimentos da nova física, sabe-se ser ilusória.
- Ainda mais, o universo é autoconsciente. Pela física anterior, cartesiana e newtoniana (de Descartes e Newton), a consciência, a mente, era considerada apenas um subproduto da matéria cerebral; logo, o cérebro é que criaria a consciência. Hoje, pela nova física, sabe-se que é a consciência que cria o cérebro e todo o mundo material.
- A consciência é algo transcendental, portanto não-local, e está em tudo, tanto no espaço-tempo quanto além, no atemporal; a consciência é tudo.
- Consciência é o agente que afeta os objetos quânticos para lhes tornar o comportamento apreensível pelos nossos sentidos; a consciência focaliza esses objetos, ondas de probabilidades, de modo que podemos observá-los como partículas, ou coisas, em um único lugar.
- Um objeto quântico pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo (propriedade da onda); o objeto quântico se manifesta na realidade comum só quando o observamos e, com isso, provocamos o colapso da onda, que, instantaneamente, se apresenta como partículas ou objetos; um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico); a manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato pouco importando a distância entre eles (ação quântica instantânea à distância).
- A consciência é o fundamento de todo ser, incluindo a matéria. Tudo existe na consciência e é por ela manipulado. Ela organiza o mundo e lhe dá significado. Mas, para isso, necessita da observação produzida por uma mente senciente (cérebro/mente).
-EXPERIMENTO DAS DUAS FENDA:
(Na internet, no final da página da 'Wilkpedia' referente a esse experimento, explicado pelo 'Dr. Rabbit', está a pergunta:
'E o q tem um observador a ver com isso?' e, em seguida, vem a resposta: 'Um observador colapsa a função de onda simplesmente... por observar'.
É exatamente sobre isso que andamos conversando: a simples observação modifica a natureza. Não havendo um observador não há o colapso da função de onda e, em conseqüência, não há manifestação de partículas, ou seja, de matéria. Por aí se vê q, não existindo um ser senciente observando, tudo continua apenas como ondas; não haverá nem mesmo um universo como o conhecemos. Isso não merece uma reflexão mais profunda? Não indica q o ser humano (e todos os seres sencientes) é necessário para q tudo que aí está à nossa frente exista? A consciência do ser senciente, através da observação deste, é que realiza o processo final da criação determinada por aquilo a que denominamos Deus. Isso não está mostrando que nós não somos nada do que as religiões e crenças populares apregoam? Que somos muito mais do que isso? A consciência 'localizada' (nós) completa a criação da consciência 'não localizada', isto é, da Consciência Universal. Isso não está mostrando que nossa consciência complementa, completa, faz parte ou é a própria consciência de Deus? O que acham disso?
- Sob observação, o objeto quântico deixa de ser onda e se comporta como partícula (de matéria). Mesmo a objetos macroscópicos, como a Lua, por exemplo, a mecânica quântica prevê basicamente idêntico comportamento, com a diferença de que, nesse caso, o espalhamento do pacote de ondas é imperceptivelmente pequeno (nunca zero) entre as observações.
- Para cada evento, questão, fenômeno, problema, existe o que é chamado pela quântica de superposições coerentes, isto é, um número, considerado infinito, pelos sábios, de possibilidades de soluções (o campo das infinitas possibilidades, de Maharish Maresh Yogi). Por isso, todo evento de observação, que é o que produz o colapso da onda de probabilidades localizada fora do espaço-tempo, é potencialmente criativo e pode desvendar, sempre, novas possibilidades, respostas criativas, diferentes das conhecidas às quais nossa mente-localizada está habituada, e, por isso, condicionada.
- A observação faz com que o pacote de ondas entre em colapso e se torne partículas localizadas. Assim, o sujeito (observador) e o objeto (coisa observada) estão inextricavelmente misturados, ligados; não havendo observador, não há coisa observada, porque não há colapso; não havendo coisa observada, não há observador. Vê-se, pois, que, para que o universo se manifeste, o cérebro-mente é necessário; logo, nós, e todos os seres dotados de cérebro e mente, somos necessários.
- A consciência é a realidade única e final. Além dela, tudo é ilusão. Todo o universo sobre o qual pensamos e falamos nada mais é que ilusão, Maya, conforme o Vedanta. O todo é Brahman, Deus, a consciência absoluta, total, que existe além do alcance de Maya. Nada mais existe além da consciência.
- Como apenas existe uma mente, uma consciência, a separatividade entre seres e coisas é nada mais que ilusão. Somos, todos nós, apenas uma mente, uma consciência, embora pareçamos muitas (“Eu e o Pai somos um”).
- Como não há separação entre seres e coisas no universo, somos todos uma só coisa; logo não existe duas coisas como eu e Deus. Por isso disse Shankara: “Eu sou a realidade sem começo e sem fim. Não participo da ilusão ‘eu’ e ‘tu’, ‘isto’ e ‘aquilo’. Eu sou Brahman, o um sem segundo, a bem-aventurança sem fim, a verdade eterna, imutável. Eu resido em todos os seres como consciência pura, o fundamento de todos os fenômenos internos e externos. Eu sou o que desfruta e o que é desfrutado. Nos dias de minha ignorância eu costumava pensar nessas coisas como separadas de mim. Hoje sei que sou tudo”. E disse Ekhart, místico cristão: “Percebo que Deus e eu somos um só”. E Jesus: “Eu e o Pai somos um”.
- A experiência da unidade, quebrados os véus da separatividade, abre as portas para uma transformação do ser (iluminação) que gera amor, compaixão, sabedoria, e liberta o homem da ilusão da separatividade adquirida e dos apegos compensatórios aos quais nos agarramos (poder, riqueza, sexo, drogas, afetos, ilusões, crenças, religiões etc.). Tais apegos, nós os procuramos para preencher nosso vazio interior, nascido de nossa vida sem significado. Como disseram os mestres, somos ainda sub-humanos; nossa vida só adquire significado quando percebermos que somos muito mais que o ego (percepção que vem do auto-conhecimento proporcionado pela meditação).
- Como é que não podemos amar incondicionalmente a todos se só há uma consciência e sabemos que não estamos separados porque somos essa única consciência?
- O dualismo Deus-mundo não resiste ao exame científico. A nova física destruiu o realismo materialista construído pela física cartesiana. Amit Goswami argumenta que o idealismo monista, advindo da unidade de consciência, é não só compatível com a física quântica, mas até essencial para sua interpretação, tanto que os paradoxos da nova física desaparecem quando examinados do ponto de vista do idealismo monista, explicando mesmo questões como pluralidade aparente de consciências e transcendência.
- De conformidade com a nova física, o processo fundamental da Natureza reside fora do espaço-tempo, gerando eventos que neste se localizam, desde que haja observação. Fora do espaço-tempo tudo é transcendência, é estar em parte alguma e em toda parte, no aqui-agora eterno.
- Os objetos quânticos são simultaneamente onda e partícula; mas nunca podemos observar o aspecto onda de um elétron, pois nunca se manifesta no espaço-tempo; nem é partícula, porque esta aparece, nos experimentos, em locais proibidos às partículas. Logo, a física quântica diz que o objeto quântico não é onda nem é partícula, o que lembra as explicações do budismo Mahayana: “Ele ‘não existe’ e ‘não não existe’, simultaneamente. Nem ele existe, nem ele não existe”.
- O observador (todos os seres sencientes) está inescapavelmente envolvido em fazer que aconteça aquilo que parece estar acontecendo, porque só com sua observação há manifestação no espaço-tempo; sem observação nada existe.
- Escolhemos o resultado específico que se manifesta; os fenômenos são apenas prolongamento de nós mesmos. Mas, segundo os novos físicos, e as tradições de misticismo orientais, nada escolhemos como indivíduos. A escolha é da consciência unitiva (consciência total, Deus), que necessita da observação do cérebro-mente para que o escolhido se manifeste; a observação conclui o processo da escolha atemporal.
- Quando observamos, o mundo se torna objetivo. Quando não observamos, nem a nós mesmos, tudo é um.
- Nós, seres conscientes, não temos consciência; é a consciência que nos tem. Ela tudo abrange, do micro ao macrocosmo; no espaço-tempo e além.
- Nós não estamos conscientes de nosso corpo o tempo todo. Na verdade, em circunstâncias comuns, temos pouquíssima consciência de nós mesmos; de vez em quando temos consciência de estarmos vivos. Noutras palavras, nesses momentos, nós pensamos em nós mesmos. Nessas ocasiões, nossa função de onda entra em colapso e sentimos que existimos. Entre essas ocasiões, nossa função de onda se expande em superposições coerentes no domínio transcendental.
- Aquilo que parece continuidade, para um ser humano que observa a si mesmo, o fato de existir, é, na realidade, uma miragem que consiste de numerosos colapsos descontínuos (como num filme, no qual as imagens são descontínuas mas, pela sua velocidade, nos dão a impressão de que são contínuas) isto é, nós, como todos os objetos quânticos, e todos os objetos são quânticos, quando nos observamos ou somos observados, somos corpo-mente; quando não observados, somos apenas ondas de probabilidades coerentes na imensidade do domínio transcendental (Krishnamurti: um novo estado de existir).
- A consciência escolhe entre alternativas coerentes quando manifesta a realidade material. O colapso é um processo de escolha e reconhecimento por um observador consciente; mas não é que cada um ser humano escolha a seu prazer, pois assim o mundo seria uma confusão; sendo a consciência uma só, só há um observador senciente: a própria consciência, aquilo que denominamos o Absoluto, o Todo, Brahman, Deus. Nós, mentes localizadas, completamos a operação com nossa observação.
- A separatividade é resultado do colapso. Só depois deste é que passam a existir objetos, apenas aparentemente separados. Deve-se pensar em objetos quânticos como objetos em potencial (ondas no domínio não-local da realidade que transcende o espaço-tempo, e que podem se manifestar no espaço-tempo). Antes do colapso, nada existe no mundo da relatividade.
- Nós somos a consciência não-local apenas sutilmente velada, mas por um véu que pode ser penetrado em extensões variadas, como testemunharam místicos através dos tempos. Tal véu é produzido pelo que é chamado de hierarquias entrelaçadas, dois níveis de consciência que se confundem: a primária, absoluta, não-localizada, e a secundária, localizada em cada um.
- A iluminação, samadhi, nirvana, satori, é a percepção da consciência não-localizada, total, primária, e isso só acontece através do salto quântico, um salto para fora do sistema habitual, do condicionamento, fato que proporciona tal poder de criatividade que a consciência se vê a si mesma. É o topo, o ápice do auto-conhecimento, quando ficamos conhecendo aquilo que realmente somos (o “conhece-te a ti mesmo”, dos antigos sábios gregos).
- O universo existe como ‘potência’ informe em uma miríade de ramos (possibilidades), no domínio transcendente, que se torna manifesto quando, e somente quando, observado por seres sencientes.
- Para que a inteligência possa operar, o acionamento de um neurônio tem de ser acompanhado pelo acionamento de numerosos neurônios correlatos, a distâncias macroscópicas (até 10 cm, que é a largura do tecido cortical), fato que ocorre com velocidades além da velocidade da luz. Para que isso aconteça, é preciso que correlações não-locais existam no nível molecular do nosso cérebro, nas suas sinapses. Desse modo, até mesmo o pensamento comum depende da natureza dos eventos quânticos, e é um evento quântico.
- Os objetos quânticos macroscópicos, quando não observados permanecem na função de onda, apresentando espalhamento mínimo; por isso aparentam continuidade e apresentam memória; esse fato, entre outros, é responsável pelo surgimento da identidade do ‘self’” pessoal. Nosso cérebro, objeto quântico macroscópico, possui memória devido ao espalhamento mínimo da onda, quando não observado; os objetos microscópicos não a possuem, pois seu espalhamento é total e sua manifestação, no espaço-tempo, é instantânea, regenerando-se imediatamente; e, por isso, não guardam registro (memória) das experiências pelas quais passou.
- Um elétron ou outra partícula quando sob observação, pode estar aqui ou ali; quando não observado pode estar em qualquer ponto do universo. Há inúmeras provas de experimentos a esse respeito; por exemplo, o experimento das ‘duas fendas’; um anteparo com duas fendas mostra que um fóton ou um elétron só se manifesta como partícula quando observado por uma mente sencientes; quando não observado, ele não se manifesta no espaço-tempo, continuando como onda de energia.
- A consciência escolhe o resultado do colapso em todo e qualquer sistema quântico, o que quer dizer que a consciência unitiva escolhe. Uma vez que nossa experiência é consciente, nós escolhemos nossas experiências conscientes, embora permaneçamos inconscientes do processo subjacente. É essa inconsciência que leva à separatividade ilusória, à identidade com o ‘eu’ do self, em oposição ao ‘nós’, ou ‘Eu’, da consciência unitiva.
- Na hierarquia entrelaçada, os níveis estão tão misturados que não podemos identificar os diferentes níveis de consciência. Confundimos a consciência local com a não-local. Por isso ficamos presos na ilusão de que existe um ‘eu’ separado dos demais ‘eus’, e separado do universo manifestado e da consciência total.
- É a descontinuidade ou oscilação instantânea e contínua entre um nível e outro, entre manifestação de partículas e não-manifestação, que nos impede de ver através do véu. Como vemos o mundo do ponto de vista e referência de nosso cérebro (visão e audição, particularmente), temos a ilusão de que somos um ‘eu’ separado, que estamos aqui, dois a cinco centímetros atrás do ponto médio entre as sobrancelhas. Contudo, a ciência quântica, como as tradições místicas, concordam em que não há um ‘eu’ pessoal; o ego é apenas uma referência para uso prático, como afirmou Schroedinger, um dos pais da física quântica.
- Para desfazer essa ilusão temos de saltar para fora do sistema do espaço-tempo, ao qual estamos condicionados, e passar para o nível puro, inviolado, a consciência total (o que pode ser possível através da meditação). O ‘eu’ existe devido à ilusão proporcionada pelo cérebro, de cujo ponto de vista experimentamos o mundo (o ‘eu’ e o ‘não eu’).
- O ‘eu’ é conseqüência, portanto, de uma hierarquia de níveis entrelaçados embora nossa consciência seja a mesma consciência do Ser que está além da divisão sujeito-objeto. Não há, no universo, outra consciência. O self da auto-referência e a consciência da consciência original, primária, constituem, juntos, o que chamamos de autoconsciência.
- É a aparência do mundo da manifestação que nos leva à experiência de um self pessoal individual, ou sujeito, separado dos objetos aparentes. Mas, sujeito e objeto manifestam-se simultaneamente no instante do colapso do estado quântico do cérebro-mente, o que produz tanto o cérebro-mente quanto os objetos ‘lá fora’. Sem colapso não há mundo manifestado, nem cérebro-mente para perceber, nem objetos para serem percebidos, portanto, nem sujeito, nem objeto, nem observador, nem coisa observada. Enquanto o cérebro não entra em colapso, o sujeito-observador e o objeto-coisa observada são uma coisa só: o todo.
- O ego é o local onde acontece a auto-referência de todo o universo (como disse Krishnamurti: ‘por ser a mente vazia, existe o cérebro no espaço e no tempo’, isto é, existimos para preencher a mente total, somos os olhos e ouvidos do Absoluto). Em nós o universo divide-se em dois: a parte do universo que vê e a parte do universo que é vista; isto é, o sujeito que observa e o objeto que é observado, ambos ilusórios.
- O mecanismo de observação-medição do cérebro cria uma memória de cada colapso, isto é, de todas as experiências que temos como reação a um dado estímulo. Se o mesmo, ou um estímulo semelhante, é reapresentado, o registro do cérebro reproduz a velha memória. Esta reprodução torna-se um estímulo secundário para o sistema quântico cérebro-mente, que responde em seguida. O sistema mede a nova resposta e assim continua. Essa interação repetida de observações-medições ocasiona uma mudança fundamental no sistema quântico cérebro-mente e este perde seu caráter regenerativo. (Todo sistema quântico tem características regenerativas instantâneas; daí serem sempre e sempre sistemas novos e sem memória; no entanto, como o cérebro perde seu caráter regenerativo em face da repetição de estímulos e dos estímulos denominados secundários, o cérebro que, como todo sistema quântico não tem memória, passa a tê-la, advindo daí a ilusão de um ‘eu’ que tem continuidade no tempo e é separado dos demais ‘eus’, no espaço e no tempo).
- Antes que a resposta a um dado estímulo se torne condicionada, antes que nós a experimentemos pela enésima vez, o conjunto de probabilidades, as superposições coerentes, entre as quais a consciência escolhe a resposta, abrange os estados mentais comuns a todas as pessoas, em todos os lugares, em todos os tempos. Com o aprendizado, porém, as respostas condicionadas tendem a, gradualmente, ganhar mais peso probabilístico do que as outras respostas não repetidas. Esse é o processo de formação dos comportamentos condicionados, aprendidos e conservados na memória de cada indivíduo. Uma vez aprendida uma tarefa, em todas as situações que a envolvam estará presente, em quase cem por cento, a probabilidade de que uma memória correspondente desencadeie uma resposta condicionada, impedindo as respostas criativas, novas, que a consciência traz. Livrando-se do condicionamento, o homem poderá ter soluções criativas, não experimentadas antes, e poderá ter despertados, em si mesmo, o amor, a compaixão e a sabedoria.
- Para livrar-se do condicionamento é necessário fazer morrer o ‘eu’, que são os pensamentos, memórias, imagens, associações, emoções, desejos, medos, ilusões, advindos da genética, cultura, costumes, crenças, religiões, que nos sujeitam, e dessas coisas ficamos dependentes, presos a elas, mesmo sem saber se são verdades absolutas ou se um dia se realizarão. Cessado o ‘eu’, cessam essas distrações ou desatenções, e poderá então despontar aquele amor, aquela compaixão e aquela beleza acima de tudo o que imaginamos.
- Muito cedo, no desenvolvimento do ser humano, numerosos programas aprendidos se acumulam e dominam o comportamento do cérebro-mente, a despeito do fato de que respostas quânticas não condicionadas estejam disponíveis para novas experiências criativas, especialmente como resposta a estímulos não aprendidos ainda. Se a potência criativa do componente quântico do cérebro-mente deixa assim de ser usada (em face do condicionamento adquirido), a hierarquia entrelaçada do sistema cérebro-mente torna-se uma hierarquia simples, apenas referida aos programas aprendidos e condicionados. Nessa fase, a incerteza criativa sobre ‘quem é que escolhe as respostas’ é eliminada e começamos a assumir um self-ego separado totalmente, individual, que pensa que escolhe e que tem livre-arbítrio. Mas, como afirmam os sábios, ‘aquele que pensa que escolhe é imaturo’. Quem escolhe, como vimos antes, é a consciência unitiva, Deus.
- Em nossa ignorância, identificamo-nos com uma versão limitada do sujeito cósmico e concluímos: “eu sou este corpo-mente”. Perdemos, em face da ilusão dos dualismos, eu-não eu, mente-corpo, vida-morte, espaço-tempo, a identidade com o todo.
- Informações armazenadas de estados de consciência anteriores (memória) podem voltar à consciência. Dessa maneira torna-se possível à consciência ver seu próprio reflexo no espelho da memória, embora sempre com uma defasagem temporal, que é o tempo de reação entre o colapso quântico de um evento no espaço-tempo, e a experiência do ego baseada em introspecção (memória) provocada pelos estímulos secundários.
- Nossa preocupação com o processo secundário (indicado pela defasagem temporal) torna difícil que nos tornemos percebedores de nosso self-quântico, primário, real, e de experienciar os estados mentais puros, acessíveis no nível quântico antes do colapso. As práticas de meditação têm por objetivo eliminar a defasagem temporal e colocar-nos diretamente em contato com esses estados mentais em sua essência mais pura. Provas demonstram que a meditação reduz a defasagem temporal entre os processos primário (consciência pura, não-local) e secundário (cérebro-mente, consciência local), permitindo que se encontrem, o que proporciona a percepção do todo absoluto.
- A defasagem temporal da introspecção secundária permite que a experiência que temos em relação ao ego dê a impressão de ser contínua; e o denominado fluxo ininterrupto de consciência que percebemos em nós é o resultado de uma conversa introspectiva que ocorre em nossa mente espontaneamente, o filme emotivo-imaginativo, que, sem cessar, passa por nosso cérebro, como diz o Zen-Budismo.
- A consciência divide-se em sujeito e objeto através do colapso da função onda do cérebro-mente. O colapso é um evento (advindo de fora do espaço-tempo) de descontinuidade no espaço-tempo, mas experienciamos, assimetricamente, a divisão sujeito-objeto na modalidade aparentemente contínua do ego. Dificilmente (talvez somente pela meditação) percebemos o imediatismo da experiência disponível no nível quântico.
- O mundo manifestado não é maya. A verdadeira maya é a separatividade. Sentirmo-nos e pensarmos que somos realmente separados do todo, essa é toda a ilusão. O ego, também, nada mais é que um engodo, um feixe de memórias condicionadas, o passado, portanto o que já é conhecido.
- O self separado, o ego, não tem livre-arbítrio à parte do self quântico, da consciência unitiva, pois como vimos, nada escolhemos.
- O ‘eu’ não é uma coisa, mas uma relação entre a experiência consciente e o ambiente imediato. Nessa experiência, o mundo parece dividir-se entre sujeito e objetos. Ao ser refletida na memória, pelos processos chamados secundários, essa divisão produz a experiência dominante do ‘ego’, a imagem que formamos do experimentador aparente de nossos atos, pensamentos, e sentimentos do dia-a-dia. Essa identificação, no entanto, jamais é completa. Sempre a consciência deixa alguma abertura para o novo, o desconhecido, a novidade incondicionada, o que torna possível, embora muito raramente, aquilo que conhecemos como livre-arbítrio; pensamos que decidimos, quando quem decide é o sujeito cósmico. O ego, ‘eu’, está associado à experiência de percepção secundária, mas não à primária; esta está além do espaço-tempo, é o self-quântico, a própria divindade.
- Em algumas experiências, a identificação do self-quântico com o ego é muito menor que o habitual, como na experiência criativa, na qual o experienciador freqüentemente descreve o ato como inspirado por Deus. Tais experiências ocorrem de uma clara descontinuidade (o salto quântico), em contraste com a continuidade do ego, mais comum, no fluxo da consciência. São as experiências chamadas transpessoais, uma vez que não é dominante a identidade com a pessoa, ou o ‘eu’ particular do experienciador. Experiências paranormais, como a telepatia, a sincronicidade, ‘projeções’ etc., estão aí explicadas, bem como a chamada visão à distância e a coerência das ondas cerebrais geradas pela meditação.
- A nova física vem mostrar que essas experiências podem ser reais, e, assim, a ciência, sempre hostil às grandes tradições religiosas, pode, hoje, caminhar junto com elas no sentido de levar o ser humano à percepção de sua verdadeira natureza e de seu verdadeiro lugar no universo.
- Não há um poder causal que possa ser atribuído ao ego; seu comportamento é inteiramente determinado pela memória e informações recebidas do ambiente. Portanto, o ego não tem poder de decidir, nem de escolher.
- No processo primário (self-quântico), não existe condicionamento; em conseqüência, não há restrições à liberdade de opção. Já no processo secundário (self-ego), nossas respostas são condicionadas (idéias, pensamentos, decisões, sentimentos, serão condicionados pelas experiências anteriores que se acham gravadas na memória devido às repetições). O indivíduo que penetrou no atemporal (que teve a percepção do self-quântico), sempre agirá corretamente pois, descondicionado, pode escolher, e sua escolha será sempre a correta; seu livre-arbítrio é o próprio arbítrio (escolha, vontade) do todo (ou de Deus, como dizemos).
- Na meditação, a concentração da atenção num objeto mental, no fluir dos pensamentos, ou em todo o campo da percepção, permite que nos tornemos apenas testemunhas (pois o ego deixa de interferir) dos fenômenos mentais que surgem na percepção, do desfile de pensamentos e sentimentos condicionados.
- A meditação cria um hiato entre o despertar das respostas condicionadas mentais e a ânsia física de agir de acordo com elas e, desse modo, pode reforçar a capacidade de ‘nosso’ livre-arbítrio, de decidir contrariamente às respostas e aos atos condicionados, com isso enfraquecendo nosso condicionamento que, com a persistência na prática de meditação, poderá ser superado.
- No sonho e na hipnose, o self torna-se, principalmente testemunha (isto é, vê mas não interfere) e entra num estado que se caracteriza pela ausência de eventos de percepção secundária; assim, são enfraquecidas as inibições normais contra o colapso de estados mentais reprimidos. Por esse motivo, sonho e hipnose são úteis para trazer o inconsciente à percepção consciente. Na EQM, experiência de quase morte, o imediatismo desta libera grande volume do condicionamento inconsciente reprimido, tanto coletivo quanto pessoal; por isso, numerosos pacientes saem dessa experiência transbordantes de alegria e paz, pois, sem condicionamentos, a percepção da realidade é expandida.
- Como superar as esmagadoras possibilidades de respostas condicionadas para conseguir as respostas novas, não condicionadas, criativas? - 1.º) minimizando o condicionamento mental, mantendo conscientemente uma mente aberta ao novo, o que tende a aumentar a possibilidade de respostas não condicionadas; 2.º) pela persistência, que vem aumentar as probabilidades de que uma idéia criativa, mesmo de baixa possibilidade, se manifeste; a persistência aumenta o número de colapsos do estado quântico da mente-cérebro relativo à questão, elevando a probabilidade de conseguirmos uma resposta nova; 3º.) uma vez que a observação consciente é que produz o colapso da superposição coerente existente relativa ao problema, há certa vantagem no processamento inconsciente (meditação, sonho, hipnose) das quais pode aflorar o desconhecido. Disse Spencer Brown: ‘nenhuma atividade, nenhum raciocínio, nenhuma cálculo, nenhum comportamento agitado, nenhuma conversa (cérebro em silêncio); apenas contemplação, mantendo em mente, sem esforço, simplesmente, aquilo cuja resposta desejamos’.
- A atenção, na meditação, a todo o campo da percepção, ou a um mantra, ou objeto mental, desvia nossa atenção de pensamentos ociosos, pois nossa consciência não pode focalizar duas coisas ao mesmo tempo. O mundo externo, que existe em nós como um mapa interno, começa a ceder à medida que nos tornamos mais competentes na atenção ao processo da meditação. Finalmente, chegamos a um ponto em que a própria mente parece habituar-se: embora os eventos no campo da percepção secundária ainda estejam presentes, eles serão poucos e muito separados entre si e, nesses hiatos, os processos primários (do self-quântico) podem revelar-se em sua essência.
- A percepção do processo primário é a percepção atemporal, além do espaço-tempo; o meditador estará livre do espaço-tempo, além do ego e, como afirmam os sábios, e as escrituras ditas sagradas, entre elas o Velho Testamento, ‘quando o eu não é, Deus é’; é, portanto, a percepção do Absoluto ou, se quisermos, a percepção da divindade, a percepção de Deus.
- Como ensinou o profeta, ‘Aquieta-te e sabe: eu sou Deus’, isto é, quando conseguimos silenciar o ‘eu’, quem está ali não é mais nosso ilusório ‘ego’, com suas memórias, expectativas, emoções, desejos, apegos; quando o ‘eu’ não está, quem está é o próprio Deus. O ‘eu’, a consciência localizada do ego cessando, pela perseverança na meditação, abre espaço que pode ser preenchido pela própria Divindade. Por isso, aquietando-se o ego, sabemos que quem está ali é o próprio Deus. O aquietamento do ‘eu’ se consegue pela perseverança na meditação.
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010
ENFIM
(23) ENFIM (Dez 2007)
(jcl, rp, 12/02)
Após anos e anos, aquela busca cessou.
Hoje, não mais a prece, o pedido, o apelo. Há, sim, ainda, a escuridão do ser. Para esta, só o percebimento final é solução. Hoje, o ser sabe que não é preciso ir em busca do perfeito, pois tudo o é (como cantavam os monges, em Campinas: “Do perfeito tirando o perfeito, o que resta é perfeito”).
Não mais é preciso o esforço, o motivo, o controle, a obstinação. A partir de agora, o ser sabe que “é”. Apenas aguarda a “coisa”, que ela se manifeste sem que se espere com ansiedade. É, como disse Krishnamurti, “limpar o quarto e deixar a janela aberta para que ‘ela’, de repente, adentre” enchendo o ser de luz. Adentre o ser e faça cessar o “eu” com a manifestação do divino. Quando o ‘eu não é, Deus é’.
Esta, hoje, é a espera, mas espera sem descontrole, pois tudo está certo. Não mais receio do erro, de suas conseqüências, do carma; não mais espera de nova encarnação. O ser não cessa, não morre; apenas altera seu modo de ser em um novo e desconhecido estado de existir. Fundido com o todo, integrado com o micro e com o macrocosmo, e além, esse o vir-a-ser.
Todos somos um. A ilusão da separação, de que você é você, eu sou eu, ele é ele, cessará com o percebimento da verdade. O sofrimento do tempo e do espaço se transformará em poeira, lá atrás, longe e imerso nas sombras da ilusão a que sempre pertenceu.
O alto chegará quando quiser. Não há previsão, não há certeza, mas já o ser está lá, aqui, em todo lugar. Somente não temos consciência dessa verdade porque o tecido cinzento é obstáculo à percepção; o ego é parede, muro, cortina, impedimento. E está repleto de conhecimentos limitados, condicionamentos, vícios e ilusões, trazidos pelo tempo.
Porém, a escolha não é nossa, nem do tempo, nem do lugar; e para a chegada da luz, aparentemente, para nós, não há razões nem motivos.
O ser já está lá, aqui, em todo lugar,
Pois o ser é o Ser, infinito e eterno.
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(jcl, rp, 12/02)
Após anos e anos, aquela busca cessou.
Hoje, não mais a prece, o pedido, o apelo. Há, sim, ainda, a escuridão do ser. Para esta, só o percebimento final é solução. Hoje, o ser sabe que não é preciso ir em busca do perfeito, pois tudo o é (como cantavam os monges, em Campinas: “Do perfeito tirando o perfeito, o que resta é perfeito”).
Não mais é preciso o esforço, o motivo, o controle, a obstinação. A partir de agora, o ser sabe que “é”. Apenas aguarda a “coisa”, que ela se manifeste sem que se espere com ansiedade. É, como disse Krishnamurti, “limpar o quarto e deixar a janela aberta para que ‘ela’, de repente, adentre” enchendo o ser de luz. Adentre o ser e faça cessar o “eu” com a manifestação do divino. Quando o ‘eu não é, Deus é’.
Esta, hoje, é a espera, mas espera sem descontrole, pois tudo está certo. Não mais receio do erro, de suas conseqüências, do carma; não mais espera de nova encarnação. O ser não cessa, não morre; apenas altera seu modo de ser em um novo e desconhecido estado de existir. Fundido com o todo, integrado com o micro e com o macrocosmo, e além, esse o vir-a-ser.
Todos somos um. A ilusão da separação, de que você é você, eu sou eu, ele é ele, cessará com o percebimento da verdade. O sofrimento do tempo e do espaço se transformará em poeira, lá atrás, longe e imerso nas sombras da ilusão a que sempre pertenceu.
O alto chegará quando quiser. Não há previsão, não há certeza, mas já o ser está lá, aqui, em todo lugar. Somente não temos consciência dessa verdade porque o tecido cinzento é obstáculo à percepção; o ego é parede, muro, cortina, impedimento. E está repleto de conhecimentos limitados, condicionamentos, vícios e ilusões, trazidos pelo tempo.
Porém, a escolha não é nossa, nem do tempo, nem do lugar; e para a chegada da luz, aparentemente, para nós, não há razões nem motivos.
O ser já está lá, aqui, em todo lugar,
Pois o ser é o Ser, infinito e eterno.
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TUDO PASSA...
(25) TUDO PASSA (Jan 2008)
(jcl-rp-2003)
O ontem já se foi; o hoje, logo mais cessará; o amanhã, também será esquecido. Contudo, o ‘eu’ está aqui, ali, no tempo e no espaço, e deixará de ser um dia, embora, na verdade, nunca houvesse sido.
O que existe ontem, hoje, amanhã, é o ser essencial, a consciência total. As consciências locais são fruto da ilusão em que o homem está mergulhado.
‘Ser’, esta é a única realidade, a coisa perfeita, ‘o que é’.
Abramos os olhos e ouvidos e percebamos aquilo que nos libertará da ilusão da separatividade. O observador e a coisa observada, o sujeito e o objeto são um só, ligados eternamente, desde sempre e para sempre. Não há seres que ostentem sua área psicológica particular como autônoma e possuidora de livre-arbítrio. Embora suposições existam de que somos livres e independentes, nada disso é realidade e todos somos um só.
No mais profundo do íntimo, os seres se confundem, suas partículas se interpenetram, e formam algo grandioso e indivisível.
A morte só alcança os corpos físicos, biológicos, pois a essência, a consciência, a mente, é eterna e infinita e, logo, uma só. Para ela, como para Deus, todo tempo é agora e todo lugar é aqui.
Há uma consciência total no universo e além. Embora a mente una seja quem escolhe, se a mente local não existir, o objeto ou a solução escolhida não terá manifestação e vida na relatividade.
Relativo e absoluto, também, são apenas um. O colapso da nuvem não-local, atemporal, produz os eventos, fenômenos e coisas, mas, antes dele, tudo se confunde. No entanto, mesmo após a manifestação do escolhido, no microcosmo há confusão. Os limites são falácias; as fronteiras, ilusões, pois o todo é sempre o todo, sempre um.
O oceano de energia que forma oceanos de água, ar, terra, pedras, vegetais e cerebrados, não possui divisões, não conhece estases, ilimitado, sem fim, onde os últimos vêem e percebem os demais, para que o universo se perceba a si mesmo.
A ilusão não nos deixa ver que todos somos apenas um, que o todo é algo indivisível e perfeito, eterno e infinito.
Embora pensemos que escolhemos, que decidimos e fazemos por nossa própria vontade e discernimento, nada disso é real, pois a divindade, dentro de nós e em tudo, é que opera todos os movimentos, o pensar, o querer e o fazer, pois somos apenas suas máscaras.
Atores, nesse megadrama do existir, continuadamente nos iludimos e, por isso, causamos conflitos e dor a nós mesmos e aos demais.
Mas é a divindade, o sujeito absoluto, que age; e nossa busca é sua busca, embora nos esforcemos para soluções que não são nossas e que, por isso, nos proporcionam freqüentes frustrações e desditas.
No entanto, terminada a ilusão, abertos os olhos, todos os fenômenos, eventos, desejos, pensamentos, ilusões, dores e conflitos, passarão, ficarão para trás, esquecidos, sem importância, coisas prosaicas que se revelarão ser.
Depois, apenas resta um novo e único modo de existir.
Pois, a realidade, a Verdade é que tudo é Mente, Deus, o Ser Absoluto; nada mais é.
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(jcl-rp-2003)
O ontem já se foi; o hoje, logo mais cessará; o amanhã, também será esquecido. Contudo, o ‘eu’ está aqui, ali, no tempo e no espaço, e deixará de ser um dia, embora, na verdade, nunca houvesse sido.
O que existe ontem, hoje, amanhã, é o ser essencial, a consciência total. As consciências locais são fruto da ilusão em que o homem está mergulhado.
‘Ser’, esta é a única realidade, a coisa perfeita, ‘o que é’.
Abramos os olhos e ouvidos e percebamos aquilo que nos libertará da ilusão da separatividade. O observador e a coisa observada, o sujeito e o objeto são um só, ligados eternamente, desde sempre e para sempre. Não há seres que ostentem sua área psicológica particular como autônoma e possuidora de livre-arbítrio. Embora suposições existam de que somos livres e independentes, nada disso é realidade e todos somos um só.
No mais profundo do íntimo, os seres se confundem, suas partículas se interpenetram, e formam algo grandioso e indivisível.
A morte só alcança os corpos físicos, biológicos, pois a essência, a consciência, a mente, é eterna e infinita e, logo, uma só. Para ela, como para Deus, todo tempo é agora e todo lugar é aqui.
Há uma consciência total no universo e além. Embora a mente una seja quem escolhe, se a mente local não existir, o objeto ou a solução escolhida não terá manifestação e vida na relatividade.
Relativo e absoluto, também, são apenas um. O colapso da nuvem não-local, atemporal, produz os eventos, fenômenos e coisas, mas, antes dele, tudo se confunde. No entanto, mesmo após a manifestação do escolhido, no microcosmo há confusão. Os limites são falácias; as fronteiras, ilusões, pois o todo é sempre o todo, sempre um.
O oceano de energia que forma oceanos de água, ar, terra, pedras, vegetais e cerebrados, não possui divisões, não conhece estases, ilimitado, sem fim, onde os últimos vêem e percebem os demais, para que o universo se perceba a si mesmo.
A ilusão não nos deixa ver que todos somos apenas um, que o todo é algo indivisível e perfeito, eterno e infinito.
Embora pensemos que escolhemos, que decidimos e fazemos por nossa própria vontade e discernimento, nada disso é real, pois a divindade, dentro de nós e em tudo, é que opera todos os movimentos, o pensar, o querer e o fazer, pois somos apenas suas máscaras.
Atores, nesse megadrama do existir, continuadamente nos iludimos e, por isso, causamos conflitos e dor a nós mesmos e aos demais.
Mas é a divindade, o sujeito absoluto, que age; e nossa busca é sua busca, embora nos esforcemos para soluções que não são nossas e que, por isso, nos proporcionam freqüentes frustrações e desditas.
No entanto, terminada a ilusão, abertos os olhos, todos os fenômenos, eventos, desejos, pensamentos, ilusões, dores e conflitos, passarão, ficarão para trás, esquecidos, sem importância, coisas prosaicas que se revelarão ser.
Depois, apenas resta um novo e único modo de existir.
Pois, a realidade, a Verdade é que tudo é Mente, Deus, o Ser Absoluto; nada mais é.
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