quinta-feira, 29 de março de 2012

EU SOU AQUILO

 .(36) “EU SOU AQUILO”  -   (Do livro ‘I AM THAT’, de Shri Nisargadatta Maharaj)
                    
   (Q=pergunta; NM=resposta de Nisargadatta)


“Quando se atinge a iluminação, a visão total atingida é tão clara que o indivíduo não faz mais do que rir e até, em aparência, ser
irreverente, quando vê a fantástica superestrutura de superstições, ilusões e mistérios que está erigida (pelas nossas crenças e religiões, tradições, costumes e cultura, suposições e sociedade) sobre e em torno da simplicidade elementar que é a Verdade".

"Quando você está interessado na verdade, na realidade, você deve questionar todas as coisas, mesmo sua própria vida. Ao crer na necessidade de uma experiência sensorial e intelectual emocionante, você limita sua investigação à busca de satisfação e de conforto.” (E não vai à busca da Verdade).

“Enquanto houver um corpo e uma mente para proteger o corpo,
existirão atrações e repulsões (devidos às limitações da mente individual em face de suas ilusões, suposições, crenças, cultura etc.). Existirão no campo dos fatos, mas não devem trazer preocupação para aquele que está compreendendo. O foco de sua atenção estará em outro lugar (além da mente). Não estará distraído”.

"Este que vê o tudo isto e também vê o nada, é o mestre interior (aquilo a que damos o nome de Deus). Só ele é; todo o restante parece ser. Ele é seu próprio ser, sua esperança e segurança de liberdade: encontre-o e una-se a ele (isto é, perceba-o), e estará a salvo e seguro” (‘... a Verdade vos libertará’).

“A Libertação não é uma aquisição, mas uma questão de coragem; coragem de aceitar que você já é livre e de agir com base nisso”.

Q: Mas pensar, racionalizar não é o estado normal da mente? A mente pode parar de trabalhar, de funcionar?

NM: Pode ser o seu estado habitual, mas isso será sempre o seu estado normal? Um estado normal não é doloroso enquanto que o habitual quase sempre leva à dor e ao sofrimento.
Q: Se esse não é o estado natural ou normal da mente, como cessá-lo? Deve haver uma forma de aquietar a mente. Quantas vezes digo a mim mesmo: ‘por favor, pára, chega deste falatório sem fim, de frases repetidas vezes sem conta!’ Mas a minha mente não pára. Sinto que é possível pará-la um pouco, mas não por muito tempo. Até mesmo os assim chamados "espirituais" usam artimanhas para manter as suas mentes quietas. Eles repetem fórmulas, cantam, rezam, fazem respiração forçada ou suave, giram, concentram-se, meditam, buscam transes, cultivam virtudes - trabalham o tempo todo de forma a pararem de trabalhar, pararem de procurar, pararem de se mover (para que a mente pare de operar). Quando isso não é trágico, é ridículo.

NM: A mente existe em dois estados: enquanto água e enquanto mel. A água vibra ao mínimo distúrbio enquanto que o mel, embora perturbado, retorna rapidamente à imobilidade.

Q: Pela sua natureza a mente é agitada. Talvez ela possa ser aquietada, mas não é quieta por si mesma, não é isso?

N.M.: Quando tens febre, tremes a toda a hora. São os desejos e os medos (a febre) que fazem a mente inquieta (trêmula). Livre de todas essas emoções a mente fica quieta.

Q: Sim, às vezes sinto isso. Mas sempre que a sensação de perigo se instala, eu me sinto isolado, à parte de todas as relações com os outros. Você entende? É aqui que está a diferença entre as nossas mentalidades. Na mentalidade hindu, a emoção segue o pensamento. Dê a um hindu uma idéia e as suas emoções afloram. Com um ocidental é o oposto: dê-lhe uma emoção e ele irá produzir muitas idéias. As suas idéias são muito atrativas intelectualmente, mas emocionalmente não.

NM: Coloca o teu intelecto à parte. Não o uses nestes assuntos.
(isto é, esqueça o ‘eu’).

Q.: De que serve um conselho se não podemos lhe dar continuidade (se não podemos aplicá-lo corretamente)? Tudo isto são idéias e você quer que eu não responda emotivamente às idéias. Sem emoção, como pode haver ação?

NM: Por que falas em ação? Alguma vez ages por conta própria? Algum poder desconhecido age e tu imaginas que és tu que estás a agir. Tu estás meramente a ver o que acontece sem poderes influenciar em nada (és apenas testemunha).

Q: Por que há uma resistência tão grande em mim para a aceitação de que não posso fazer nada, de que não decido nem escolho?

NM: Mas, que podes tu fazer? Tu és como um paciente sob anestesia no qual o cirurgião faz uma cirurgia. Quando acordas vês que a operação terminou; podes dizer que fizeste alguma coisa?

Q: Mas fui eu que escolhi submeter-me à cirurgia.

NM: Claro que não. Foi a tua doença, por um lado, e a pressão do teu médico e da família, por outro, que te fizeram, aparentemente, decidir. Não tens escolha alguma; apenas a ilusão de que escolhes, de que tu decides; não há escolha.

Q: No entanto, não me sinto tão indefeso quanto você faz parecer. Sinto que posso fazer tudo aquilo que penso; só não sei como fazer. Não é o poder que me falta, é o conhecimento.

NM: Não conhecer os meios para fazer é admitido como sendo tão mau quanto não ter o poder! Mas deixemos este assunto por agora; afinal, não é importante o motivo pelo qual nos sentimos indefesos, mas sim que consigamos ver claramente que neste momento somos indefesos.

Eu tenho agora 74 anos e, no entanto, me sinto como se fosse uma criança. Eu sinto claramente que apesar de todas as mudanças eu sou uma criança. O meu Guru disse-me: essa criança, que és tu neste exato momento, é o teu verdadeiro eu. Volta a esse estado de puro ser, onde o "Eu sou" ainda está na sua pureza antes de ter sido contaminado e confundido com "eu sou isto" ou "eu sou aquilo". O teu fardo (os teus problemas) é de falsas identificações - abandona-as todas. O meu Guru disse: "Confia em mim. Eu te digo: tu és divino. Toma isto como verdade absoluta. A tua alegria é divina, o teu sofrimento também é divino. Tudo vem de Deus. Lembra-te sempre: Tu és Deus, e sempre é feita a tua vontade." Eu acreditei nele e rapidamente realizei o quão as suas palavras eram verdadeiras e certas. Não condicionei a minha mente pensando: "Eu sou Deus, eu sou maravilhoso, eu estou além." Simplesmente segui a sua instrução que era focar a mente no puro "Eu sou" e ficar aí. Eu costumava sentar-me durante horas seguidas com nada exceto o "Eu sou" na minha mente e, cedo, a paz e a alegria e um amor profundo e envolvente tornaram-se o meu estado normal. Nisso, tudo desapareceu - eu, o meu Guru, a vida que vivia, o mundo à minha volta. Apenas a paz se manteve envolta por um silêncio incompreensível.

Q: Parece tudo muito simples e fácil, mas não é. Às vezes acontece o maravilhoso estado de alegria e eu olho e penso: quão facilmente vem e quão parece íntimo e totalmente meu. Onde estava a necessidade de lutar tão fortemente por este estado que é tão próximo? Mas cedo esse estado se dissolve e deixa-me a pensar se teria sido realidade ou alguma ilusão. Se era realidade, por que se foi embora? Talvez seja necessária alguma experiência singular para se ficar nesse novo estado para sempre e, até que essa experiência crucial aconteça, este jogo de esconde-esconde vai continuando.

NM: A tua expectativa de algo singular e dramático, de alguma explosão maravilhosa, está apenas a atrasar (é apenas obstáculo) a tua realização. Não é para esperares uma explosão, pois a explosão (esse milagre) já aconteceu - no momento do teu nascimento, quando te realizaste como sendo ser-conhecimento-sensação. Há apenas um erro que estás a fazer: tu tomas o dentro como sendo o fora e o fora como sendo o dentro. O que está em ti, tu tomas como estando fora de ti, e, o que está fora, tu tomas como estando dentro de ti (isto é, a tua interpretação sempre incorreta das coisas do mundo). A mente e os sentimentos são externos, mas tu os tomas como internos, íntimos. Tu acreditas que o mundo é objetivo, mas ele é inteiramente uma projeção da tua psique. Essa é a confusão básica e nenhuma explosão a vai esclarecer. Tens de te pensar fora disso. Não há outra forma.

Q: Como é que eu vou me pensar desse modo se meus pensamentos vêm e vão conforme querem? (os pensamentos vêm e não são nossos, porque a escolha e a decisão também não são nossas). O falatório interminável dos pensamentos (o filme emotivo-imaginativo) me distrai e me deixa exausto, na tentativa de controlá-lo.

NM: Observa os teus pensamentos assim como observas o movimento na rua, como observas as nuvens flutuando no céu. As pessoas vêm e vão; registra isso sem resposta (sem qualquer reação). Pode não ser fácil no início, mas, com alguma prática, irás descobrir que a tua mente pode funcionar em vários níveis ao mesmo tempo e que podes estar ciente de todos eles. Apenas quando tens um forte interesse num nível específico é que a tua atenção é aprisionada nele e os outros níveis te são ocultos. Neste caso, o trabalho nos níveis barrados continua fora do campo consciente. Não lutes com as memórias e pensamentos; tenta apenas incluir no teu nível de atenção outras questões mais importantes como "Quem sou eu? Como é que nasci? De onde vem este Universo à minha volta? O que é real e o que é falso?" Nenhuma memória irá persistir se perderes interesse nela; ela é a ligação emocional que perpetua o laço (com tudo que está a acontecer; não te esqueças que és apenas testemunha; não  adianta tentares interferir).

Estás sempre à procura de prazer, evitando a dor, sempre atrás da felicidade e da paz. Não vês que é essa mesma busca por felicidade que te faz sentir infeliz? Tenta de outro jeito: indiferente à dor e ao prazer, sem perguntar, sem recusar, dá toda a tua atenção ao nível no qual "Eu sou" está eternamente presente. Em breve irás perceber que a paz e a felicidade são a tua própria natureza; é apenas quando as procuras por canais específicos que elas são perturbadas. Evita essa perturbação; isso é tudo. Não há necessidade de procurar; não há necessidade de procurar aquilo que já tens (aquilo que já és). Tu és Deus, a Realidade Suprema. Para começar, confia em mim, em minhas palavras. Isso permite que tu dês o primeiro passo - e então a tua confiança será justificada através da tua experiência. Em cada caminhada na vida, confiança inicial é essencial; sem isso, pouco pode ser feito. Cada passo é um ato de fé.

Até o pão diário tu comes confiando! Lembrando-te do que te disse: tu conseguirás tudo. Digo-te outra vez: Tu és a realidade que em tudo está e que a tudo transcende. Age de acordo com isso: pensa, sente e age em harmonia com o todo e a confirmação da experiência do que eu digo irá florescer em ti brevemente. Nenhum esforço é necessário. Tem fé e age a partir daí. Nada quero de ti. É no teu interesse que te falo porque, acima de tudo, tu te amas a ti mesmo, tu te queres seguro e feliz. Não tenhas vergonha disso; não o negues. É natural e bom que nos amemos a nós mesmos. Apenas deves saber o que realmente amas. Não é o corpo que amas, é a Vida - sentindo, pensando, fazendo, amando, lutando, criando. É a Vida que amas, a vida que és tu mesmo e que é tudo. Perceba isso na sua totalidade, além de todas as divisões e limitações, e todos os teus desejos se dissolverão nisso, pois o maior contém o menor. Por isso, encontra-te; pois te encontrando, encontras tudo.

Todos estão felizes em ser. Mas poucos conhecem a sua totalidade. Tu a conheces quando acolhes na tua mente "Eu sou, Eu sei, Eu amo" com a vontade de atingir o mais profundo significado destas palavras.

Q: Posso pensar que sou Deus?

NM: Não te identifiques com nenhuma idéia ou pensamento. Se por Deus queres dizer o Desconhecido, então diz simplesmente: "Eu não sei o que eu sou". Se conheces Deus como sendo o que és, não precisas dizê-lo. O melhor é o simples "Eu sou". Insiste nele pacientemente. Aqui a paciência é sabedoria; não penses em fracasso. Não pode haver fracasso nesta empreitada.

Q: Mas os meus pensamentos não deixam.

NM: Não lhes prestes atenção. Não lutes contra eles. Apenas não faças nada, deixa-os estar (e se irem), o que quer que sejam. Quando lutas com eles estás a dar-lhes vida. Ignora-os. Olha através deles. Lembra-te de te lembrares: "o que quer que aconteça acontece porque eu sou". Tudo te lembra que és. Para experienciares tu tens de ser. Não precisas parar de pensar. Apenas parar de estar interessado (emocionado, envolvido, como se pudesse fazer alguma coisa a respeito). É o desinteresse que liberta. Não te segures (nada de esforço); isso é tudo. O mundo é feito de anéis, mas os ganchos (que te prendem) são todos teus (feitos por ti). Endireita os teus ganchos e nada irá te deter: deixa de lado os teus vícios (de imaginar, se emocionar, de crer em ilusões). Não há nada mais para deixar de lado. Pára a tua rotina da aquisição, o teu hábito de esperar resultados (isto é ‘deixa a Deus os frutos de tua ação’) e a liberdade do universo será tua. Sê sem esforço.

¨Q: Mas a vida é esforço. Há tantas coisas para fazer.

M: O que precisa ser feito, tu farás mesmo que não queira (pois não decidimos). Não resistas. O teu equilíbrio deve ser dinâmico, baseado em fazer apenas o que tens de fazer momento a momento. Não sejas uma criança que não quer crescer. Gestos estereotipados (copiados, imitados, rituais, cerimoniais etc.) e posturas (corporais ou psicológicas) não irão te ajudar. Confia inteiramente na tua clareza de pensamento, pureza de motivação e integridade de ação. Não poderás fazer mal. Vai além e deixa tudo o mais para trás.

Q: Mas pode alguma coisa ser deixada para trás para sempre?

NM: Tu queres qualquer coisa, como um êxtase eterno. O êxtase vem e vai, necessariamente, pois o cérebro humano não consegue agüentar a tensão por muito tempo. Um êxtase prolongado rebentaria com o teu cérebro a não ser que este seja extremamente puro e sutil. Na natureza nada está parado; tudo pulsa e flui, aparece e desaparece. Coração, respiração, digestão, sono e despertar, nascimento e morte, tudo vem e vai em ondas (num fluir eterno). Ritmo, periodicidade, harmoniosa alternatividade de extremos, essa é a regra. Não adianta revoltar-se contra o padrão da vida. Se procuras o imutável, vai além da experiência. Quando eu digo: lembra-te sempre de "Eu sou”, eu quero dizer: "volta a ‘Eu sou’ repetidamente". Nenhum pensamento é o estado natural da mente; apenas o silêncio é. Não a idéia de silêncio, mas o silêncio, ele mesmo. Quando a mente está no seu estado natural, reverte ao silêncio espontaneamente e, depois, toda ‘experiência’ acontece sobre o fundo do silêncio (pois não há mais o ruído produzido pela interferência do ‘eu’).

Agora, aquilo que aprendeste aqui se torna a semente. Podes esquecê-lo, aparentemente. Mas irá viver e, na estação devida, irá brotar e crescer trazendo flores e frutos. Tudo acontecerá por si mesmo. Não precisas fazer nada, apenas não evitar (não escolher, não ter preferência por) nada.

O mundo existe somente como um sonho em minha Consciência.
O que quer que tenha uma forma se constitui tão somente de
limitações imaginadas em minha consciência. Por si mesmo nada tem existência. Tudo precisa de sua própria ausência. Ser (viver), é ser distinguível (diferente dos demais), estar aqui e não lá, é ser agora e não depois, ser assim e não assado (mas somos o que somos; nada pode mudar isso). Como a água é moldada pelo vaso que a contém, assim também todas as coisas (fatos, pensamentos etc.) são determinadas por suas condições próprias.


O Puro Ser preenche tudo e é além de tudo. Toda limitação é imaginária (ilusão); somente o ilimitado é real. O mundo não é nada mais que um faz de conta, um show cheio de ‘glitter’ (atrativos) e vazio. Ele é e, ao mesmo tempo, não é. Ele está lá pelo tempo que eu queira vê-lo e tomar parte nele. Quando eu deixo de me importar (de me interessar por ele), ele se dissolve. Ele não tem qualquer causa e não serve a qualquer propósito. Ele só acontece quando estamos mentalmente-ausentes (distraídos). Ele se parece exatamente com o que é, mas não há qualquer profundidade nele, qualquer sentido. Somente o sobre-observador (a subjetividade absoluta) é real, chame-o Eu ou Atman. Para o Ser, o mundo não é mais que um show colorido, o qual ele curte “infinitamente” enquanto dure, e o esquece quando ele se vai. O que quer que aconteça no palco faz o ‘eu’ encolher-se aterrorizado ou rolar de rir no chão, e, ainda assim, todo o tempo ele está atento ao espetáculo, esquecido de que tudo é apenas um show. Contudo, o Eu, sem desejo ou medo, o aprecia tal qual ele se apresenta (sem interferir com julgamentos e avaliações, suposições e crenças).

O universo é um palco sobre o qual um drama mundial está sendo representado. A qualidade da performance (do desempenho) é tudo o que importa; não o que o ator diz ou faz, mas como ele o faz e diz. Desportistas parecem fazer um tremendo esforço: ainda assim seus únicos e inconfundíveis motivos (‘leit-motive’) são jogar e mostrar o que sabem fazer.

Tudo acontece como é necessário, e ainda assim nada acontece. Eu faço o que parece ser o necessário, mas ao mesmo tempo eu sei que nada é necessário, que a vida em si mesma é uma fantasia.

Você me vê aparentemente funcionando, agindo. Na realidade, eu somente olho (observo apenas como testemunha, sem nunca poder interferir). O que quer que seja feito (que esteja acontecendo) está apenas acontecendo no show, no palco. Contentamento e tristeza, vida e morte, eles todos são reais para o homem limitado; para o Eu, eles estão todos no show, são o show, tão irreais quanto o show em si mesmo. O Eu percebe o mundo como você o percebe, mas você acredita estar nele (pela interpretação falha das coisas do mundo), enquanto Eu o vejo apenas como uma gota iridescente (brilhante, colorida) na vasta imensidão da consciência.

Tudo o que vive, trabalha para perpetuar e expandir a consciência (mesmo inconscientemente). Este é todo o significado do mundo. É a verdadeira essência do Yoga - sempre elevando o nível de consciência, descobrindo novas dimensões, com suas propriedades, qualidades e poderes. Neste sentido, o universo inteiro se torna uma escola.

De uma barra de ouro, você pode fazer muitos ornamentos, mas, cada um, permanecerá sendo ouro. Do mesmo modo, em qualquer papel que eu possa estar desempenhando e em qualquer função que eu possa estar representando – eu permaneço o que sou: o “Eu sou” imovível, imperturbável, independente, livre. Tudo, o que chamamos de universo, natureza, tudo é minha criatividade espontânea. O que quer que aconteça, acontece. Mas minha natureza é tal que tudo termina em contentamento.

O Mundo que eu percebo é inteiramente privado (particular, intimo), um sonho (apenas meu). O mundo que você percebe é de fato um
mundo pequeno. E ele é inteiramente particular (seu). Tome-o como um sonho e acabe com ele. Não é a idéia de um mundo total uma parte de seu mundo pessoal? O universo não vem para dizer que você é parte dele. É você quem inventou uma totalidade para conter você como uma parte. Na verdade tudo o que você conhece é seu próprio mundo privado, não importa quão belamente você o tenha mobiliado com suas idéias, medos, imaginações, ilusões e expectativas.
Este mundo é pintado por você sobre a tela da consciência e é inteiramente seu próprio mundo privado.  

Saber que o filme (o mundo) é apenas um jogo de luz sobre a tela, traz a libertação da idéia de que o show é real.  

Considere. O mundo no qual você vive, quem mais sabe sobre ele (totalmente) como você? Dentro da prisão de seu mundo aparece um homem que lhe diz que esse mundo de dolorosas contradições,  que você criou, não é nem contínuo nem permanente e está baseado em um mal-entendido (ilusões). Ele insiste com você para que você o abandone. Você entra nesse mundo esquecendo (nem sabendo) o que você é, e você sai dele conhecendo a si mesmo como você é. Não há, nele, qualquer realidade. Ele não perdura (na consciência de quem desperta).  

O mundo não tem qualquer existência separada de você. A cada momento ele não é senão um reflexo de você mesmo. Você o cria; você o destrói. Seu universo pessoal não existe por si mesmo. É apenas uma visão limitada e distorcida do real.

Você não é do mundo; você nem mesmo está no mundo. O mundo não é; você sozinho é. Você cria o mundo em sua imaginação como um sonho. Como você não pode separar o sonho de si mesmo, assim também você não pode ter um mundo exterior independente de si mesmo. Você é que é independente, não o mundo. Não tenha medo de um mundo que você mesmo criou.

Busque e você descobrirá a Pessoa Universal que é você mesmo, e infinitamente mais. De qualquer modo, comece realizando que o mundo está em você, e não você nele. Seu corpo pessoal é uma parte na qual o todo está maravilhosamente refletido.

Mas você tem também um corpo universal. Você nem mesmo pode dizer que não o conhece, porque você o vê e o experiencia todo o tempo. Somente você o chama de “o mundo” e está com medo dele. Ambas, a anatomia e a astronomia, descrevem você.
Você conhece o mundo exatamente como você conhece seu corpo – através dos sentidos. É sua mente que separou o mundo de fora, limitado por sua pele, do mundo de dentro e os colocou em oposição.

O mundo não é mais que o reflexo de minha imaginação. O que quer que eu queira ver, eu posso ver. Mas porque eu deveria inventar padrões de criação, evolução e destruição? Eu não preciso delas. O mundo está em mim, o mundo sou eu mesmo. Eu não tenho medo dele e nem qualquer desejo de trancá-lo em um filme mental.

Imagine-se em uma densa floresta cheia de tigres e você em uma forte cela de aço. Sabendo-se bem protegido pela cela, você assiste aos tigres sem medo. A seguir, você encontra os tigres presos na cela e você perambulando na floresta. Finalmente, a cela desaparece e você monta os tigres!

O que eu pareço ser para você existe apenas em sua mente. Eu sou um sonho que pode acordá-lo. Você terá de provar dele em seu próprio acordar.  

Desista de tudo e você ganhará tudo. Então a vida torna-se aquilo que se supõe que ela seja: pura radiação de uma fonte inexaurível. Nessa luz, o mundo aparece difuso como um sonho (que ele é).  

Desejo e medo vêm da visão do mundo como separado de mim mesmo. Assim como você pensa ser, do mesmo modo você pensa que o mundo seja. Se você se imagina separado do mundo, o mundo aparecerá como separado de você e você experimentará desejo e medo. Eu não vejo o mundo como separado de mim e assim não há nada para eu desejar ou temer.  

Não há caos no mundo, exceto o caos que você cria em sua mente. Ele é autocriado no sentido de que em seu verdadeiro centro há uma idéia de você mesmo como algo diferente e separado das outras coisas. Na realidade você não é nem uma coisa nem separado.

Enquanto eu vir o sonho como real, eu sofrerei sendo escravo dele.
Ambos, sono e vigília, são nomes errôneos. Nós estamos apenas sonhando. Só o ‘gnani’ (o meditador profundo) conhece a vigília verdadeira e o verdadeiro sono. Nós sonhamos que estamos acordados; nós sonhamos que estamos dormindo. Os três estados são somente variedades de estados de sono (os diferentes níveis de consciência). Tratar tudo como um sonho, liberta. Quando você considera seus sonhos (qualquer sonho, seja dormindo ou acordado) como realidade, você se torna escravo deles. Por imaginar que você nasceu, que é isso ou aquilo, você se torna escravo dessa imaginação e desse isso ou aquilo. A essência da escravidão é imaginar a si mesmo como sendo um processo, que tem passado e futuro, que tem história. Na verdade nós não temos história, não somos um processo, não desenvolvemos, não decaímos; assim veja tudo como um sonho e permaneça fora dele.

Saber que você é um prisioneiro de sua mente, que você vive em um mundo imaginário, um sonho de sua própria criação, é o lago da sabedoria.

A causa do sofrimento está na identificação do percebedor com o que percebe ao seu redor, no mundo externo e no mundo interno. É dele que nasce o desejo, e, com o desejo, a ação cega (porque baseada em ilusões) de resultados impensáveis, imprevisíveis. Olhe ao redor, observe e analise profundamente o que você vê, e você perceberá que o sofrimento é uma coisa feita pelo próprio homem.

Ninguém sofre ao assistir a um filme; somente a pessoa que se identifica com ele. Não se identifique com o mundo e você não sofrerá.

Enquanto ele dura, o sonho tem um aspecto temporal. E é nosso desejo de mantê-lo, que cria o problema. Deixe ir. Pare de imaginar que o sonho é seu. Deixe o filme desenrolar-se até o verdadeiro fim. Você não pode ajudá-lo (interferir). Mas você pode reconhecer que o sonho é um sonho, e não carimbá-lo com o selo de realidade.

No presente você está perdido, e, portanto em perigo, pois para um perdido, a qualquer momento algo pode acontecer. É melhor acordar e ver sua situação real. Que você é, você sabe. O que você (o Eu) é, você não sabe. Descubra o que você é (e você estará livre). (‘Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará’).

Minha intenção de acordá-lo é o link (a ligação) entre nossos respectivos sonhos). Meu coração quer que você acorde. Eu vejo você sofrendo em seus sonhos e eu sei que você deve acordar para terminar seus pesadelos. Quando você vê seu sonho como sonho, você acorda. Mas em seu sonho eu não estou interessado. Para mim é o bastante saber que você deve acordar. Você não precisa trazer seu sonho para uma conclusão definida, ou torná-lo nobre, ou feliz, ou belo; tudo que você precisa é realizar (se convencer) que você está sonhando. Pare de imaginar, pare de acreditar (de ter esperanças, medo, remorsos, expectativas, emoções); acorde! Veja as contradições, as incongruências, a falsidade e o sofrimento do ente humano (nesse sonho que é a vida), e sua necessidade de ir além (do sonho).

Em sonho você ama alguns e não ama outros. Acordado (liberto das ilusões) você descobre que você é o próprio amor, que envolve e inclui tudo. O amor pessoal, não importa quão intenso e genuíno seja, invariavelmente desaparece; o amor de quem se libertou é incondicional, é amor por tudo.  

Este é o coração da questão: Enquanto você acredita que só o mundo externo é real, você permanece seu escravo.  Simplesmente compreenda que o que você vê não é o que você é. As aparências se dissolverão sob a investigação, e a realidade virá à superfície. Você não precisa queimar a casa para abandoná-la. Basta sair. Somente quando você não pode ir e vir livremente que a casa se torna uma prisão. Eu me movo para dentro e para fora da consciência fácil e naturalmente, e assim para mim o mundo é uma casa (da qual posso sair quando quiser), não uma prisão.

Nada no sonho é feito por mim ou por você.

Enquanto você acreditar que é um corpo, você encontrará causas (motivos) para tudo e sofrerá. Eu não estou dizendo que as coisas não têm causas. Cada coisa tem causas inumeráveis. É como é, porque o mundo é como ele é. Cada causa, em suas ramificações, cobre o universo (Não há causas para o sofrimento e a ignorância) exceto sua ignorância de seu ser real (do ser que realmente você é), o qual é perfeito e além de toda causação. Pois o que quer que aconteça, todo o universo é responsável e você é a fonte do universo. Tudo o que acontece é a causa de tudo o que acontece. As causas são inúmeras; a idéia de uma causa única é ilusão.  

Porque você fala de ação? Você alguma vez está em ação? Algum poder desconhecido atua e você imagina que você está agindo. Você está meramente assistindo (testemunhando) o que acontece, sem ser capaz de influenciá-lo de nenhuma forma. (‘É o Senhor que opera em nós o pensar, o querer e o fazer’). Pára de imaginar a ti mesmo como sendo ou fazendo isso ou aquilo, e a realização (a compreensão, a iluminação), de que tu és a fonte e o coração de tudo, se derramará sobre ti.

O homem sábio nada toma como sendo seu (como se fosse fruto de sua ação, de sua escolha ou decisão). Quando em algum tempo ou lugar algum milagre (qualquer feito ou ação) é atribuído a alguém, o sábio não estabelecerá qualquer vinculo de causa entre eventos (o fato) e seu presumido autor (porque ninguém age ou escolhe ou decide por si mesmo), nem permitirá que qualquer conclusão seja tirada. Tudo acontece como acontece porque tem de acontecer; tudo acontece como acontece porque o universo é como ele é.

Você se imagina sendo e fazendo tudo idêntico (repetindo as mesmas respostas aos mesmos estímulos). Não é assim. A mente e o corpo movem-se e mudam e causam movimentos e mudanças em outras mentes e outros corpos, e isso é chamado de fazer, de ação. Eu vejo que é da natureza da ação criar outra ação, como fogo que continua queimando. Eu não ajo nem sou causa de outros agirem; eu estou constantemente alerta de tudo o que acontece.
O que é feito é um fato; o fazedor é um mero conceito. Sua própria linguagem mostra que enquanto o feito é certo (é um fato), o fazedor é dúbio, impreciso; alternar responsabilidades é um jogo peculiarmente humano. Considerando a infindável lista de fatores requeridos para que algo aconteça, só se pode admitir que tudo seja responsável por tudo, não importa quão remoto esteja. O fazer é um mito nascido da ilusão do “eu” e do “meu”. Eu não sinto que eu esteja falando. Apenas existe fala acontecendo; isso é tudo. Você realmente fala? Você ouve a si mesmo falando e você diz: ‘eu estou falando’. Eu não tenho qualquer objeção às convenções de sua linguagem, mas elas distorcem e destroem a realidade. Um modo mais acurado de dizer seria: “Há fala, há trabalho, há movimento, há ir e vir”. Para que qualquer coisa aconteça o universo inteiro deve coincidir. É um erro acreditar que qualquer coisa em particular possa causar um evento. Toda causa é universal. Eu estou totalmente seguro de que as coisas acontecem como elas têm de acontecer porque o mundo é como ele é, o mundo apenas é assim. Para afetar o curso dos eventos, eu devo trazer um fator novo para o mundo e tal fator só pode ser eu mesmo, o poder do amor e da compreensão focalizado em mim.
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A MENTE MEDITATIVA


(31)   A MENTE MEDITATIVA (Krishnamurti)   (2/08)  (muita atenção!)

A qualidade da mente meditativa é complexa. Devemos examiná-la com atenção e com o propósito de descobrir sua natureza, suas minúcias, sua índole, sua essência; não apenas compreender, mas sentir sua verdade dentro de nós, com todo nosso ser. Talvez, com esforço constante e determinação para esse fim, poderemos ser capazes de ultrapassar a mente superficial, que torna nossas vidas tão vazias – tão dominada que é pelos condicionamentos e hábitos (ego) e, por isso, tão sem profundidade.

Mas antes, precisamos reconhecer, por nós mesmos, o quanto somos superficiais. Parece-me que quanto mais superficiais, mais nos tornamos ‘ativos’ (movimentamo-nos de cá pra lá, sem cessar, sempre ‘fazendo’ alguma coisa que julgamos útil) e ‘coletivos’ (agimos como todos os demais agem, em face de nosso condicionamento, regras sociais, cultura, crenças). Colecionamos obras de arte, tagarelamos interminavelmente, freqüentamos bibliotecas, dedicamo-nos a atividades sociais, concertos, conferências, entretenimentos etc. e estamos mergulhados na interminável rotina do emprego e dos negócios. Essas coisas tornam-nos embotados, medíocres e, quando percebemos esse embotamento, procuramos nos mostrar mais eruditos, penetrantes, por meio de palavras, de argumentações, do intelecto, das coisas da mente. Reconhecendo como somos superficiais, tentamos fugir dessa mediocridade, nos entregando à busca do saber, práticas religiosas, orações, jogo, bebida, aventuras, adrenalina, sexo, política; ou nos tornamos ‘idealistas’ etc. Estamos bem conscientes do quanto somos superficiais; de que a mente, que segue um hábito ou pratica uma disciplina a fim de ‘vir a ser algo’, torna-se cada vez mais embotada e estúpida, perdendo toda penetração e sensibilidade. E é dificílimo, a essa mente superficial, acabar com sua própria estreiteza, insignificância e limitações. Você já pensou, alguma vez, nisso?

Este assunto requer, não só certa habilidade intelectual, mas também, uma clara compreensão da linguagem e de suas limitações. E se pudermos entrar em comunhão uns com os outros, não apenas verbalmente, mas ultrapassando (com o sentimento, com profundidade) o símbolo a que a palavra se associa, e assim prosseguir cautelosamente nesse caminho, sem dúvida começaremos a descobrir, por nós mesmos, o que é meditar e qual a qualidade da mente capaz de meditação.

Se não chegarmos a compreender a extraordinária beleza da meditação, por mais que pareçamos inteligentes, prendados, competentes, penetrantes, nossa vida será superficial e sem significado. E, assim, reconhecendo quão pouco significativas são nossa mente e nossa vida, buscamos uma ‘finalidade na vida’, um objetivo, meta ou suposta missão, algo que nos preencha o vazio interior, provocado pela insatisfação que está quase sempre conosco. E, quanto mais ‘grandiosa’ a ‘finalidade’ que escolhemos, tanto mais nobres julgamos nossos esforços. A busca de ‘finalidade’, no entanto, é procedimento totalmente errado. A finalidade nada é. O que existe de importante e extraordinário é viver sem limitações. E, para se descobrir esse estado, requer-se uma mente perspicaz, clara, penetrante e precisa, e não uma mente embotada (defeituosa) pelos hábitos e condicionamentos (ilusões, crenças, opiniões, suposições, cultura...) que dominam nossas vidas.

Não há como negar que nossas vidas são vazias, superficiais, repetições sem fim dos mesmos hábitos (erros, procedimentos, coisas com as quais estamos condicionados). E essa mente supõe que se satisfaz facilmente, mas isso é ilusão pois, mais dia menos dia, surge de novo a insatisfação e a mente procura livrar-se dela, buscando nova finalidade a que se dedicar, modos de preencher o vazio da insatisfação etc. Ao ver-se descontente, põe-se a seguir uma rotina, fixa um ideal, sai atrás do que acha que ‘deveria ser’. E essa mente, não importa o que faça – quer se esteja sentado, a contemplar meditativamente o umbigo, quer meditando acerca do Supremo – permanecerá sempre vazia, porque sua essência mesma é sem profundeza. Uma mente estúpida nunca se tornará uma mente superior. No entanto, ela pode vir a compreender sua própria estupidez; e, no momento em que perceber, por si mesma, o que ela é (estúpida, medíocre, vazia, fútil), sem ficar imaginando o que deveria ser, quebra-se a estupidez. Com esta percepção, toda busca termina. Mas isto não significa que a mente se torne adormentada, estagnada. Pelo contrário; agora é que ela está vendo o que é, em sua realidade; e isso não é mais um processo de busca, mas um processo de compreensão.

A maioria das pessoas está, mesmo inconscientemente, em busca de felicidade, da compreensão, de Deus, da verdade, de satisfação de seus desejos, de amor permanente. Mas a mente que busca é muito superficial; ela apenas sente que tem de buscar ‘algo mais’ para compreender esta confusão que é a vida, para preencher seu vazio interior, sua insatisfação; mas sempre busca usando suas próprias operações limitadas, porque condicionadas. Devemos entender bem este ponto e investigar, ver como são absurdas a mente superficial, suas operações e atividades. Mas, nunca vamos poder penetrar a fundo nessa investigação se continuarmos a pensar em termos de busca, de esforço para descobrir esse algo mais. Ao contrário, necessitamos é de uma mente clara, muito penetrante, sem preconceitos, silenciosa, tranqüila. A mente sem profundeza, que se esforça para se tornar silenciosa, continua sem profundidade. A mente limitada, sempre tão ‘sabedora’, tão cheia de opiniões e crenças, tão sagaz, tão empolgada da ambição de achar Deus, a Verdade, um santo ou o que seja - porque seu desejo é sempre chegar a algo melhor – essa mente continua superficial, porquanto todo esforço é superficial, pois é produto da mesma mente limitada. Essa mente jamais será sensível; é necessário perceber esta verdade. A disciplina, o controle, o uso da força de vontade, o esforço para ‘vir a ser’, o esforço para rejeitar, resistir, cultivar a virtude, reprimir, sublimar, desejar – tudo isso, em essência, constitui a natureza da mente superficial, pois são esforços, tentativas, operações, que ainda só utilizam o conhecimento, a memória, as ilusões, a imaginação, o raciocínio da mente superficial e limitada, enfim o passado. Talvez a maioria não concorde com isso, mas tente observar se não é assim. Como a mente limitada poderá agir além de seus limites? Não pode; esse é um evidente fato psicológico.

Ora, quando a pessoa se torna consciente disso, quando percebe essa verdade, realmente e não apenas verbalmente e intelectualmente – e não deixa a mente fazer perguntas sem conta sobre como modificar esse fato, como se libertar de sua superficialidade, de suas limitações, ou delas fugir, esquecer – sendo que tudo isso envolve esforço – reconhece então que nada pode fazer para modificar esse estado. O que pode fazer é apenas perceber, ver as coisas cruamente, tais como são, sem deformação, sem preconceitos, sem invocar opiniões a respeito do fato; isto é, simplesmente observar, testemunhar, sem idéias prévias, limitadoras. E é dificílimo observar pura e simplesmente, pois que nossa mente sempre foi exercitada para comparar, julgar, condenar, competir, justificar, classificar ou identificar-se com o que vê. Nunca vê as coisas como são porque sempre colocamos, entre elas e nós, uma cortina de condicionamentos, de conhecimentos adquiridos (ego).

‘Viver com um sentimento’ tal qual ele é – ciúme, inveja, ambição, violência, medo, ódio, amor, seja o que for – ‘viver com ele’ sem o deformar, sem medos, sem emitir opinião ou julgamento, sem preconceitos, sem dele fugir, isso requer uma mente dotada de energia para seguir todos os movimentos do fato. Pois um fato nunca é estático; ele se movimenta, vive. Mas, nós o queremos estático, aprisionando-o com uma opinião, um julgamento (que pode ser apenas fruto de preconceitos ou de crenças que não sabemos se são verdadeiras ou falsas).
Assim, a mente vigilante, sensível, percebe a futilidade de todo esse esforço. Mesmo na educação, o estudante que se esforça para aprender, nunca aprende realmente. Pode adquirir conhecimento, tirar um diploma; mas aprender é coisa que transcende o esforço. Talvez, hoje, possamos aprender juntos, sem esforço, em lugar de ficarmos presos à esfera do conhecimento.
Estar consciente do fato, sem o desfigurar, sem o colorir de acordo com nossas conveniências e medos, sem lhe dar nenhuma tendência; observar a nós mesmos tais como somos, com todas nossas teorias, ilusões, esperanças, desesperanças, sofrimentos, crenças, fracassos e frustrações – isso torna a mente extremamente penetrante. O que torna a mente embotada, superficial, estúpida são as crenças, as religiões, ideais, hábitos, opiniões, ilusões, a busca de seu próprio engrandecimento, de seu próprio ser ou vir a ser. Como disse, para se seguir o fato, requer-se uma mente precisa, sutil, atenta, ativa, porque o fato nunca é estático.

Alguma vez você já olhou um fato, a inveja, por exemplo, seguindo-o, buscando compreendê-o totalmente? Todas as sanções religiosas baseiam-se na inveja, do bispo ao mais humilde clérigo. E toda nossa moralidade social, nossas relações, estão baseadas na aquisição e na comparação, e estas, por sua vez, significam inveja. Percebam isso! E seguir isso até o fim, em todos os seus movimentos, para entender o porquê da inveja (ou de outra coisa qualquer), requer uma mente muito atenta, vigilante e limpa (sem poluição, sem contágio de qualquer espécie).

É muito fácil reprimir o fato, dizendo: ‘Não devo ser invejoso’, ou: ‘Já que estou aprisionado nesta sociedade corrompida, tenho de aceitar esta condição’. Mas, seguir todos os movimentos do fato, cada nuance, cada sutileza – esse ‘processo’ de segui-lo torna a mente sensível, sutil. Se seguimos o fato sem tentar alterá-lo ou colori-lo (com opiniões, crenças, fugas, orações, promessas etc.) veremos que não existirá nenhuma contradição entre o fato, isto é, o que é realmente, e o que deveria ser. Não havendo contradição ou diferença entre o que é e o que deveria ser, nenhum esforço será exigido, pois, se a mente está apenas seguindo o fato, apenas o observando, não estará empenhada em alterá-lo, em torná-lo diferente. Isto também é uma verdade psicológica. E esse seguir o fato deve ser feito a todas as horas, noite e dia, mesmo durante o sono. Pois a atividade da mente, quando o corpo dorme, é muito mais deliberada, positiva, e os resultados dessas atividades nos chegam à mente consciente através de símbolos, sugestões e sonhos.

Se está sempre vigilante, atenta, observando, a cada instante, cada gesto, cada movimento ou reação do pensamento (auto-observação), a mente pode, então, vir a ultrapassar a própria consciência.

Para se descobrir o que é a verdade, Deus, ou o nome que preferirmos, é absolutamente necessário ter uma mente lúcida – não no sentido de talentosa, intelectual, argüitiva; mas ter uma mente capaz de, sem qualquer preconceito, raciocinar, examinar, questionar, duvidar, negar, indagar e investigar, a fim de descobrir. A mente que tem fronteiras, restrita, condicionada, limitada, não é sensível, pois não é livre. O nacionalista, o crente, o religioso etc. não têm uma mente sensível, livre, porque sua crença, seu nacionalismo lhes limita a mente. Assim, no seguir, apenas, o fato, a mente se torna sensível. O fato a torna sensível e não há necessidade de fazermos, por nosso esforço ou vontade, que ela se torne sensível.

Se isso está mais ou menos claro, qual é então a natureza da beleza que essa mente descobre? Para a maioria de nós, a beleza reside nas coisas que percebemos com os sentidos objetivos (visão, audição, tato etc.) – um quadro, uma melodia, um poema, uma sinfonia, uma árvore, uma flor, o pôr do sol, o mar imenso, um sorriso de criança etc. E existe, para nós, a negação da beleza, a reação à beleza, que é o dizermos ‘isto é feio’. Mas a mente sensível é sensível tanto para o feio quanto para o belo (certo ou errado) e, por conseqüência, (por não julgar, não comparar, coisas que são interferência do ‘eu’), não há nenhuma busca daquilo a que chama belo, e nenhuma rejeição àquilo que chama feio. E, com essa mente vamos descobrir que existe uma beleza inteiramente diferente das avaliações (percepções, interpretações) feitas pela mente limitada. Você deve saber que a beleza requer simplicidade, e a mente muito simples, que vê os fatos tais como são, sem julgá-los, conceituá-los, compará-los, é uma mente muito bela, simples (pura, limpa, inocente). Mas não podemos ser simples se não houver passividade e não há passividade se não houver austeridade. Não me refiro à austeridade da tanga, das longas barbas do monge, do tomar uma só refeição por dia, porém à austeridade da mente que se vê e se percebe como é (limitada, finita, preconceituosa, medíocre), e segue infinitamente aquilo que vê. E esse seguir é passividade, porquanto a mente não mais está apegada, não mais está comparando, fugindo, julgando; está apenas observando. A mente tem, portanto, de ficar totalmente passiva para poder ver ‘o que é’.

Assim, para se ver realmente a beleza se requer a paixão da austeridade. Já vimos o que é austeridade; e necessitamos evidentemente da paixão para sentirmos a beleza. Necessita-se de intensidade e de penetração. A mente embotada não pode ser austera, não pode ser simples, pura, livre (está cheia de amarras, apegos, crenças, opiniões, ilusões, desilusões, dependências, esperanças, desesperanças) e, por conseguinte, é sem paixão. E é na chama da paixão que se percebe a beleza, que se pode ‘viver com a beleza’.

Talvez tudo isso, para você, não passe de meras palavras para serem, mais tarde, lembradas. Mas não há ‘mais tarde’. Isso tem de acontecer agora, enquanto conversamos, enquanto estamos em comunhão uns com os outros. E esse percebimento da beleza não reside apenas nas coisas – obras de arte, céu, noite estrelada – pois começamos, também, a descobrir a beleza da meditação, e a intensidade e a paixão da mente meditativa (a beleza em tudo).

Vamos, agora, falar sobre a meditação, porque ela é extremamente necessária para se ter uma mente pura e passiva, e estamos aqui lançando suas bases. Para a meditação necessita-se de uma mente capaz de permanecer em silêncio – não uma mente forçada ao silêncio por meio de força de vontade, de artifícios, disciplina, controle, persuasão, repressão -, porém uma mente completamente tranqüila. Isso é absolutamente essencial à mente que deseja entrar num estado de meditação. Por conseguinte, a mente deve estar libertada de todos os símbolos, palavras, idéias, crenças, opiniões, vínculos. A mente é escrava das palavras, não é? Os ingleses são escravos da palavra ‘rainha’, os religiosos são escravos das palavras Deus, Buda, céu, pecado, carma etc. A mente repleta de símbolos, palavras, idéias, opiniões, é incapaz de estar em silêncio, quieta. Emaranhada em seus pensamentos, nunca está tranqüila. Essa tranqüilidade nada tem a ver com estagnação, com um estado ‘em branco’, ou de hipnose; contudo pode ser alcançada ‘no escuro’ (vazio), inesperadamente, sem volição e sem desejo, quando compreendemos inteiramente o ‘processo’ do pensamento.

O pensamento, afinal de contas, é apenas reação da memória; e a memória é resíduo da experiência; e o resíduo da experiência é o ‘centro’, o ‘eu’ (ego). Assim se forma o ‘eu’, que é, então, essencialmente acumulação de experiências passadas (uma coleção de memórias produzida pelas experiências que deixaram marcas), em relação tanto à coletividade como ao indivíduo. Desse centro, emana o pensamento; e esse processo precisa ser completamente compreendido; isso é ‘autoconhecimento’. Sem autoconhecimento, consciente e inconsciente, a mente nunca estará tranqüila. Só poderá hipnotizar-se para tornar-se tranqüila, mas isso é infantil, imaturo e nunca definitivo.

O autoconhecimento, portanto, é necessário e urgente, porque a mente que conhece a si mesma e a todos seus artifícios e artimanhas, imaginações e atividades, pode então chegar, sem esforço, sem exigência, sem premeditação, ao estado de completa quietude. Conhecer a si mesmo é conhecer a totalidade do pensamento e saber como este cria coisas, como divide a si próprio em ‘eu superior’ e ‘eu inferior’. É o percebimento da totalidade desse movimento de experiência, memória, pensamento. É isso que dá o percebimento do centro, do ‘eu’, que se torna pensamento, memória e experiência; e a experiência, por sua vez, se torna memória mediante o ulterior condicionamento da experiência. Portanto, o eu, o ego, não tem realidade; é apenas um feixe de memórias selecionadas.

Espero que você esteja me seguindo. Se você se observar atentamente, poderá perceber isso. O centro nunca é estático. O que era centro se torna experiência, e a experiência se torna centro e o centro se transforma em memória. É tal como causa e efeito: causa se torna efeito e efeito se torna causa. E esse processo não é só consciente, mas também inconsciente. O inconsciente é o resíduo da raça, do homem ocidental e oriental. Essas tradições herdadas, no encontro com o presente se transformam noutras tradições. Para perceber as múltiplas camadas do inconsciente e seu movimento, necessita-se de uma mente bem penetrante, viva e atenta, que nunca esteja, nem por um momento sequer, a buscar segurança, conforto, preenchimento do seu vazio. Porque, no momento em que busca segurança ou conforto, está tudo acabado; estamos de novo atolados, aprisionados (porque a mente não está mais livre, mas apegada a seu objetivo ou desejando fugir do que é). A mente, apegada na segurança, no conforto, num padrão, numa crença, em ilusões, em coisas que julga sejam verdades, num hábito, não pode ser ágil, livre, porque quem está apegado é escravo do seu apego.

Eis, pois, o que é o autoconhecimento; e conhecer a si mesmo significa descobrir (compreender) o fato e seguir o fato sem julgá-lo, sem nenhum interesse em modificá-lo. E isso requer atenção. Atenção é uma coisa e concentração é coisa muito diferente. A maioria dos que desejam meditar espera adquirir o poder da concentração. Todo colegial sabe o que é concentração. Ele deseja olhar pela janela e o mestre lhe diz: ‘olha para seu livro’; e trava-se uma batalha entre o desejo de olhar pela janela e a compulsão do medo, da competição, que o força a olhar para o livro. Concentração, pois, é uma forma de exclusão; excluímos tudo, menos aquilo em que estamos concentrados. E, embora em tal processo, você pode se tornar perspicaz, sua mente continua ainda muito limitada. Tenha a bondade de acompanhar isso que exponho, sem aceitar nem rejeitar; simplesmente observando.

A mente que se limita a se concentrar conhece a distração; mas, a que está atenta, não tolhida pela concentração, não conhece distração. Tudo, então, é movimento vivo. Compenetre-se bem disso e você verá como lançará fora toda a carga de crenças, opiniões, mandamentos religiosos, que lhe foi imposta; você olhará a vida de outra maneira. A vida torna-se, então, em algo extraordinariamente significativo, em algo extraordinariamente maravilhoso – o verdadeiro viver, que não é tentar fugir, esquecer, substituir, sofrer, duvidar.

Quando se dá um novo brinquedo a uma criança, cessa completamente seu desassossego e ela se torna quieta, toda absorvida no brinquedo. E o mesmo acontece conosco; temos também nossos brinquedos: mestres, salvadores, obras de arte, ideais, crenças, religiões, suposições, filosofias; e, neles se absorvendo, a mente se torna quieta. Mas, essa absorção é morte para a mente, ilusão temporária porque, logo mais, ela necessitará de outros brinquedos que a satisfaçam.

A atenção não é nem semelhante, nem o oposto da concentração e, por conseguinte, não tem relação com a concentração. Atenção é estar a mente consciente de cada movimento que se verifica dentro e fora dela mesma. Significa, não só ouvir os barulhos do tráfego, mas também o que se está dizendo, o que está vendo, ouvindo, degustando, cheirando, tocando; estar consciente da sua reação ao que todos seus sentidos objetivos estão captando, mas consciente sem escolha (de sua reação interior àquilo que seus sentidos objetivos percebem do mundo exterior, sem se prender ao que considera mais belo, mais agradável, ou mais feio, certo, errado etc., pois que isso é exclusão, concentração) para que não haja limitações à mente. Quando a mente está atenta dessa maneira, a concentração terá, então, significado completamente diferente; a mente pode, agora, se concentrar em qualquer coisa, objeto ou evento, mas tal concentração não exige qualquer esforço, pois já não existe mais julgamento, comparação, apego, medo etc. que tenhamos de afastar para perceber; não é, também, exclusão, porém é parte do percebimento total. Você está compreendendo?

Essa atenção é bondade, é virtude; e nela se encontra o amor e, portanto, aconteça o que acontecer, aí não pode existir o mal. O mal só existe onde há dúvida, escolha, medo, conflito, ilusão etc. E a mente atenta, completamente consciente de si mesma e de todas as coisas que se passam nela própria, é capaz de transcender a si própria.

A meditação, pois, não é um ‘processo’ de ‘saber meditar’, de ser ensinado ou de aprender a meditar. Isto é completamente infantil, pois daí nasce o hábito e todo hábito faz a mente embotada, aprisionada em seu próprio embotamento (condicionamento); com o hábito você poderá ter visões do Cristo, ou dos deuses de sua crença, ou do que quer que seja, mas, com certeza, sua mente continuará condicionada. O cristão pode ter visões de Jesus, e os demais poderão ter visões de seus deuses e santos prediletos. A mente meditativa não é imaginativa; portanto, não tem visões. O que ela ‘vê’ é o que é, é o Real.

Assim, quando a mente, depois de agitar-se inutilmente no círculo fechado de seus próprios movimentos limitados, começa a seguir, sem esforço, o movimento de seus pensamentos, a amar o seu centro, seu movimento, suas experiências, só então é capaz de compreensão, de permanecer quieta, pronta (Krishnamurti: arrume o aposento e deixe portas e janelas abertas; assim, a qualquer momento, a coisa poderá entrar).

Agora, um momento. Posso comunicar-lhe verbalmente o que então sucede, mas isso é muito sem importância (‘irrelevante’, disse o Buda), porque você é que tem de descobrir isso. Você deve chegar àquele estado de silêncio, abrindo você mesmo a porta. Se outro lhe abre, ou procura ajudá-lo a abri-la, então esse outro se torna sua autoridade e você seu seguidor; você ficará dependendo desse outro. E isso, por conseguinte, significa morte para a verdade; morte para a pessoa que diz que ‘sabe’, e morte para aquele que pede ‘ensine-me’. A ânsia de saber gera a autoridade, dependência, apego; e a mente continua condicionada.

Eu ´lhe exponho tudo isso, não com a intenção de convencê-lo, ou estimulá-lo, de demonstrar-lhe algo, ou coisa parecida, mas, sim porque, quando o compreender, você verá a relação existente entre o tempo e espaço.

Quando a mente está completamente livre de barreiras, limitações, acha-se então num estado de plenitude; e nessa plenitude, está vazia; e esse vazio pode conter o tempo – tempo como espaço e distância; tempo como ontem, hoje e amanhã. Mas, não havendo aquele vazio, não há tempo, nem espaço nem distância. E, quando a mente descobre isso, quando o experimenta, não apenas verbalmente, intelectualmente, ou como coisa lembrada, mas verdadeiramente – ela sabe, então, o que é criação – criação e não coisa criada.  E você verá então que, ao dobrar uma esquina, ao passar por belos campos ou por uma rua imunda, ou que quer que seja, sempre se encontrará (estará) com o Eterno.

A mente, pois, jornadeou pelo seu próprio interior, pelas últimas profundezas de si própria. Esta jornada não é semelhante à viagem à Lua num foguete, o que é relativamente fácil, mecânico; e a jornada interior, a visão interior não é mera reação ao exterior. Tudo é um só movimento: interior e exterior. E, quando há essa visão profunda, interior, essa atenção, essa percepção interior, a mente, então, não está mais separada do Sublime. Por conseguinte, toda busca, toda ânsia, tudo terminou.

Por favor, não se deixe influenciar ou hipnotizar por minhas palavras. Se está influenciado, você não poderá saber, por si mesmo, o que é o amor. A influência, a hipnose, como já vimos, nos prendem ao influenciador, ao hipnotizador, que se torna autoridade para nós e a ele nos apegamos, porque passamos a depender dele.

A meditação é o descobrimento dessa coisa extraordinária que se chama Amor.
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A ENERGIA DO AMOR


(32)        A ENERGIA DO AMOR (Krishnamurti)              (muita atenção)
      
       Vamos falar sobre a meditação e a verdadeira beleza. A beleza é um sentimento do belo, sentimento inacessível aos sentidos, não provocado pelas coisas feitas pelo homem ou pela natureza. Ela transcende tudo isso; e para fazermos a investigação dessa beleza – que não é meramente subjetiva ou objetiva – temos de atingir o percebimento imenso que se alcança por meio da meditação. A meditação, a mente meditativa é um requisito essencial, e já vimos que a mente meditativa é aquela que questiona e investiga (que não tem preconceitos), que percorre todo o processo do pensamento e é capaz de ultrapassar-lhe as limitações.
       Talvez, para alguns, seja dificílimo meditar e muitos nem pensaram, ainda, nisso. Mas quem examina atentamente a questão da meditação – que não é auto-hipnotismo, nem imaginação, nem evocação de visões, e outras infantilidades que tais – alcança, invariavelmente, aquele mesmo sentimento, aquela mesma intensidade própria da mente que percebe o belo sem ‘provocação’. E a mente que está em silêncio (sem operar), naquele estado de intensidade, descobre um estado novo, antes desconhecido, que não é limitado nem pelo tempo, nem pelo espaço.
       Desejo falar, hoje, sobre o significado da mente religiosa. Estamos a fazer juntos, em comunhão, esta jornada. Portanto, por favor, não me escutem com preconceitos, parcialidades, preferências ou ‘despreferências’, pois vocês estão escutando para que possam descobrir, por vocês mesmos, o que é verdadeiro. E para se descobrir o que é verdadeiro, quando se está emaranhado em tantas coisas falsas (ou q supomos verdadeiras, opiniões suas ou de outrem, crenças, religiões, culturas, costumes, ilusões), pensamentos superficiais, esperanças e desesperanças, cumpre não aceitar, de modo algum, nada do que está dizendo o orador. O que é preciso é questionar, investigar, explorar (mas sem julgar, sem comparar) e isso requer uma mente livre e não a mera reação de uma mente tolhida por preconceitos e opiniões; necessita-se de uma mente verdadeiramente livre, quer dizer, não ancorada, não presa ou dependente de determinada crença, autoridade, dogma ou experiência, ou modo de pensar; uma mente capaz de seguir um fato (até suas raízes, até as últimas conseqüências), com muita clareza e precisão; para isso, a mente tem de ser muito sutil.
       Um fato nunca é estático; está sempre em movimento – seja um fato que observamos em nós mesmos, seja um fato que observamos fora de nós, objetivo, portanto. A observação de um fato exige uma mente capaz, precisa, lógica e, sobretudo, livre para seguir (livre de preconceitos, crenças, dogmas, superstições, mestres, opiniões, culturas, costumes: nada de que ela dependa ou de q venha a depender).
       Parece que no mundo atual, com tanta confusão, aflição e agitação, são necessárias a mente cientifica e a mente religiosa. Estes dois são os únicos estados mentais reais, pois não é real o estado da mente que crê, da mente condicionada, quer pelo dogma do cristianismo ou de outra qualquer crença ou religião ou qualquer outra coisa. Afinal, temos problemas imensos e a vida tornou-se muito complexa. Talvez, exteriormente, haja um sentimento muito maior de segurança, o sentimento de que talvez não tenhamos guerras atômicas no futuro, dado o terror que inspiram. Ou sentimos (ou supomos) que, embora possa haver guerra, não será em nosso país, ou não nos afetará profundamente e, assim, podemos sentir-nos mais seguros física e emocionalmente. Mas a mente que busca segurança (nas situações externas ou internas) se torna embotada, medíocre; e, em tais condições, ela é incapaz de resolver seus próprios problemas.
       Para vivermos neste mundo - com suas rotinas, seu tédio, a existência superficial da classe média, superior ou inferior – e resolvermos nossos problemas, ultrapassá-los, penetrar profundamente em nós mesmos, só há dois caminhos: o cientifico e o religioso. O caminho religioso inclui o cientifico, mas este não inclui aquele. Necessitamos do espírito cientifico uma vez que só este é capaz de examinar rigorosamente todas as causas da miséria humana; o espírito científico pode promover a paz mundial, objetivamente – alimentar a humanidade, dar-lhe casas e roupas etc; não apenas a estes ou àqueles, mas a todo o mundo. Não se pode viver na prosperidade (e na satisfação) numa extremidade da terra, enquanto na outra extremidade existe degradação, doença, fome e esqualidez (insatisfação). Talvez a maioria de vocês ignore isso, mas todos devem sabê-lo. Para se resolverem todos esses imensos problemas, perceber toda a estupidez do nacionalismo, dos conchavos políticos, do inveja, da ambição, da avidez do poder, da violência, do ódio, necessita-se de espírito científico. Mas, infelizmente, como se vê, o espírito científico está agora mais interessado em viagens à Lua ou mais além, ou em aumentar nossos confortos com geladeiras melhores, carros melhores etc. Isso, de modo geral, está certo, mas é um ponto de vista muito limitado.
       Espírito científico é o espírito de investigação, nunca satisfeito com seus achados, sempre variável, nunca estático. Foi esse espírito que criou o mundo industrial, mas esse mundo, sem revolução individual interior, produz uma maneira de viver completamente medíocre. Sem essa revolução, todas as glórias e belezas da chamada vida intelectual, só tornam a mente mais embotada, estúpida, mais contentada, satisfeita, segura (ilusoriamente).
       O progresso em certos sentidos é essencial, mas também destrói a liberdade. Vocês já notaram que, quanto mais temos, tanto menos somos livres? E, por isso, os religiosos do Oriente têm dito: ‘Renunciemos às coisas materiais, pois não importam. Busquemos a outra coisa’, mas eles também não encontraram essa ‘outra coisa’. Sabemos pois, mais ou menos, o que é espírito científico, o espírito que existe no laboratório. Não me refiro ao cientista como indivíduo; este provavelmente é igual a nós, entediado da existência de cada dia, avarento, ávido de poder, posição, prestígio.     
       Muito mais difícil é averiguar o espírito religioso. Como proceder quando se deseja descobrir algo verdadeiro? Queremos saber o que é espírito religioso; não esse estranho espírito que prevalece nas religiões organizadas, porém o genuíno espírito religioso.
       Só se começa a descobrir o verdadeiro espírito religioso por meio do pensar negativo, porquanto, para mim, o pensar negativo é o pensamento em sua forma mais elevada (que nega tudo e só dá valor ao fato; que questiona, não crê, não aceita simplesmente a opinião dos outros, seja do sacerdote, das escrituras etc). Entendo por pensamento negativo aquele que despreza, que rompe e destroça todas as coisas falsas construídas pelo homem (opiniões, crenças, religiões, costumes, regras sociais etc.) para sua própria segurança, seu sossego interior; que destroça todas as defesas e o mecanismo de pensamento que constrói essas defesas. É preciso destroçar tudo isso, ultrapassá-lo rapidamente, para ver se existe algo além. E o ultrapassar as coisas falsas não é uma reação ao que existe. Para descobrirmos o que é espírito religioso e dele nos aproximarmos negativamente, precisamos saber no que cremos e porque cremos, porque aceitamos todos os inumeráveis condicionamentos que as religiões organizadas, do mundo inteiro, impõem à mente humana. Por que cremos em Deus? Por que não cremos em Deus? Por que aceitamos tantos dogmas, crenças, regras, ensinamentos, religiões etc. sem questionar?
       Vocês dirão, talvez, se ultrapassarmos todas essas estruturas chamadas positivas, atrás das quais a mente se abriga, ultrapassá-las sem desejar encontrar algo mais, nada mais restará senão desespero. Mas eu acho que temos de passar também pelo desespero. Só existe desespero quando há esperança, a esperança de nos pormos em segurança, permanentemente confortados, perpetuamente medíocres, perenemente felizes. Para a maioria de nós o desespero é reação à esperança. Mas, para se descobrir o que é espírito religioso, essa investigação deve se realizar sem nenhuma provocação nossa, nenhuma reação (em passividade total, portanto). Se sua busca é apenas uma reação – porque você deseja mais segurança interior – nesse caso ela visa apenas a um conforto maior, seja numa crença, numa idéia, seja no conhecimento ou na experiência. E tal modo de pensar, nascido da reação, só pode produzir mais reação e, por conseguinte, não oferece libertação do processo de reação que impede o descobrimento.
       Há uma maneira negativa de proceder e isso significa que a mente deve se tornar consciente do condicionamento (dela própria) imposto pela sociedade em relação à moralidade; consciente das inumeráveis sanções (e crenças) impostas pelas religiões; e consciente, também, de como, rejeitando com esforço essas imposições exteriores, a mente cria e cultiva certas resistências internas, conscientes e inconscientes, baseadas na experiência, no conhecimento, e que se tornam fatores diretores de nossas vidas e experiências posteriores.
       Assim, para descobrir o que é o verdadeiro espírito religioso, a mente deve estar num estado de revolução. Estado de revolução significa a destruição de todas as coisas falsas que lhe foram impostas, seja por pressão externa, seja por ela própria, pois a mente está sempre em busca de segurança. (Revolução, pois que a mente limitada (e seu condicionamento) foi ou está sendo, revolucionada totalmente, desfeita, destruída).
       O espírito religioso encerra um constante estado mental que nunca constrói para sua própria segurança. Por que, se a mente constrói com essa ânsia de segurança, ela fica vivendo atrás de seus próprios muros, dependente do que construiu e não livre, ainda dentro da esfera limitada dela própria e, portanto, incapaz de descobrir algo novo.
       Por conseguinte a morte, a destruição do velho, é necessária: destruição da tradição, libertação total do que foi, do passado, abandono das coisas acumuladas como memória através dos séculos. Vocês dirão, então: ‘O que mais resta? Tudo que sou é constituído por esse conjunto de fatos, essa historia, experiência; se tudo isso desaparece, se apaga, o que resta?’. Em primeiro lugar, pode-se apagar tudo isso? Podemos falar a esse respeito, mas é possível apagá-lo?  E eu digo que é possível, mas não por influência (da própria mente) ou coerção, vontade ou esforço, pois isso é insensatez, infantil, falta de madureza. Mas é possível se penetrarmos tudo isso profundamente, afastando de nós toda autoridade (dos mestres, sacerdotes, professores, cientistas, imprensa, cultura, crença, escrituras etc). E esse ‘limpar da lousa’ – que significa morrer todos os dias e de momento em momento, para as coisas acumuladas – requer abundante energia e profundo discernimento; portanto a destruição do velho, do conhecido faz parte do espírito religioso.
       Outra parte do espírito religioso é o espírito-força, que inclui a ternura e o amor. Estou me expressando por meio de palavras, mas tenham a bondade de não se contentarem, apenas, com palavras (procurem sentir o que digo, profundamente, em vocês mesmos). Eu disse que outra parte do espírito religioso é a força proveniente do amor. E, com a palavra força, quero me referir a algo completamente diferente do impulso para ser poderoso, do desejo de dominação ou controle; do poder que a abstinência confere; ou do poder de uma mente sagaz, cheia de ambição, avidez, inveja, ávida de perfeição. Esse poder é maligno. O domínio de uma pessoa sobre outra, o poder do político, o poder de influenciar outros para pensarem de certa maneira, seja exercido pelos políticos, pelas igrejas, pelos sacerdotes ou pela imprensa, esse poder é extremamente nocivo. Estou me referindo a coisa muito diferente, sob todos os aspectos, sem nenhuma relação com poder dominador. Existe essa força, esse poder, que não é interior nem exterior, nem produzido por nossa vontade ou desejo. Nesse poder reside aquela coisa extraordinária que é o amor; e este faz parte do espírito religioso.
       O amor não é sensual; nenhuma relação tem com a emoção; não é reação ao medo; não é o amor materno, conjugal etc. (é amor total, sem razões, incondicional, sem limites).
       Sigam bem isso, penetrem-no, sem nada aceitar, nem rejeitar. Talvez vocês digam: ‘Um tal amor, um tal estado mental não baseado na lembrança, é impossível’ Mas ele pode ser encontrado. Encontramo-lo ao investigarmos, no seu todo e profundamente, o processo do pensamento, as peculiaridades da mente. É um poder existente por si só; é energia não causada. Difere inteiramente da energia gerada pelo ‘eu’ (força de vontade, determinação) em sua ânsia de alcançar as coisas que deseja. Essa energia existe, mas só é encontrada pela mente não vinculada ao tempo e ao espaço e a nenhuma outra coisa; mente totalmente, absolutamente livre. Essa energia nasce quando o pensamento – como experiência, conhecimento, memória, como ego, centro – o eu – gerador de sua própria energia, volição e concomitantes pesares, aflições etc. – cessa, se dissolve (e só se dissolve quando a mente se liberta). Dissipado esse centro, manifesta-se aquela energia, aquela força que é amor.
       E há, também, outra camada da mente religiosa que é o movimento -  movimento não dividido em exterior nem interior. Conhecemos o movimento exterior (objetivo, referente a tudo que percebemos com nossos sentidos); desse movimento resulta uma reação que chamamos movimento interior, um afastamento do exterior, renúncia ao exterior, ou, também, aceitação dele como inevitável, resistência a ele pelo cultivo de uma reação de movimento interior, com suas experiências, crenças etc. Existe o movimento para o exterior, o impulso para fora – ser ambicioso, ávido, determinado etc.; e quando esse movimento falha, nos voltamos para o interior (procurando encontra ali forças que nos consolem, nos protejam do movimento exterior).
       Não se busca a verdade quando a mente é feliz. Quando a mente se acha contentada, satisfeita, deleitada, tamanha é sua vitalidade que não precisa murmurar sequer o nome de Deus. Só quando nos sentimos infelizes, quando as coisas exteriores falham, quando não temos êxito, quando temos desgosto, perdas importantes, quando há morte, ou risco de morte, conflito etc., só então nos voltamos para o interior. Nunca recorremos à religião quando somos jovens, porque, então, nossas glândulas estão funcionando a toda velocidade. Encontramos satisfação no sexo, na posição, no prestígio, no dinheiro, na fama, no êxito etc. Quando essas coisas começam a falhar, só então nos voltamos para o interior; ou, se ainda somos jovens, nos tornamos beatniks (existencialistas, anti-conformistas, rebeldes à ordem social vigente). Tudo isso é reação. Mas revolução não é reação.
       Se se percebe com toda a clareza a verdade contida em tudo isso, ocorre, então, um movimento que é tanto interior como exterior; não há divisão. É um movimento que consiste em ver as coisas exteriores precisa, clara e objetivamente, tais como são (sem interpretação, sem preferências, sem parcialidade, sem julgamento, sem memória de outras coisas); e esse mesmo movimento se verifica também interiormente, não mais como reação, porém como o movimento dos ventos, das nuvens, das marés, o fluxo e o refluxo das mesmas águas, um movimento natural, sem esforço. O movimento para fora significa ter olhos, os sentidos, todo nosso ser, abertos, vivos (atenção). E o movimento para dentro é o fechar os olhos – emprego esta expressão como meio de comunicação, mas ninguém precisa ficar de olhos fechados. O movimento para dentro é a visão interior. Depois de compreender o exterior, os olhos se voltam para dentro, mas não como reação. E a visão interior, a compreensão interior significa quietude e tranqüilidade completas; porque nada mais há para buscar, para compreender.
       Esse estado interior é criação. Ele nada tem em comum com o poder humano do artista ou do cientista de inventar, de produzir coisas etc. Esse estado de criação só se manifesta quando a mente compreendeu a destruição, a morte. E só quando a mente vive nesse estado de energia, que é amor, só então há criação.
       Agora, a parte não é o todo. Temos descrito as partes, mas os raios de uma roda não são a roda, embora a roda contenha os raios. Não podemos alcançar o todo por meio de uma parte. O todo só pode ser compreendido ao se perceber o todo em sua inteireza; neste caso, tudo o que estivemos falando sobre as várias partes da mente religiosa. Ao terem esse percebimento total, verão que nesse sentimento total está incluída a morte, a destruição, o sentimento de força pelo amor, e a criação. E isso é a mente religiosa.  Mas para alcançar esse estado religioso, a mente deve ser precisa, pensar com clareza, logicamente, nunca aceitando as coisas externas, ou as internas que para si mesma criou (conhecimento, experiência, opinião, crenças, etc.).
       Portanto, a mente religiosa encerra em si a mente científica; mas a mente científica não encerra a religiosa. O mundo vem tentando controlar as duas, mas isso é impossível; assim sendo, tratam de condicionar o homem para aceitar a separação (a negação da religião pela ciência). Mas estamos tentando uma jornada de descobrimento, e isso significa que você tem de descobrir. Apenas aceitar o que estou dizendo, não tem valor algum, pois, assim você estará voltando à velha rotina, à escravidão à propaganda, à influência ou dependência àqueles que você julga que sabem mais do que você etc.
       Mas, se você empreendeu bem a jornada e é capaz de descobrir, verá que pode viver neste mundo; então, as agitações deste mundo têm significação (percebe-se a razão de tudo?). Porque, neste conteúdo total, neste sentimento total, há ordem e há desordem. Não é assim? É preciso destruir (causar desordem) para criar (construir a ordem). Mas não a destruição à maneira dos pseudo-idealistas. A desordem, se podemos empregar essa palavra, existente na mente religiosa, não é o contrário da ordem. Sabeis como gostamos da ordem. Quanto mais limitados e medíocres, tanto mais amamos a ordem. A sociedade quanto mais corrupta se torna, mais deseja a ordem. É o que querem os políticos: um mundo em perfeita ordem. Todos nós desejamos a mesma coisa; temos medo da desordem. Compreendam, por favor, que não estou advogando um mundo em desordem; não estou empregando a palavra ‘desordem’ em sentido reacionário. A criação também é desordem (desordem que se transforma em ordem); mas essa desordem, sendo criadora, contém a ordem. Isto é difícil de compreender?
       A mente religiosa, pois, não é escrava do tempo. Onde existe o tempo – o ontem com todas suas lembranças, movendo-se através do hoje e criando, assim, o futuro e o condicionamento da mente – não existe aquela desordem criadora. A mente religiosa, portanto, é uma mente que não tem futuro, não tem passado e tampouco não está vivendo no presente, compreendido como oposto de ontem e de amanhã, por que nessa mente não está contido o tempo (apenas a eternidade). Você está entendendo?
       A mente, pois, pode alcançar aquele estado religioso. Estou usando a palavra ‘religioso’ com um novo sentido, indicando algo que não tem nada a ver com as religiões do mundo, todas elas mortas, moribundas, decadentes, que julgamos sejam verdades absolutas. Assim, a mente religiosa é aquela que só pode ‘viver com a morte’ (em todos os instantes) e, daí viver com a poderosa e extraordinária energia do amor. Não procurem traduzir isto em palavras comuns. Não façam perguntas sobre o ‘amar um’ ou ‘amar todos’; isso é infantil; respostas não dão a percepção do todo. Só a mente religiosa pode voltar-se para dentro; e esse ‘voltar-se para dentro’ não está em relação com o tempo e o espaço. É ilimitado, infinito, e não pode ser medido por uma mente aprisionada no tempo. Só a mente religiosa resolverá nossos problemas porque só ela não tem problemas. E só a mente que não tem problemas, uma mente realmente religiosa, pode resolver todos os problemas. Essa mente, por conseguinte, está em relação íntima com a sociedade (se importa com a sociedade); mas a sociedade não está em relação com ela (‘a sabedoria de Deus é loucura para os homens’).
       Assim, nesse sentido da palavra ‘religioso’, é necessária uma revolução em cada um de nós – uma revolução total e não parcial. Toda reação é parcial. Mas, essa revolução deve ser total. E só essa mente pode ter intimidade com a Verdade, só essa mente pode ter ‘amizade’ com Deus, ou o nome que você preferir. Só essa mente pode participar da Realidade.
       Aparte: A mente mesma cria a ordem e a desordem?
       K.: Parece que você não fez a jornada conosco. Deve haver morte para que algo novo possa existir. Palavras, frases, a formulação intelectual de perguntas – nada disso tem relação com aquilo que falamos (temos de ‘sentir’, mas sentir isso profundamente dentro de nós). Como vocês sabem, quando se vê algo verdadeiramente belo, imenso – as montanhas, os rios, o mar – a mente se torna silenciosa, não é verdade? A beleza, do que se está vendo, varre-nos da mente toda indagação, todo sentimentalismo, todo sussurro de pensamento. Naquele segundo tudo isso é varrido da mente, porque a coisa que se vê é sumamente grande. Mas se esse varrer é efetuado por algo externo a você, nesse caso é uma reação, e você voltará, posteriormente, às suas lembranças. Porém, se você, realmente empreendeu essa jornada (de ‘sentir profundamente’) sua mente se acha então naquele estado em que não faz perguntas, em que não tem problemas. A mente que está a morrer, que está morta tem problemas; mas não os tem a mente ativa, viva, fluente como um rio, intensa.

       Aparte: É possível a uma pessoa religiosa atuar sobre a sociedade como ela aí está? Contra todos os outros que estão atuando de maneira diferente?
       K.: Que valor tem isso para a sociedade? Que vantagem há em uns poucos, um ou dois alcançarem aquele estado? Que é a sociedade e o que ela deseja? Ela deseja posição, prestigio, dinheiro, sexualidade; sua própria estrutura se baseia na aquisição, na competição, no êxito. Se dissermos algo contra tudo isso, eles não nos ouvirão; não podemos evitar isso. Se algumas das pessoas religiosas, sacerdotes etc. começassem a falar da necessidade de não ser ambicioso, de não se fazerem guerras, nem praticar violência, você pensa que terão seguidores? Ninguém lhes dará ouvidos. E estou certo de que você não dá ouvidos ao que se está dizendo aqui, (não dará ouvidos se você não fez aquele mergulho de penetrar profundamente no sentido do que se está dizendo aqui). Se não penetrar profundamente nisso, você continuará a trilhar o mesmo caminho anterior, o caminho da ambição, da frustração, segurança, das ilusões, que, na verdade, esse sim, é o caminho da morte. Você apenas levará daqui, umas ‘migalhas’ do que ouviu, para acrescentá-las ao que já sabe. Mas estamos falando de coisa inteiramente diferente, de coisa verdadeiramente extraordinária, pela sua beleza e profundidade. Mas, para a alcançar, para compreender, ‘viver com ela’, requer-se imenso trabalho – o trabalho de penetração a fim de esclarecer a mente consciente e inconsciente, e perceber o mundo que nos circunda. Ou você pode ver tudo num súbito clarão e eliminá-lo ou compreendê-lo de vez. Tanto uma coisa como outra requer extraordinária energia.

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