O Estado de Conciência do Homem é apenas Sonho e Ilusão
ROGER N. Walsh, M.D., PhD., catedrático de Psiquiatria na Universidade da Califórnia, autor de muitos livros de ciência da meditação e do cérebro, e Frances Vaughan, PhD., clínica e professora de psicologia do Instituto de Psicologia Transpessoal da Califórnia, autora de revistas científicas especializadas sobre o tema; e Duane Elgin, pesquisadora em ciências sociais e autora de obras sobre meditação, e Ken Wilber, pesquisador do misticismo oriental e autor de importantes obras sobre psicologia transpessoal (Deepak Chopra diz: as obras de Wilber estão sempre alcance de minhas mãos):
........
A psicologia oriental faz afirmações que contrariam completamente as pressuposições ocidentais relativas à consciência:
1)nosso estado comum de consciência está muito abaixo do nível considerado ótimo;
2)existem muitos estados de consciência, incluindo verdadeiros estados ‘superiores’;
3)esses estados podem ser alcançados por meditação;
4) a comunicação entre tais estados é, necessariamente, muito limitada.
Os místicos desenvolvidos afirmam, categoricamente, que o nível de consciência considerado ótimo pela psicologia ocidental é apenas sonho e ilusão; que, saibamos ou não, somos prisioneiros de nossa própria mente, emaranhados, sem percebermos, num diálogo-fantasia interior (Benoit: o ‘filme’ emotivo-imaginativo) sem fim que cria distorções ilusórias na nossa percepção da realidade do mundo e da vida; que essa condição nos permanece oculta até que comecemos a submeter nossos processos de percepção à rigorosa análise, como o que acontece na meditação.
A pessoa ‘normal’ é considerada ‘adormecida’ ou ‘mergulhada em sonho’. Quando o sonho é doloroso se torna pesadelo e é reconhecido como uma condição patológica mas, como a imensa maioria dos seres humanos está ‘sonhando’, essa condição permanece não-percebida.
Quando alguém desperta, isto é, se ilumina, e deixa, em conseqüência, de se identificar com o sonho, pode perceber que seu estado anterior de consciência, e o da população em geral, é apenas ilusão.
Aqui no Ocidente, a psicose é definida como um estado de consciência deficiente, que vê a realidade distorcida e não reconhece essa distorção. Então, pela visão dos místicos, o estado comum de consciência ocidental atende a todos esses critérios referentes à psicose: é deficiente, tem visão distorcida da realidade e não reconhece essa distorção; nós, ocidentais, portanto, na visão dos místicos, somos, todos, psicóticos.
Cada estado ou nível de consciência é, apenas, um grau relativo de percepção da realidade, o que significa que nós somente percebemos uma parcela da realidade (só os místicos desenvolvidos a percebem inteira; e esse percebimento só pode chegar com meditação).
Tart: ‘Estudamos, no Ocidente, aspectos do sansara (maya, ilusão) com muito mais detalhes do que as próprias tradições orientais que criaram esse conceito. No entanto, quase nenhum psicólogo ocidental aplica o que estudou a si mesmo. Eles supõem que seus estados de consciência são lógicos, claros e sadios e não ilusão. A psicologia ocidental precisa reconhecer que nosso estado ‘normal’ de consciência é um estado psicótico, estado de sansara, de ilusão, de sonho.
Os estados superiores de consciência, que trazem liberdade total, iluminação, superação do sofrimento e de todos os problemas da vida, nem chegam a ser considerados pela psicologia ocidental, que só se aplica a tentar a cura de patologias do nível do ego e existenciais. No entanto, os estados superiores são dotados de todas as capacidades do estado comum e apresentam outras aptidões adicionais superiores às do estado comum. Podem vir acompanhados de percepções, intuições e afetos não usuais na experiência cotidiana, alguns fundamentais para o desenvolvimento de uma verdadeira sabedoria superior.
Mas, como disse Ramana: ‘Ninguém obtém êxito sem esforço. Quem é bem sucedido deve à perseverança seu sucesso’; como também disse Jesus: ‘Aquele que perseverar até o fim será salvo’.
King: ‘Convencemo-nos uns aos outros de que nossa condição comum de consciência desperta é saudável e própria do homem, pela simples razão de que todos somos suas vítimas’; ela nos ilude a todos.
Assim, enquanto as experiências de nirvana, iluminação, samadhi, satori, consciência cósmica, reino de Deus, consciência de Cristo ou de Buda, trazem um sentido de unidade e harmonia com todo o universo, os psiquiatras e psicólogos ocidentais as interpretam como fuga ou regressão a um estágio infantil primitivo, ao útero, ou ao seio materno. Faz pouco sentido para o cientista de saúde ocidental a afirmação de que nosso estado comum de consciência é limitado, carregado de fantasia, obscuro e ilusório, porque eles não experimentaram estados elevados, embora a comprovação individual seja relativamente fácil. Em poucos dias de investigação intensa, quando se tenta a meditação, pode-se verificar a natureza irracional, obscura e incontrolável da mente não treinada, e os investigadores se espantarão de não o terem percebido antes.
A explicação de que as experiências transcendentais são aberrações, porque não podem ser transmitidas verbalmente (Paulo: ‘vi e ouvi coisas indizíveis’), não leva em conta o fato de que a linguagem pode ser excelente para a comunicação de experiências que as pessoas têm em comum; mas experiências não compartilhadas implicam pouca ou nenhuma comunicação. Daí, os obstáculos para a comunicação entre pessoas de diferentes estados de consciência (Paulo: ‘A sabedoria de Deus é loucura para os homens’). Assim, pela visão ocidental, as afirmações orientais sobre a consciência só podem parecer sem sentido e incompreensíveis.
Vimalo: ‘As intuições místicas não podem ser julgadas por pessoas não iluminadas, apenas com a visão limitada do conhecimento intelectual’.
Assim, enquanto um objeto, para um animal, pode não passar de algo estranho (o que ele é), para um selvagem pode ser apenas papel marcado (o que ele é), para um adulto educado médio pode ser um livro que traz afirmações estranhas e complicadas sobre a natureza e o mundo (o que ele é), para o físico pode ser um brilhante tratado científico que revela descobertas e profundas realidades (o que ele é). Para cada nível de compreensão, há um grau diferente de significação, o que faz com que, em um nível, não se tenha nenhuma compreensão dos significados, talvez importantíssimos, de determinado evento de um nível superior. Por isso, pode-se pensar que o místico afirmou bobagens e absurdos, resultantes de uma condição patológica ou de um estado de consciência deficiente quando, na realidade, ele afirmou verdades de níveis superiores.
A experiência transcendental ou mística é um estado alterado de consciência que se caracteriza, entre outras coisas, por:
1) ser inefável: tem tamanho poder e é tão diferente de qualquer outra experiência, que sua comunicação, isto é, que falar sobre ela, é impossível;
2) desperta sentido aumentado de clareza e compreensão (sabedoria);
3) traz percepção alterada do espaço-tempo;
4) produz apreciação da natureza integrada, holística e unitiva do universo e da própria unidade com este;
5) desperta intenso amor por todos; e
6) traz a percepção de que o universo é e sempre foi perfeito.
Experiências simples ocorrem a muitos, mas em geral essas pessoas as reprimem, as escondem, pelo temor da perda de controle e da intolerância da sociedade, ou são mal interpretadas em face da cultura vigente. Elas podem produzir mudanças benéficas e duradouras, tendo Jung afirmado sua importância espantosa para a saúde mental: ‘O fato é que a aproximação do numinoso (do transcendental, do miraculoso, da percepção de Deus, do sagrado) é a verdadeira terapia e, na medida em que alcança essas experiências, a pessoa se liberta da maldição da patologia’ (semelhante a ‘todo mal e todo bem, mental ou fisiológico, pois mente e corpo são interdependentes, vêm de uma menor ou maior aproximação da percepção do divino’).
Maslow afirma que a experiência mística é ‘tão profunda e chocante que pode mudar o caráter de uma pessoa para sempre’. Ao retornar dela, a pessoa ‘sente-se, mais do que nunca, o centro responsável, ativo e criativo de suas próprias percepções e atividades, mais determinada e com mais livre-arbítrio do que nunca’. E, dentro de uma ‘hierarquia de meta-necessidades do homem’, considera a busca da transcendência do ego como o objetivo mais importante e sublime da vida do ser humano (como Jung, também afirmou). Pesquisadores da meditação afirmam que evidências comprovam seu potencial de levar a estados superiores de consciência e a uma maior saúde mental. E também que o investigador não pode ser apenas experimentador; tem de ser, também, participante ativo. Outros alertam para o fato de que um dos mais delicados problemas que os investigadores têm de enfrentar pode ser o reconhecimento de que poderão sofrer resistências ativas acerca de idéias e experiências advindas da meditação, pois suas crenças e concepções mais fundamentais sobre a vida podem ser tremendamente questionadas até mesmo por eles.
Satprem: ‘Eis porque é tão difícil explicar o caminho para quem não o experimentou: a pessoa verá apenas seu atual ponto de vista, ou melhor, receará a perda de suas crenças, a perda de seu ponto de vista. E, no entanto, se ao menos percebesse que cada perda de ponto de vista é um progresso e que a vida muda quando se passa do estágio da verdade fechada para o estágio da verdade aberta - uma verdade que se assemelha à própria vida, demasiado grande para ser aprisionada por pontos de vista, já que abrange todos eles... uma verdade grandiosa o suficiente para negar a si mesma, e passível de levar sempre e interminavelmente para uma verdade superior’.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O EGO É FONTE INTERMINÁVEL DE SOFRIMENTO E MISÉRIA
ROGER N. Walsh, M.D., PhD., catedrático de Psiquiatria na Universidade da Califórnia, autor de muitos livros de ciência da meditação e do cérebro, e Frances Vaughan, PhD., clínica e professora de psicologia do Instituto de Psicologia Transpessoal da Califórnia, autora de revistas científicas especializadas sobre o tema.
........
A psicologia transpessoal (além da identidade e personalidade do ego) considera a pessoa por quatro dimensões: consciência, condicionamento, personalidade e identidade.
1) A consciência comum é um estado contraído e defensivo, invadido por um fluxo contínuo de pensamentos e fantasias “incontroláveis” (o filme emotivo-imaginativo, do Zen-Budismo), que estão de acordo com nossas necessidades e defesas para a sobrevivência. Assim, disse Dass: ‘Somos todos prisioneiros de nossa mente. Perceber isso é o primeiro passo para a libertação’. Enquanto o homem não o percebe, nada faz para se libertar.
É essencial para o crescimento da consciência ao extremo bem psicológico, abandonar tal contração defensiva, causada pelo ego, e perceber seu enorme potencial de ampliação, o que pode ser conseguido pela prática da meditação.
Satprem: ‘O que traz a revelação do segredo é o silêncio da mente. Na verdade, todos os tipos de descobertas ocorrem quando a mente pára, e a primeira descoberta é que, se o poder de pensar é um dom grandioso, o poder de não pensar é mais grandioso ainda’. As técnicas de meditação das tradições orientais sérias têm por objetivo exatamente a cessação do pensar, para que, cessando o pensar, a mente se livre de suas impurezas, esvazie-se de seus obstáculos e tenha condições de ver a ’Realidade’.
A afirmação de que nosso estado comum de consciência pode ser ampliado traz implicações inesperadas. Como já vimos, o estado comum de consciência do homem ocidental é idêntico à psicose. Nessa perspectiva, cada estado de consciência revela sua própria gama de realidades, podendo-se definir a psicose como um apego ou aprisionamento a ‘qualquer’ conteúdo da consciência, seja de qual nível for (exceto o nível da Mente pura, Deus, pois nesta, não há mais qualquer mal, obstáculo, doença, ou apego).
A realidade, tal como a conhecemos (sendo essa a única maneira pela qual a conhecemos), é apenas ‘parte’ da realidade. Ram Dass: ‘Crescemos num plano de existência, percepções e interpretações, que julgamos real. Identificamo-nos por inteiro com essa realidade, que consideramos absoluta e verdadeira, e descartamos as experiências incompatíveis com ela. O que Einstein demonstrou na física se aplica a todos os aspectos do universo: a realidade é relativa ao nível de consciência do observador. Cada realidade só é verdadeira dentro de determinados limites de consciência; não passa de uma versão possível do que as coisas são. Há sempre múltiplas versões da realidade. Despertar de uma delas é reconhecer sua relatividade’. (Só no nível da Mente pura a realidade é absoluta).
William James: ‘Nossa consciência desperta e comum é apenas um dos tipos de consciência; ao seu redor, separadas dela pelo mais fino véu, há formas potenciais de consciência que dela diferem inteiramente. Podemos passar pela vida sem suspeitar de sua existência, mas aplique-se a elas o estímulo necessário e, num instante, elas surgem em toda sua inteireza. Não pode ser completo o significado do universo em sua totalidade se não se considerar essas outras formas de consciência.’
Logo, a realidade que percebemos reflete nosso estado de consciência do momento, e jamais podemos explorar a realidade sem explorarmos, ao mesmo tempo, a nós mesmos, tanto por sermos como porque nós criamos a própria realidade que queremos explorar (conforme o misticismo e a física quântica).
2) Quanto ao condicionamento, a psicologia transpessoal afirma que nele estamos totalmente presos, mas que a libertação é possível. Estamos presos principalmente ao apego, o que significa que a não-realização do desejo (ao qual nos apegamos) produzirá sofrimento. Logo, o apego tem papel crucial na causa de toda infelicidade do homem, sendo o abandono do apego fundamental para a cessação do sofrimento (‘...e a verdade vos libertará’).
Dass: ‘Associar-se ao apego traz interminável sofrimento e miséria’.
Jung: ‘Enquanto estivermos apegados, estamos possuídos, e, quando estamos possuídos, existe algo mais forte do que nós, que nos aprisiona’.
O apego não é só a objetos externos ou pessoas. Há apego às posses materiais, a relacionamentos especiais, à condição social, à auto-imagem particular, a padrão de comportamentos e a processos psicológicos (modo de pensar, crenças, suposta realidade etc); entre os apegos mais fortes estão o apego ao sofrimento e à falta de valor próprio.
Enquanto acreditarmos que nossa identidade nasce de nossos papéis, problemas, relacionamentos ou conteúdos da nossa consciência, o apego será reforçado para fins de sobrevivência pessoal, porque acreditamos que dependemos deles: ‘Se abandono meus apegos, quem serei e o que serei?’
Há também apego ao drama ou história pessoal que cada um tem para contar aos outros sobre si mesmo; é um luxo desnecessário, parte de nossa bagagem emocional. É benéfico para todos desapegar-se de seu drama e dos dramas pessoais dos outros (das emoções, portanto).
3) Quanto à identificação, define-se como o processo pelo qual alguma coisa é vivenciada como o ‘eu’. E é tamanha nossa identificação que jamais questionamos aquilo que tão claramente parecemos ser. Toda tentativa de questionar nossa identificação pode encontrar considerável resistência de nós mesmos e daqueles que nos rodeiam.
Laing: ‘As nossas tentativas de despertar costumam ser punidas, especialmente pelos que mais nos amam, porque eles, abençoados sejam, estão ‘dormindo’ e pensam que quem desperta, ou percebe que o que considera realidade não passa de um sonho (ilusão), está ficando louco’ (‘A sabedoria de Deus é loucura para os homens’, disse Paulo).
A nossa identificação com nosso conteúdo mental torna-nos inconscientes do nível de consciência mais amplo que contém esse conteúdo; o conteúdo da mente passa a ser o crivo pelo qual interpretamos todos demais contextos. Por exemplo, se o pensamento ‘estou com medo’ surgir e for tomado pelo que é, ou seja, apenas um pensamento, pouca influência terá. Mas, se nos identificarmos com ele (se ele passar a ser nosso conteúdo mental), a realidade, nesse momento, será o nosso medo (Krishnamurti: somos o medo, a violência, a raiva, a inveja etc) e nós, muito provavelmente, geraremos uma série de pensamentos e emoções de medo, e nos identificaremos com eles; interpretaremos os mais indefinidos pensamentos como medo; perceberemos o mundo como algo ameaçador e agiremos de acordo.
A identificação põe em movimento um processo auto-realizador no qual os processos psicológicos tornam válida a realidade daquilo com que nos identificamos. Tudo parecerá provar a realidade do nosso medo. Ao se identificar, a pessoa não percebe o fato de que sua percepção vem do pensamento ‘estou com medo’. Não percebemos esse pensamento, mas passamos a interpretar todas as coisas a partir dele. A consciência passa a ver o mundo de uma forma limitada e auto-validadora. ‘Enquanto estivermos identificados com um pensamento ou objeto, somos seus escravos, não somos livres’. (Por isso, Jesus disse: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’).
Quando nos lembramos de que nossa mente está sempre repleta de pensamentos com os quais, sem perceber, nos identificamos, fica evidente que, no estado comum de consciência, estamos, literalmente, hipnotizados. Como na hipnose, o indivíduo não percebe o transe em que está, nem as limitações impostas à consciência, nem se recorda de sua identidade anterior. Enquanto hipnotizados, pensamos que somos aquilo que nossa mente contém, o conteúdo mental, os pensamentos que ali estão. Assim, os pensamentos com os quais estamos identificados criam o nosso estado de consciência, de identidade e de realidade. (Por isso, disse o Buda: ‘Somos o que pensamos. Tudo o que somos vem de nossos pensamentos. Com eles vemos e interpretamos o mundo’).
Suzuki: ‘O que é consciente e o que é inconsciente está subordinado à estrutura da sociedade e aos padrões de pensamento e sentimento que ela produz. O efeito da cultura da sociedade não apenas canaliza ilusões para a nossa consciência, mas também evita a percepção da realidade... Esse sistema funciona como um filtro social condicionado; a experiência só chega à nossa percepção se puder passar por esse filtro’ (se estiver de acordo com os costumes e cultura da sociedade em que vivemos).
Pode-se, assim, considerar a tarefa de despertar como uma progressiva desidentificação do conteúdo mental em geral. Isso é bem evidente nas práticas como a meditação de percepção, em que se treina para observar e identificar, com rapidez e precisão, todos os conteúdos mentais. É um lento processo de gradual aperfeiçoamento da percepção que resulta em retirar a consciência dos conteúdos mentais cada vez mais profundos e sutis com que ela se acha identificada. No final, a percepção deixa de identificar-se com qualquer coisa, fato que representa uma mudança radical e duradoura da consciência, conhecida como iluminação. Como já não há identificação com qualquer coisa, temos a percepção como sendo, ao mesmo tempo, nada e tudo. A dualidade eu/não-eu é transcendida, e tem-se uma vivência de si mesmo como sendo, ao mesmo tempo, percepção pura (nenhuma coisa) e como sendo todo o universo (todas as coisas), dando lugar à transcendência do ego e do espaço-tempo.
Nos níveis mais sutis da percepção, atingidos por meditação de percepção, vê-se toda a Mente e, portanto, todo o universo fenomênico, em contínuo movimento e mudança; cada objeto é percebido vindo do vazio para a percepção e desaparecendo em seguida, em instantes, no vazio (Paulo: ‘não somos donos nem de nossos pensamentos’). Isso mostra a impermanência de tudo; tudo se transforma, tudo é transitório, nada é imutável. Perceber isso pode ser a maior força que motiva os meditadores avançados para transcender todos os processos mentais e alcançar o estado imutável e incondicionado que é o nirvana, satori ou iluminação (foi pela percepção da impermanência de todas as coisas que o Buda fundou sua filosofia).
Nesse estado de pura percepção, não há mais identificação com a mudança, pois não há mais identificação com conteúdos mentais. Como o tempo é função da mudança, isso resulta na experiência de se haver transcendido o tempo, fato que é experimentado como eternidade, o agora sem fim, e o tempo é percebido como produto ilusório da identificação.
Silesius: ‘O tempo é nossa criação. Quando se pára o pensamento, também o tempo pára, morto’.
Os conteúdos e processos mentais vêm do condicionamento, como afirmam as psicologias ocidentais e orientais. A identificação com esses conteúdos gera a experiência de um ‘eu’ condicionado. Transcendida essa identificação, cessam os efeitos do condicionamento e com isso, cessa o ‘eu’ (que nada mais é que um feixe de memórias, os conteúdos da consciência com os quais nos identificamos). Pensamentos e emoções ainda passam pela mente, mas não há identificação com eles, e vivencia-se uma percepção de bem-aventurança porque, não havendo identificação com pensamentos e emoções dolorosos, não há mais experiência de sofrimento (pois, a causa do sofrimento é a identificação ou apego aos conteúdos mentais dolorosos).
Sem condicionamentos, fica-se livre das identificações com conteúdos inconscientes distorcedores e restritivos, e a consciência é capaz de uma percepção clara e precisa que, no budismo, se chama ‘espelho de cristal’, porque ele reflete fielmente a realidade. Sem identificação, o espelho e aquilo que ele reflete, o sujeito e o objeto, são percebidos como uma coisa só. A consciência, agora, é percebida como sendo aquilo que antes ela observava (Krishnamurti: o observador é a coisa observada), pois o observador ou ego, produto ilusório da identificação, deixa de ser vivenciado como real. O indivíduo se vê como consciência pura em unidade com tudo, idêntico a qualquer outro indivíduo. Vem daí a afirmação mística de que ‘todos somos um’, e não mais ocorrem pensamentos que possam ferir os ‘outros’. Amor e compaixão são expressões naturais desse estado.
Todos os relatos de experiências nesse estado deixam claro que elas só ocorrem em momentos em que se vai além do ego (o ego cessa com a perseverança nas tentativas de meditação). Como a comunicação entre diferentes estados de consciência é difícil, as descrições em geral são incompreensíveis na visão da psicologia ocidental. Assim, é fácil rejeitar essas experiências sem qualquer análise, considerando-as sem sentido ou patológicas, erro cometido por alguns dos mais notáveis profissionais de saúde mental do Ocidente.
Nesse estado, a pessoa se vê como pura percepção, incondicionada, eterna e, também, experimenta ser tudo o que existe. Nas profundezas da psique humana, cessadas as identificações limitadoras com os conteúdos mentais, a percepção não encontra limites à sua identidade e se percebe como aquilo que está além do espaço e do tempo, aquilo a que a humanidade deu o nome de Deus (‘eu e o Pai somos um’). Por isso, afirmou Bugental: ‘Para mim, Deus é uma palavra usada para indicar nossa subjetividade inefável, o potencial indescritível e inimaginável que está dentro de cada um de nós’.
........
A psicologia transpessoal (além da identidade e personalidade do ego) considera a pessoa por quatro dimensões: consciência, condicionamento, personalidade e identidade.
1) A consciência comum é um estado contraído e defensivo, invadido por um fluxo contínuo de pensamentos e fantasias “incontroláveis” (o filme emotivo-imaginativo, do Zen-Budismo), que estão de acordo com nossas necessidades e defesas para a sobrevivência. Assim, disse Dass: ‘Somos todos prisioneiros de nossa mente. Perceber isso é o primeiro passo para a libertação’. Enquanto o homem não o percebe, nada faz para se libertar.
É essencial para o crescimento da consciência ao extremo bem psicológico, abandonar tal contração defensiva, causada pelo ego, e perceber seu enorme potencial de ampliação, o que pode ser conseguido pela prática da meditação.
Satprem: ‘O que traz a revelação do segredo é o silêncio da mente. Na verdade, todos os tipos de descobertas ocorrem quando a mente pára, e a primeira descoberta é que, se o poder de pensar é um dom grandioso, o poder de não pensar é mais grandioso ainda’. As técnicas de meditação das tradições orientais sérias têm por objetivo exatamente a cessação do pensar, para que, cessando o pensar, a mente se livre de suas impurezas, esvazie-se de seus obstáculos e tenha condições de ver a ’Realidade’.
A afirmação de que nosso estado comum de consciência pode ser ampliado traz implicações inesperadas. Como já vimos, o estado comum de consciência do homem ocidental é idêntico à psicose. Nessa perspectiva, cada estado de consciência revela sua própria gama de realidades, podendo-se definir a psicose como um apego ou aprisionamento a ‘qualquer’ conteúdo da consciência, seja de qual nível for (exceto o nível da Mente pura, Deus, pois nesta, não há mais qualquer mal, obstáculo, doença, ou apego).
A realidade, tal como a conhecemos (sendo essa a única maneira pela qual a conhecemos), é apenas ‘parte’ da realidade. Ram Dass: ‘Crescemos num plano de existência, percepções e interpretações, que julgamos real. Identificamo-nos por inteiro com essa realidade, que consideramos absoluta e verdadeira, e descartamos as experiências incompatíveis com ela. O que Einstein demonstrou na física se aplica a todos os aspectos do universo: a realidade é relativa ao nível de consciência do observador. Cada realidade só é verdadeira dentro de determinados limites de consciência; não passa de uma versão possível do que as coisas são. Há sempre múltiplas versões da realidade. Despertar de uma delas é reconhecer sua relatividade’. (Só no nível da Mente pura a realidade é absoluta).
William James: ‘Nossa consciência desperta e comum é apenas um dos tipos de consciência; ao seu redor, separadas dela pelo mais fino véu, há formas potenciais de consciência que dela diferem inteiramente. Podemos passar pela vida sem suspeitar de sua existência, mas aplique-se a elas o estímulo necessário e, num instante, elas surgem em toda sua inteireza. Não pode ser completo o significado do universo em sua totalidade se não se considerar essas outras formas de consciência.’
Logo, a realidade que percebemos reflete nosso estado de consciência do momento, e jamais podemos explorar a realidade sem explorarmos, ao mesmo tempo, a nós mesmos, tanto por sermos como porque nós criamos a própria realidade que queremos explorar (conforme o misticismo e a física quântica).
2) Quanto ao condicionamento, a psicologia transpessoal afirma que nele estamos totalmente presos, mas que a libertação é possível. Estamos presos principalmente ao apego, o que significa que a não-realização do desejo (ao qual nos apegamos) produzirá sofrimento. Logo, o apego tem papel crucial na causa de toda infelicidade do homem, sendo o abandono do apego fundamental para a cessação do sofrimento (‘...e a verdade vos libertará’).
Dass: ‘Associar-se ao apego traz interminável sofrimento e miséria’.
Jung: ‘Enquanto estivermos apegados, estamos possuídos, e, quando estamos possuídos, existe algo mais forte do que nós, que nos aprisiona’.
O apego não é só a objetos externos ou pessoas. Há apego às posses materiais, a relacionamentos especiais, à condição social, à auto-imagem particular, a padrão de comportamentos e a processos psicológicos (modo de pensar, crenças, suposta realidade etc); entre os apegos mais fortes estão o apego ao sofrimento e à falta de valor próprio.
Enquanto acreditarmos que nossa identidade nasce de nossos papéis, problemas, relacionamentos ou conteúdos da nossa consciência, o apego será reforçado para fins de sobrevivência pessoal, porque acreditamos que dependemos deles: ‘Se abandono meus apegos, quem serei e o que serei?’
Há também apego ao drama ou história pessoal que cada um tem para contar aos outros sobre si mesmo; é um luxo desnecessário, parte de nossa bagagem emocional. É benéfico para todos desapegar-se de seu drama e dos dramas pessoais dos outros (das emoções, portanto).
3) Quanto à identificação, define-se como o processo pelo qual alguma coisa é vivenciada como o ‘eu’. E é tamanha nossa identificação que jamais questionamos aquilo que tão claramente parecemos ser. Toda tentativa de questionar nossa identificação pode encontrar considerável resistência de nós mesmos e daqueles que nos rodeiam.
Laing: ‘As nossas tentativas de despertar costumam ser punidas, especialmente pelos que mais nos amam, porque eles, abençoados sejam, estão ‘dormindo’ e pensam que quem desperta, ou percebe que o que considera realidade não passa de um sonho (ilusão), está ficando louco’ (‘A sabedoria de Deus é loucura para os homens’, disse Paulo).
A nossa identificação com nosso conteúdo mental torna-nos inconscientes do nível de consciência mais amplo que contém esse conteúdo; o conteúdo da mente passa a ser o crivo pelo qual interpretamos todos demais contextos. Por exemplo, se o pensamento ‘estou com medo’ surgir e for tomado pelo que é, ou seja, apenas um pensamento, pouca influência terá. Mas, se nos identificarmos com ele (se ele passar a ser nosso conteúdo mental), a realidade, nesse momento, será o nosso medo (Krishnamurti: somos o medo, a violência, a raiva, a inveja etc) e nós, muito provavelmente, geraremos uma série de pensamentos e emoções de medo, e nos identificaremos com eles; interpretaremos os mais indefinidos pensamentos como medo; perceberemos o mundo como algo ameaçador e agiremos de acordo.
A identificação põe em movimento um processo auto-realizador no qual os processos psicológicos tornam válida a realidade daquilo com que nos identificamos. Tudo parecerá provar a realidade do nosso medo. Ao se identificar, a pessoa não percebe o fato de que sua percepção vem do pensamento ‘estou com medo’. Não percebemos esse pensamento, mas passamos a interpretar todas as coisas a partir dele. A consciência passa a ver o mundo de uma forma limitada e auto-validadora. ‘Enquanto estivermos identificados com um pensamento ou objeto, somos seus escravos, não somos livres’. (Por isso, Jesus disse: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’).
Quando nos lembramos de que nossa mente está sempre repleta de pensamentos com os quais, sem perceber, nos identificamos, fica evidente que, no estado comum de consciência, estamos, literalmente, hipnotizados. Como na hipnose, o indivíduo não percebe o transe em que está, nem as limitações impostas à consciência, nem se recorda de sua identidade anterior. Enquanto hipnotizados, pensamos que somos aquilo que nossa mente contém, o conteúdo mental, os pensamentos que ali estão. Assim, os pensamentos com os quais estamos identificados criam o nosso estado de consciência, de identidade e de realidade. (Por isso, disse o Buda: ‘Somos o que pensamos. Tudo o que somos vem de nossos pensamentos. Com eles vemos e interpretamos o mundo’).
Suzuki: ‘O que é consciente e o que é inconsciente está subordinado à estrutura da sociedade e aos padrões de pensamento e sentimento que ela produz. O efeito da cultura da sociedade não apenas canaliza ilusões para a nossa consciência, mas também evita a percepção da realidade... Esse sistema funciona como um filtro social condicionado; a experiência só chega à nossa percepção se puder passar por esse filtro’ (se estiver de acordo com os costumes e cultura da sociedade em que vivemos).
Pode-se, assim, considerar a tarefa de despertar como uma progressiva desidentificação do conteúdo mental em geral. Isso é bem evidente nas práticas como a meditação de percepção, em que se treina para observar e identificar, com rapidez e precisão, todos os conteúdos mentais. É um lento processo de gradual aperfeiçoamento da percepção que resulta em retirar a consciência dos conteúdos mentais cada vez mais profundos e sutis com que ela se acha identificada. No final, a percepção deixa de identificar-se com qualquer coisa, fato que representa uma mudança radical e duradoura da consciência, conhecida como iluminação. Como já não há identificação com qualquer coisa, temos a percepção como sendo, ao mesmo tempo, nada e tudo. A dualidade eu/não-eu é transcendida, e tem-se uma vivência de si mesmo como sendo, ao mesmo tempo, percepção pura (nenhuma coisa) e como sendo todo o universo (todas as coisas), dando lugar à transcendência do ego e do espaço-tempo.
Nos níveis mais sutis da percepção, atingidos por meditação de percepção, vê-se toda a Mente e, portanto, todo o universo fenomênico, em contínuo movimento e mudança; cada objeto é percebido vindo do vazio para a percepção e desaparecendo em seguida, em instantes, no vazio (Paulo: ‘não somos donos nem de nossos pensamentos’). Isso mostra a impermanência de tudo; tudo se transforma, tudo é transitório, nada é imutável. Perceber isso pode ser a maior força que motiva os meditadores avançados para transcender todos os processos mentais e alcançar o estado imutável e incondicionado que é o nirvana, satori ou iluminação (foi pela percepção da impermanência de todas as coisas que o Buda fundou sua filosofia).
Nesse estado de pura percepção, não há mais identificação com a mudança, pois não há mais identificação com conteúdos mentais. Como o tempo é função da mudança, isso resulta na experiência de se haver transcendido o tempo, fato que é experimentado como eternidade, o agora sem fim, e o tempo é percebido como produto ilusório da identificação.
Silesius: ‘O tempo é nossa criação. Quando se pára o pensamento, também o tempo pára, morto’.
Os conteúdos e processos mentais vêm do condicionamento, como afirmam as psicologias ocidentais e orientais. A identificação com esses conteúdos gera a experiência de um ‘eu’ condicionado. Transcendida essa identificação, cessam os efeitos do condicionamento e com isso, cessa o ‘eu’ (que nada mais é que um feixe de memórias, os conteúdos da consciência com os quais nos identificamos). Pensamentos e emoções ainda passam pela mente, mas não há identificação com eles, e vivencia-se uma percepção de bem-aventurança porque, não havendo identificação com pensamentos e emoções dolorosos, não há mais experiência de sofrimento (pois, a causa do sofrimento é a identificação ou apego aos conteúdos mentais dolorosos).
Sem condicionamentos, fica-se livre das identificações com conteúdos inconscientes distorcedores e restritivos, e a consciência é capaz de uma percepção clara e precisa que, no budismo, se chama ‘espelho de cristal’, porque ele reflete fielmente a realidade. Sem identificação, o espelho e aquilo que ele reflete, o sujeito e o objeto, são percebidos como uma coisa só. A consciência, agora, é percebida como sendo aquilo que antes ela observava (Krishnamurti: o observador é a coisa observada), pois o observador ou ego, produto ilusório da identificação, deixa de ser vivenciado como real. O indivíduo se vê como consciência pura em unidade com tudo, idêntico a qualquer outro indivíduo. Vem daí a afirmação mística de que ‘todos somos um’, e não mais ocorrem pensamentos que possam ferir os ‘outros’. Amor e compaixão são expressões naturais desse estado.
Todos os relatos de experiências nesse estado deixam claro que elas só ocorrem em momentos em que se vai além do ego (o ego cessa com a perseverança nas tentativas de meditação). Como a comunicação entre diferentes estados de consciência é difícil, as descrições em geral são incompreensíveis na visão da psicologia ocidental. Assim, é fácil rejeitar essas experiências sem qualquer análise, considerando-as sem sentido ou patológicas, erro cometido por alguns dos mais notáveis profissionais de saúde mental do Ocidente.
Nesse estado, a pessoa se vê como pura percepção, incondicionada, eterna e, também, experimenta ser tudo o que existe. Nas profundezas da psique humana, cessadas as identificações limitadoras com os conteúdos mentais, a percepção não encontra limites à sua identidade e se percebe como aquilo que está além do espaço e do tempo, aquilo a que a humanidade deu o nome de Deus (‘eu e o Pai somos um’). Por isso, afirmou Bugental: ‘Para mim, Deus é uma palavra usada para indicar nossa subjetividade inefável, o potencial indescritível e inimaginável que está dentro de cada um de nós’.
Libertação do abraço asfixiante do Ego
Aldous Huxley, suas percepções e testemunho, durante e logo após a experiência mística de se desvencilhar, momentaneamente, do ego:
‘... palavras como Graça e Transfiguração me vieram à mente. A Beatífica Visão, Sat-Chit-Ananda (Existência, Consciência, Beatitude) pela primeira vez entendi, não vagamente ou por insinuações, mas precisa e completamente, o que querem significar essas palavras prodigiosas. Lembrei-me, então, de uma passagem que lera de Suzuki: ‘O que é o Dharma-Corpóreo do Buda?’ (o Dharma-Corpóreo do Buda é outro modo de nos referirmos à Mente, ao Vazio, à Divindade, a Deus). A pergunta foi feita, em um mosteiro Zen, por um indeciso noviço. E, com a vivaz insensatez de um dos Irmãos Marx, respondeu o superior: ‘A sebe no fundo do jardim’. ‘Eu poderia perguntar’, retrucou timidamente o noviço, ‘quem foi que concebeu essa verdade?’ Ao que o superior, dando-lhe uma pancada nas costas com seu bastão, respondeu: ‘Um leão de cabelos de ouro!’
“Quando li esse diálogo, achei-o um amontoado de pura insensatez, de total loucura. Agora, porém, tudo está tão claro como o dia, tão evidente quanto o postulado de Euclides. Não há a menor dúvida de que o Dharma-Corpóreo do Buda seja a sebe do fim do jardim. Ao mesmo tempo, e com igual certeza, ele é estas flores; ele é qualquer coisa que desperte a atenção de meu ego, ou melhor, de minha bem-aventurada despersonalização (além do ego), liberta, por um momento, de meu abraço asfixiante (do abraço asfixiante de meu ego). Assim também os livros, as estantes, os móveis de meu escritório...” (e tudo o mais, são o Vazio, a Divindade, Deus).
Aldous Huxley, suas percepções e testemunho, durante e logo após a experiência mística de se desvencilhar, momentaneamente, do ego:
‘... palavras como Graça e Transfiguração me vieram à mente. A Beatífica Visão, Sat-Chit-Ananda (Existência, Consciência, Beatitude) pela primeira vez entendi, não vagamente ou por insinuações, mas precisa e completamente, o que querem significar essas palavras prodigiosas. Lembrei-me, então, de uma passagem que lera de Suzuki: ‘O que é o Dharma-Corpóreo do Buda?’ (o Dharma-Corpóreo do Buda é outro modo de nos referirmos à Mente, ao Vazio, à Divindade, a Deus). A pergunta foi feita, em um mosteiro Zen, por um indeciso noviço. E, com a vivaz insensatez de um dos Irmãos Marx, respondeu o superior: ‘A sebe no fundo do jardim’. ‘Eu poderia perguntar’, retrucou timidamente o noviço, ‘quem foi que concebeu essa verdade?’ Ao que o superior, dando-lhe uma pancada nas costas com seu bastão, respondeu: ‘Um leão de cabelos de ouro!’
“Quando li esse diálogo, achei-o um amontoado de pura insensatez, de total loucura. Agora, porém, tudo está tão claro como o dia, tão evidente quanto o postulado de Euclides. Não há a menor dúvida de que o Dharma-Corpóreo do Buda seja a sebe do fim do jardim. Ao mesmo tempo, e com igual certeza, ele é estas flores; ele é qualquer coisa que desperte a atenção de meu ego, ou melhor, de minha bem-aventurada despersonalização (além do ego), liberta, por um momento, de meu abraço asfixiante (do abraço asfixiante de meu ego). Assim também os livros, as estantes, os móveis de meu escritório...” (e tudo o mais, são o Vazio, a Divindade, Deus).
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A SUBLIME CANÇÃO DA IMORTALIDADE..
Olá, amigos.
O Maabárata é um dos dois maiores épicos clássicos da Índia. O texto é monumental, com mais de 74.000 versos em sânscrito, e mais de 1,8 milhões de palavras; se o Harivamsa, seu anexo, for incluído como sendo parte da obra, chega-se a um total de 90.000 versos, compondo o maior volume de texto numa única obra humana. É o texto sagrado de maior importância no hinduísmo, e considerado um verdadeiro manual de psicologia da evolução do ser humano.
A obra discute as três metas da vida humana: o desfrute dos prazeres dos sentidos, oferecidos pelos atrativos do mundo: a ânsia que leva à busca da riqueza e do poder econômico para o desfrute dos prazeres, e a religiosidade mundana, que se resume em códigos de conduta moral e rituais.
Além dessas metas mundanas, o Maabárata trata da liberação do ciclo das três metas, isto é, a libertação dos apegos, pela libertação do samsara, ou ciclo ilusório do nascimento e da morte. Em outras palavras, é uma obra que visa o conhecimento da natureza do "eu" e a sua relação eterna com toda a criação e aquilo que transcende a ela, Brama ou Deus.
Estabelece métodos de desenvolvimento espiritual conhecidos como Karma Yoga, Jnana Yoga e Bhakti Yoga.
Karma é a palavra para "ato" ou "ação" e, nesse sentido, usada para mostrar a obrigatoriedade moral de continuar a fazer aquilo que começamos e que, por isso, depende de nós; portanto, ensina a importância de desenvolver atitudes e intenções corretas. Considera-se que, por gerar carma, os seres encontram-se presos ao samsara, a “roda dos tolos e ignorantes”, o ciclo das ilusões, ciclo do nascer e morer e, portanto, o objetivo mais importante da prática “religiosa” é eliminar o carma.
Jñana, uma modalidade de ioga conhecida também pela busca e uso do conhecimento de uma verdade pré-existente e imutável (a Verdade), para atingir a sabedoria. A jnana-ioga não é de fácil prática, pois a pessoa necessita de uma determinação e penetração além da filosofia e das religiões
E Bhakti, um dos ramos da ioga que conduz à comunhão divina, à união com Deus, através da devoção, que significa entrega total em total confiança.
Do Maabarata, extraiu-se o Bagavad Gita, a Sublime Canção da Imortalidade, cujo texto representa a luta do bem contra o mal.
No texto simplificado, ilustrado por vários quadros, é necessário que, observando-o com atenção, se perceba um detalhe muito importante.
A seguir mensagem a uma amiga sobre essa particularidade.
Amiga, percebeu o detalhe?
Arjuna, o representante dos homens, totalmente perplexo, pelo terrível dilema que enfrenta: dois exércitos se defrontam na planície, um o do “bem”, outro o do “mal”; essa é a batalha do bem contra o mal que se trava em nossa mente. Arjuna, a quem compete dar o sinal para o combate, está num dilema por ver que os guerreiros que levará a se defrontarem são “todos” seus parentes e amigos; está completamente indeciso em como lançar o exército do bem contra aqueles que foram sempre seus aliados, pois que o auxiliaram, em todos os tempos da história do homem, na conquista do que ele mesmo é agora: aqueles que têm o nome de ciúme, inveja, ambição, cobiça, tenacidade perversa, exploração dos semelhantes, enfim tudo que está no caminho já trilhado pelo ser humano para chegar ao momento atual, coisas das quais Arjuna deseja se desvencilhar.
Nesse dilema, invoca Krishna, o representante de Deus, e se ajoelha à sua frente, pedindo que o ajude a se decidir.
E veja o quadro seguinte: Arjuna parte para a batalha, mas quem é que tem as rédeas nas mãos e comanda seu carro e todos os acontecimentos? É Krishna, o representante de Deus; é o próprio Deus, que tudo comanda, e sem cuja ordem nada se faz. Não somos nós que erramos, que acertamos, que escolhemos, que decidimos, que fazemos isto e aquilo: é Deus, essa poderosa força que vem atrás de nós e nos leva a sermos o que somos a cada momento, a cada instante.
Um abraço.
O Maabárata é um dos dois maiores épicos clássicos da Índia. O texto é monumental, com mais de 74.000 versos em sânscrito, e mais de 1,8 milhões de palavras; se o Harivamsa, seu anexo, for incluído como sendo parte da obra, chega-se a um total de 90.000 versos, compondo o maior volume de texto numa única obra humana. É o texto sagrado de maior importância no hinduísmo, e considerado um verdadeiro manual de psicologia da evolução do ser humano.
A obra discute as três metas da vida humana: o desfrute dos prazeres dos sentidos, oferecidos pelos atrativos do mundo: a ânsia que leva à busca da riqueza e do poder econômico para o desfrute dos prazeres, e a religiosidade mundana, que se resume em códigos de conduta moral e rituais.
Além dessas metas mundanas, o Maabárata trata da liberação do ciclo das três metas, isto é, a libertação dos apegos, pela libertação do samsara, ou ciclo ilusório do nascimento e da morte. Em outras palavras, é uma obra que visa o conhecimento da natureza do "eu" e a sua relação eterna com toda a criação e aquilo que transcende a ela, Brama ou Deus.
Estabelece métodos de desenvolvimento espiritual conhecidos como Karma Yoga, Jnana Yoga e Bhakti Yoga.
Karma é a palavra para "ato" ou "ação" e, nesse sentido, usada para mostrar a obrigatoriedade moral de continuar a fazer aquilo que começamos e que, por isso, depende de nós; portanto, ensina a importância de desenvolver atitudes e intenções corretas. Considera-se que, por gerar carma, os seres encontram-se presos ao samsara, a “roda dos tolos e ignorantes”, o ciclo das ilusões, ciclo do nascer e morer e, portanto, o objetivo mais importante da prática “religiosa” é eliminar o carma.
Jñana, uma modalidade de ioga conhecida também pela busca e uso do conhecimento de uma verdade pré-existente e imutável (a Verdade), para atingir a sabedoria. A jnana-ioga não é de fácil prática, pois a pessoa necessita de uma determinação e penetração além da filosofia e das religiões
E Bhakti, um dos ramos da ioga que conduz à comunhão divina, à união com Deus, através da devoção, que significa entrega total em total confiança.
Do Maabarata, extraiu-se o Bagavad Gita, a Sublime Canção da Imortalidade, cujo texto representa a luta do bem contra o mal.
No texto simplificado, ilustrado por vários quadros, é necessário que, observando-o com atenção, se perceba um detalhe muito importante.
A seguir mensagem a uma amiga sobre essa particularidade.
Amiga, percebeu o detalhe?
Arjuna, o representante dos homens, totalmente perplexo, pelo terrível dilema que enfrenta: dois exércitos se defrontam na planície, um o do “bem”, outro o do “mal”; essa é a batalha do bem contra o mal que se trava em nossa mente. Arjuna, a quem compete dar o sinal para o combate, está num dilema por ver que os guerreiros que levará a se defrontarem são “todos” seus parentes e amigos; está completamente indeciso em como lançar o exército do bem contra aqueles que foram sempre seus aliados, pois que o auxiliaram, em todos os tempos da história do homem, na conquista do que ele mesmo é agora: aqueles que têm o nome de ciúme, inveja, ambição, cobiça, tenacidade perversa, exploração dos semelhantes, enfim tudo que está no caminho já trilhado pelo ser humano para chegar ao momento atual, coisas das quais Arjuna deseja se desvencilhar.
Nesse dilema, invoca Krishna, o representante de Deus, e se ajoelha à sua frente, pedindo que o ajude a se decidir.
E veja o quadro seguinte: Arjuna parte para a batalha, mas quem é que tem as rédeas nas mãos e comanda seu carro e todos os acontecimentos? É Krishna, o representante de Deus; é o próprio Deus, que tudo comanda, e sem cuja ordem nada se faz. Não somos nós que erramos, que acertamos, que escolhemos, que decidimos, que fazemos isto e aquilo: é Deus, essa poderosa força que vem atrás de nós e nos leva a sermos o que somos a cada momento, a cada instante.
Um abraço.
RESPOSTA PARA O DESAMOR.
Conversa com uma amiga
Cito a nova companheira de jornada:
“Não sei se a melhor resposta para o amor ou desamor circunda única e exclusivamente no "o que se planta é o que se colhe". A questão é muito complexa, como mesmo passou a questioná-la”.
Resposta: observe que de modo algum essa é a melhor resposta; nem mesmo é uma boa resposta. Essa é a resposta com que a professora ou a mãe ameaça o menino desobediente: “Se você não fizer o que estou mandando, vai ficar de castigo!”; isto é, “se você não amar o próximo, vai sofrer as conseqüências”. E, por medo do castigo, o menino faz o que lhe é pedido. Isso não se aplica ao verdadeiro amor e a nenhuma virtude: amor por obrigação, por ordem, mandamento, imposição, não é amor; é uma coisa forçada, falsa, ou pelo interesse de conseguir mérito ou gratidão ou reconhecimento, ou seguir o exemplo dos mestres ou da ética religiosa; o amor tem de ser espontâneo, senão não é amor.
A resposta para o amor pode estar, “em parte”, na observação da vida; observação que traz a compreensão de que o mundo é mais sofrimento do que felicidade, e pode até despertar o desejo de encontrar a solução para esse desamor.
Cito a amiga:
“É fácil simplesmente postar um texto bonito sem se centrar no que diz , sem absorver os ensinamentos... mas isso só vem com a sabedoria e a experiencia da vida.. com o nosso auto-controle e nosso conhecimento interior, na busca incessante de querer melhorar, na leitura de livros positivos e na prática do dia a dia.
Sócrates: "Homem, conhece a ti mesmo".
Resp: esta última frase sua foi muito bem lembrada. Essa é a solução para todos os males do mundo. Mas, lhe pergunto, como conhecer-se a si mesmo? Não é simplesmente conhecer como erramos, como ainda temos desamor. O mal desaparece com eu me conhecer mau? Temos de nos conhecer muito mais “profundamente”; só então vamos perceber quem e o que realmente somos e, com essa percepção, nos vem o conhecimento da verdade que liberta, como afirmou Jesus; então, o que é mal, torna-se bem; o que é desamor, torna-se amor.
Fique em Deus.
Cito a nova companheira de jornada:
“Não sei se a melhor resposta para o amor ou desamor circunda única e exclusivamente no "o que se planta é o que se colhe". A questão é muito complexa, como mesmo passou a questioná-la”.
Resposta: observe que de modo algum essa é a melhor resposta; nem mesmo é uma boa resposta. Essa é a resposta com que a professora ou a mãe ameaça o menino desobediente: “Se você não fizer o que estou mandando, vai ficar de castigo!”; isto é, “se você não amar o próximo, vai sofrer as conseqüências”. E, por medo do castigo, o menino faz o que lhe é pedido. Isso não se aplica ao verdadeiro amor e a nenhuma virtude: amor por obrigação, por ordem, mandamento, imposição, não é amor; é uma coisa forçada, falsa, ou pelo interesse de conseguir mérito ou gratidão ou reconhecimento, ou seguir o exemplo dos mestres ou da ética religiosa; o amor tem de ser espontâneo, senão não é amor.
A resposta para o amor pode estar, “em parte”, na observação da vida; observação que traz a compreensão de que o mundo é mais sofrimento do que felicidade, e pode até despertar o desejo de encontrar a solução para esse desamor.
Cito a amiga:
“É fácil simplesmente postar um texto bonito sem se centrar no que diz , sem absorver os ensinamentos... mas isso só vem com a sabedoria e a experiencia da vida.. com o nosso auto-controle e nosso conhecimento interior, na busca incessante de querer melhorar, na leitura de livros positivos e na prática do dia a dia.
Sócrates: "Homem, conhece a ti mesmo".
Resp: esta última frase sua foi muito bem lembrada. Essa é a solução para todos os males do mundo. Mas, lhe pergunto, como conhecer-se a si mesmo? Não é simplesmente conhecer como erramos, como ainda temos desamor. O mal desaparece com eu me conhecer mau? Temos de nos conhecer muito mais “profundamente”; só então vamos perceber quem e o que realmente somos e, com essa percepção, nos vem o conhecimento da verdade que liberta, como afirmou Jesus; então, o que é mal, torna-se bem; o que é desamor, torna-se amor.
Fique em Deus.
ESQUEÇA-SE ATÉ DE DEUS.
Olá, amigo.
Qualquer coisa, método, processo que traga relaxamento total fisiológico e psicológico, pode levar à meditação. As diferentes culturas, na busca desse relaxamento, criaram centenas de técnicas, mas a finalidade é uma só: relaxamento integral. Se, na sua tentativa de meditar, vc tem em mente o desejo de se elevar a Deus, sua área psicológica não está relaxada; esqueça-se de tudo e nesse tudo está incluído Deus; a mente deve estar vazia de desejos, bons ou maus, de objetivos ou finalidades, lembranças ou expectativas; deve estar vazia. Se não está vazia, é ainda o ego que está operando, e o objetivo final da tentativa de meditação é esquecer o ego, aquietar o ego. Lembra-se: “Aquieta-te e sabe: eu sou Deus”? A meditação só vem num vazio total; não estando vazio, não há “lugar” para Deus. É como vc disse do Tao: hoje temos de buscar esse vazio apesar dos ruídos do mundo. Se pudermos nos isolar de tudo, melhor.
Vc pergunta sobre a yoga; se ela lhe trouxer esse vazio é igual a tudo o mais que lhe traga um vazio. A yoga, como alguns a tornaram hoje, não leva a esse relaxamento: é uma verdadeira religião, com rituais, cânticos e tantas teorias e doutrinas, que mais distraem e reforçam o ego.
Até mais.
Qualquer coisa, método, processo que traga relaxamento total fisiológico e psicológico, pode levar à meditação. As diferentes culturas, na busca desse relaxamento, criaram centenas de técnicas, mas a finalidade é uma só: relaxamento integral. Se, na sua tentativa de meditar, vc tem em mente o desejo de se elevar a Deus, sua área psicológica não está relaxada; esqueça-se de tudo e nesse tudo está incluído Deus; a mente deve estar vazia de desejos, bons ou maus, de objetivos ou finalidades, lembranças ou expectativas; deve estar vazia. Se não está vazia, é ainda o ego que está operando, e o objetivo final da tentativa de meditação é esquecer o ego, aquietar o ego. Lembra-se: “Aquieta-te e sabe: eu sou Deus”? A meditação só vem num vazio total; não estando vazio, não há “lugar” para Deus. É como vc disse do Tao: hoje temos de buscar esse vazio apesar dos ruídos do mundo. Se pudermos nos isolar de tudo, melhor.
Vc pergunta sobre a yoga; se ela lhe trouxer esse vazio é igual a tudo o mais que lhe traga um vazio. A yoga, como alguns a tornaram hoje, não leva a esse relaxamento: é uma verdadeira religião, com rituais, cânticos e tantas teorias e doutrinas, que mais distraem e reforçam o ego.
Até mais.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
NÃO OLHE PARA FORA; OLHE PARA DENTRO...
De Osho: (Isto é meditação)
"No judaísmo há uma escola de mistério rebelde chamada hassidismo (a fase esotérica do judaísmo). Seu fundador, Baal Shem, foi um ser raro. No meio da noite ele estava voltando do rio – essa era sua rotina, porque no rio, à noite, tudo era absolutamente calmo e tranqüilo. E ele costumava simplesmente sentar-se lá, fazendo nada – apenas observando seu próprio eu, observando o observador. Nessa noite, quando estava voltando, ele passou pela casa de um homem rico e o vigia estava lá em pé perto da porta.
E o vigia estava intrigado, porque toda noite, exatamente àquela hora, esse homem estava voltando. Ele saiu e disse: “Desculpe-me interrompê-lo, mas não consigo mais conter minha curiosidade. Qual é a sua ocupação? Por que você vai ao rio? Muitas vezes eu o segui e não há nada – você simplesmente senta-se lá, por horas, e no meio da noite você volta.”
Baal Shem disse: “Eu sei que você me seguiu muitas vezes, porque a noite é tão silenciosa, que eu posso ouvir seus passos. E eu sei que todo dia você está escondido atrás do portão. Mas não é apenas você que está curioso a meu respeito; eu também estou curioso a respeito de você. Qual é sua ocupação?”
Ele disse: “Minha ocupação? Eu sou um simples vigia.”
Baal Shem disse: “Meu Deus, você me deu a palavra-chave. Esta é a minha ocupação também!”.
O vigia disse: “Mas eu não compreendo. Se você é um vigia, você deveria estar vigiando alguma casa, algum palácio. O que você está vigiando lá, sentado na areia?”.
Baal Shem disse: “Há uma pequena diferença – você está alerta em relação a alguém do lado de fora que poderia entrar no palácio; eu estou alerta a alguém do lado de dentro; eu simplesmente observo esse observador. Que é este observador? Este é o espaço de toda a minha vida; eu observo a mim mesmo.”.
O vigia disse: “Mas essa é uma ocupação estranha. Quem é que vai lhe pagar?”.
Ele disse: “É uma benção tão grande, uma tal alegria, uma bem-aventurança tão imensa, que isso se paga a si mesmo em profundidade. Apenas um único momento, e todos os tesouros não são nada em comparação a ele”.
O vigia disse: “Isso é estranho. Eu tenho estado observando durante toda a minha vida. Eu nunca me deparei com uma experiência tão bonita. Amanhã à noite eu irei com você. Você apenas me ensina. Porque eu sei como observar – parece que apenas é necessário uma direção diferente: eu observo para fora; você observa para dentro; está observando numa direção diferente.”
Há apenas um passo, e este passo é de direção, de dimensão. Ou podemos estar focados no exterior, ou podemos fechar os olhos para o exterior e deixar toda a nossa consciência ficar centrada para dentro – e você saberá, porque você é um conhecedor, você é consciência. Você nunca a perdeu. Você simplesmente deixou sua consciência se emaranhar em mil e uma coisas. Retire sua consciência de todos os lugares e apenas deixe-a descansar dentro de você, e você chegou em casa.
A gralha cantando... você está ouvindo. São dois elementos: objeto e sujeito. Mas você não pode ver uma testemunha que está vendo ambos? A gralha, o ouvinte e ainda há alguém observando ambos. É um fenômeno tão simples!
Você está vendo uma árvore: você está aí, a árvore está aí, mas será que você não pode encontrar alguma coisa mais? – que você está vendo a árvore e que há uma testemunha em você que está vendo você vendo a árvore.
A coisa mais importante é que você seja observador, que você não tenha se esquecido de observar que você está observando... observando... observando. E pouco a pouco, à medida que o observador se torna mais sólido, estável, seguro, uma transformação acontece. As coisas que você esteve observando desaparecem. Pela primeira vez o vigia se torna o vigiado, o próprio observador se torna o observado. Você chegou em casa.”
(Tags : astrocarmica OSHO).
"No judaísmo há uma escola de mistério rebelde chamada hassidismo (a fase esotérica do judaísmo). Seu fundador, Baal Shem, foi um ser raro. No meio da noite ele estava voltando do rio – essa era sua rotina, porque no rio, à noite, tudo era absolutamente calmo e tranqüilo. E ele costumava simplesmente sentar-se lá, fazendo nada – apenas observando seu próprio eu, observando o observador. Nessa noite, quando estava voltando, ele passou pela casa de um homem rico e o vigia estava lá em pé perto da porta.
E o vigia estava intrigado, porque toda noite, exatamente àquela hora, esse homem estava voltando. Ele saiu e disse: “Desculpe-me interrompê-lo, mas não consigo mais conter minha curiosidade. Qual é a sua ocupação? Por que você vai ao rio? Muitas vezes eu o segui e não há nada – você simplesmente senta-se lá, por horas, e no meio da noite você volta.”
Baal Shem disse: “Eu sei que você me seguiu muitas vezes, porque a noite é tão silenciosa, que eu posso ouvir seus passos. E eu sei que todo dia você está escondido atrás do portão. Mas não é apenas você que está curioso a meu respeito; eu também estou curioso a respeito de você. Qual é sua ocupação?”
Ele disse: “Minha ocupação? Eu sou um simples vigia.”
Baal Shem disse: “Meu Deus, você me deu a palavra-chave. Esta é a minha ocupação também!”.
O vigia disse: “Mas eu não compreendo. Se você é um vigia, você deveria estar vigiando alguma casa, algum palácio. O que você está vigiando lá, sentado na areia?”.
Baal Shem disse: “Há uma pequena diferença – você está alerta em relação a alguém do lado de fora que poderia entrar no palácio; eu estou alerta a alguém do lado de dentro; eu simplesmente observo esse observador. Que é este observador? Este é o espaço de toda a minha vida; eu observo a mim mesmo.”.
O vigia disse: “Mas essa é uma ocupação estranha. Quem é que vai lhe pagar?”.
Ele disse: “É uma benção tão grande, uma tal alegria, uma bem-aventurança tão imensa, que isso se paga a si mesmo em profundidade. Apenas um único momento, e todos os tesouros não são nada em comparação a ele”.
O vigia disse: “Isso é estranho. Eu tenho estado observando durante toda a minha vida. Eu nunca me deparei com uma experiência tão bonita. Amanhã à noite eu irei com você. Você apenas me ensina. Porque eu sei como observar – parece que apenas é necessário uma direção diferente: eu observo para fora; você observa para dentro; está observando numa direção diferente.”
Há apenas um passo, e este passo é de direção, de dimensão. Ou podemos estar focados no exterior, ou podemos fechar os olhos para o exterior e deixar toda a nossa consciência ficar centrada para dentro – e você saberá, porque você é um conhecedor, você é consciência. Você nunca a perdeu. Você simplesmente deixou sua consciência se emaranhar em mil e uma coisas. Retire sua consciência de todos os lugares e apenas deixe-a descansar dentro de você, e você chegou em casa.
A gralha cantando... você está ouvindo. São dois elementos: objeto e sujeito. Mas você não pode ver uma testemunha que está vendo ambos? A gralha, o ouvinte e ainda há alguém observando ambos. É um fenômeno tão simples!
Você está vendo uma árvore: você está aí, a árvore está aí, mas será que você não pode encontrar alguma coisa mais? – que você está vendo a árvore e que há uma testemunha em você que está vendo você vendo a árvore.
A coisa mais importante é que você seja observador, que você não tenha se esquecido de observar que você está observando... observando... observando. E pouco a pouco, à medida que o observador se torna mais sólido, estável, seguro, uma transformação acontece. As coisas que você esteve observando desaparecem. Pela primeira vez o vigia se torna o vigiado, o próprio observador se torna o observado. Você chegou em casa.”
(Tags : astrocarmica OSHO).
Assinar:
Postagens (Atom)