domingo, 24 de outubro de 2010

FÍSICA QUÂNTICA E MISTICISMO

(15) FÍSICA QUÂNTICA E MISTICISMO


(Jan 2008)

(Uma pálida idéia)

(jcl-ribpreto)



- Um elétron pode estar em ‘mais’ de um lugar ao mesmo tempo; os experimentos da física moderna são inequívocos a esse respeito.

- A ciência clássica, cartesiana (anterior), desenvolveu-se de acordo com a suposição fundamental de que existe, fora do observador, uma realidade real, objetiva, que seria algo sólido, constituído de coisas que possuem atributos, como massa, peso, carga elétrica, momentum, posição no espaço, spin, inércia, energia, cor, existência contínua através do tempo, etc. No entanto, tais coisas e todo o universo, de acordo com a nova física, não existem sem que algo lhes perceba a existência; e esse algo é a mente de seres sencientes.

- É errado, por exemplo, supor que um elétron seja um pontinho imponderável de matéria; isso porque, em certas ocasiões, ele é uma nuvem composta de um número infinito de possíveis elétrons, ondulando como uma onda e capaz de mover-se em velocidades superiores à da luz, desmentindo o postulado de Einstein sobre a velocidade. Tais possíveis elétrons parecem uma única partícula somente quando os observamos.

- No átomo, um elétron, quando perde energia, salta de uma órbita mais afastada do núcleo para uma mais proxima. Contudo, ele não passa pelo espaço entre uma órbita e a outra; simplesmente desaparece da mais elevada e aparece na outra.

- Resultados de observações sobre dois elétrons correlacionados, mesmo que separados por distâncias imensas, demonstram que forçosamente deve haver entre eles alguma conexão que permite que a comunicação entre eles se mova mais rápida que a luz. Como, conforme Einstein, nenhuma velocidade pode ser maior que a da luz (300 mil km por segundo) dentro do espaço-tempo, pode-se afirmar que essa comunicação ocorre além do espaço-tempo, logo no domínio do atemporal, no domínio transcendental.

- Em suma, há um número grande demais de provas demonstrando que o mundo objetivo, que costumamos considerar a realidade final é, apenas, ilusão do nosso pensamento, do nosso ego. E não podemos esquecer que todo o conhecimento do homem, em todas as áreas, tem como alicerce essa suposição que, agora, por inumeráveis e inquestionáveis experimentos da nova física, sabe-se ser ilusória.

- Ainda mais, o universo é autoconsciente. Pela física anterior, cartesiana e newtoniana (de Descartes e Newton), a consciência, a mente, era considerada apenas um subproduto da matéria cerebral; logo, o cérebro é que criaria a consciência. Hoje, pela nova física, sabe-se que é a consciência que cria o cérebro e todo o mundo material.

- A consciência é algo transcendental, portanto não-local, e está em tudo, tanto no espaço-tempo quanto além, no atemporal; a consciência é tudo.

- Consciência é o agente que afeta os objetos quânticos para lhes tornar o comportamento apreensível pelos nossos sentidos; a consciência focaliza esses objetos, ondas de probabilidades, de modo que podemos observá-los como partículas, ou coisas, em um único lugar.

- Um objeto quântico pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo (propriedade da onda); o objeto quântico se manifesta na realidade comum só quando o observamos e, com isso, provocamos o colapso da onda, que, instantaneamente, se apresenta como partículas ou objetos; um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço interveniente (o salto quântico); a manifestação de um objeto quântico, ocasionada por nossa observação, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato pouco importando a distância entre eles (ação quântica instantânea à distância).

- A consciência é o fundamento de todo ser, incluindo a matéria. Tudo existe na consciência e é por ela manipulado. Ela organiza o mundo e lhe dá significado. Mas, para isso, necessita da observação produzida por uma mente senciente (cérebro/mente).





-EXPERIMENTO DAS DUAS FENDA:

(Na internet, no final da página da 'Wilkpedia' referente a esse experimento, explicado pelo 'Dr. Rabbit', está a pergunta:

'E o q tem um observador a ver com isso?' e, em seguida, vem a resposta: 'Um observador colapsa a função de onda simplesmente... por observar'.

É exatamente sobre isso que andamos conversando: a simples observação modifica a natureza. Não havendo um observador não há o colapso da função de onda e, em conseqüência, não há manifestação de partículas, ou seja, de matéria. Por aí se vê q, não existindo um ser senciente observando, tudo continua apenas como ondas; não haverá nem mesmo um universo como o conhecemos. Isso não merece uma reflexão mais profunda? Não indica q o ser humano (e todos os seres sencientes) é necessário para q tudo que aí está à nossa frente exista? A consciência do ser senciente, através da observação deste, é que realiza o processo final da criação determinada por aquilo a que denominamos Deus. Isso não está mostrando que nós não somos nada do que as religiões e crenças populares apregoam? Que somos muito mais do que isso? A consciência 'localizada' (nós) completa a criação da consciência 'não localizada', isto é, da Consciência Universal. Isso não está mostrando que nossa consciência complementa, completa, faz parte ou é a própria consciência de Deus? O que acham disso?

- Sob observação, o objeto quântico deixa de ser onda e se comporta como partícula (de matéria). Mesmo a objetos macroscópicos, como a Lua, por exemplo, a mecânica quântica prevê basicamente idêntico comportamento, com a diferença de que, nesse caso, o espalhamento do pacote de ondas é imperceptivelmente pequeno (nunca zero) entre as observações.

- Para cada evento, questão, fenômeno, problema, existe o que é chamado pela quântica de superposições coerentes, isto é, um número, considerado infinito, pelos sábios, de possibilidades de soluções (o campo das infinitas possibilidades, de Maharish Maresh Yogi). Por isso, todo evento de observação, que é o que produz o colapso da onda de probabilidades localizada fora do espaço-tempo, é potencialmente criativo e pode desvendar, sempre, novas possibilidades, respostas criativas, diferentes das conhecidas às quais nossa mente-localizada está habituada, e, por isso, condicionada.

- A observação faz com que o pacote de ondas entre em colapso e se torne partículas localizadas. Assim, o sujeito (observador) e o objeto (coisa observada) estão inextricavelmente misturados, ligados; não havendo observador, não há coisa observada, porque não há colapso; não havendo coisa observada, não há observador. Vê-se, pois, que, para que o universo se manifeste, o cérebro-mente é necessário; logo, nós, e todos os seres dotados de cérebro e mente, somos necessários.

- A consciência é a realidade única e final. Além dela, tudo é ilusão. Todo o universo sobre o qual pensamos e falamos nada mais é que ilusão, Maya, conforme o Vedanta. O todo é Brahman, Deus, a consciência absoluta, total, que existe além do alcance de Maya. Nada mais existe além da consciência.

- Como apenas existe uma mente, uma consciência, a separatividade entre seres e coisas é nada mais que ilusão. Somos, todos nós, apenas uma mente, uma consciência, embora pareçamos muitas (“Eu e o Pai somos um”).

- Como não há separação entre seres e coisas no universo, somos todos uma só coisa; logo não existe duas coisas como eu e Deus. Por isso disse Shankara: “Eu sou a realidade sem começo e sem fim. Não participo da ilusão ‘eu’ e ‘tu’, ‘isto’ e ‘aquilo’. Eu sou Brahman, o um sem segundo, a bem-aventurança sem fim, a verdade eterna, imutável. Eu resido em todos os seres como consciência pura, o fundamento de todos os fenômenos internos e externos. Eu sou o que desfruta e o que é desfrutado. Nos dias de minha ignorância eu costumava pensar nessas coisas como separadas de mim. Hoje sei que sou tudo”. E disse Ekhart, místico cristão: “Percebo que Deus e eu somos um só”. E Jesus: “Eu e o Pai somos um”.

- A experiência da unidade, quebrados os véus da separatividade, abre as portas para uma transformação do ser (iluminação) que gera amor, compaixão, sabedoria, e liberta o homem da ilusão da separatividade adquirida e dos apegos compensatórios aos quais nos agarramos (poder, riqueza, sexo, drogas, afetos, ilusões, crenças, religiões etc.). Tais apegos, nós os procuramos para preencher nosso vazio interior, nascido de nossa vida sem significado. Como disseram os mestres, somos ainda sub-humanos; nossa vida só adquire significado quando percebermos que somos muito mais que o ego (percepção que vem do auto-conhecimento proporcionado pela meditação).

- Como é que não podemos amar incondicionalmente a todos se só há uma consciência e sabemos que não estamos separados porque somos essa única consciência?

- O dualismo Deus-mundo não resiste ao exame científico. A nova física destruiu o realismo materialista construído pela física cartesiana. Amit Goswami argumenta que o idealismo monista, advindo da unidade de consciência, é não só compatível com a física quântica, mas até essencial para sua interpretação, tanto que os paradoxos da nova física desaparecem quando examinados do ponto de vista do idealismo monista, explicando mesmo questões como pluralidade aparente de consciências e transcendência.

- De conformidade com a nova física, o processo fundamental da Natureza reside fora do espaço-tempo, gerando eventos que neste se localizam, desde que haja observação. Fora do espaço-tempo tudo é transcendência, é estar em parte alguma e em toda parte, no aqui-agora eterno.

- Os objetos quânticos são simultaneamente onda e partícula; mas nunca podemos observar o aspecto onda de um elétron, pois nunca se manifesta no espaço-tempo; nem é partícula, porque esta aparece, nos experimentos, em locais proibidos às partículas. Logo, a física quântica diz que o objeto quântico não é onda nem é partícula, o que lembra as explicações do budismo Mahayana: “Ele ‘não existe’ e ‘não não existe’, simultaneamente. Nem ele existe, nem ele não existe”.

- O observador (todos os seres sencientes) está inescapavelmente envolvido em fazer que aconteça aquilo que parece estar acontecendo, porque só com sua observação há manifestação no espaço-tempo; sem observação nada existe.

- Escolhemos o resultado específico que se manifesta; os fenômenos são apenas prolongamento de nós mesmos. Mas, segundo os novos físicos, e as tradições de misticismo orientais, nada escolhemos como indivíduos. A escolha é da consciência unitiva (consciência total, Deus), que necessita da observação do cérebro-mente para que o escolhido se manifeste; a observação conclui o processo da escolha atemporal.

- Quando observamos, o mundo se torna objetivo. Quando não observamos, nem a nós mesmos, tudo é um.

- Nós, seres conscientes, não temos consciência; é a consciência que nos tem. Ela tudo abrange, do micro ao macrocosmo; no espaço-tempo e além.

- Nós não estamos conscientes de nosso corpo o tempo todo. Na verdade, em circunstâncias comuns, temos pouquíssima consciência de nós mesmos; de vez em quando temos consciência de estarmos vivos. Noutras palavras, nesses momentos, nós pensamos em nós mesmos. Nessas ocasiões, nossa função de onda entra em colapso e sentimos que existimos. Entre essas ocasiões, nossa função de onda se expande em superposições coerentes no domínio transcendental.

- Aquilo que parece continuidade, para um ser humano que observa a si mesmo, o fato de existir, é, na realidade, uma miragem que consiste de numerosos colapsos descontínuos (como num filme, no qual as imagens são descontínuas mas, pela sua velocidade, nos dão a impressão de que são contínuas) isto é, nós, como todos os objetos quânticos, e todos os objetos são quânticos, quando nos observamos ou somos observados, somos corpo-mente; quando não observados, somos apenas ondas de probabilidades coerentes na imensidade do domínio transcendental (Krishnamurti: um novo estado de existir).

- A consciência escolhe entre alternativas coerentes quando manifesta a realidade material. O colapso é um processo de escolha e reconhecimento por um observador consciente; mas não é que cada um ser humano escolha a seu prazer, pois assim o mundo seria uma confusão; sendo a consciência uma só, só há um observador senciente: a própria consciência, aquilo que denominamos o Absoluto, o Todo, Brahman, Deus. Nós, mentes localizadas, completamos a operação com nossa observação.

- A separatividade é resultado do colapso. Só depois deste é que passam a existir objetos, apenas aparentemente separados. Deve-se pensar em objetos quânticos como objetos em potencial (ondas no domínio não-local da realidade que transcende o espaço-tempo, e que podem se manifestar no espaço-tempo). Antes do colapso, nada existe no mundo da relatividade.

- Nós somos a consciência não-local apenas sutilmente velada, mas por um véu que pode ser penetrado em extensões variadas, como testemunharam místicos através dos tempos. Tal véu é produzido pelo que é chamado de hierarquias entrelaçadas, dois níveis de consciência que se confundem: a primária, absoluta, não-localizada, e a secundária, localizada em cada um.

- A iluminação, samadhi, nirvana, satori, é a percepção da consciência não-localizada, total, primária, e isso só acontece através do salto quântico, um salto para fora do sistema habitual, do condicionamento, fato que proporciona tal poder de criatividade que a consciência se vê a si mesma. É o topo, o ápice do auto-conhecimento, quando ficamos conhecendo aquilo que realmente somos (o “conhece-te a ti mesmo”, dos antigos sábios gregos).

- O universo existe como ‘potência’ informe em uma miríade de ramos (possibilidades), no domínio transcendente, que se torna manifesto quando, e somente quando, observado por seres sencientes.

- Para que a inteligência possa operar, o acionamento de um neurônio tem de ser acompanhado pelo acionamento de numerosos neurônios correlatos, a distâncias macroscópicas (até 10 cm, que é a largura do tecido cortical), fato que ocorre com velocidades além da velocidade da luz. Para que isso aconteça, é preciso que correlações não-locais existam no nível molecular do nosso cérebro, nas suas sinapses. Desse modo, até mesmo o pensamento comum depende da natureza dos eventos quânticos, e é um evento quântico.

- Os objetos quânticos macroscópicos, quando não observados permanecem na função de onda, apresentando espalhamento mínimo; por isso aparentam continuidade e apresentam memória; esse fato, entre outros, é responsável pelo surgimento da identidade do ‘self’” pessoal. Nosso cérebro, objeto quântico macroscópico, possui memória devido ao espalhamento mínimo da onda, quando não observado; os objetos microscópicos não a possuem, pois seu espalhamento é total e sua manifestação, no espaço-tempo, é instantânea, regenerando-se imediatamente; e, por isso, não guardam registro (memória) das experiências pelas quais passou.

- Um elétron ou outra partícula quando sob observação, pode estar aqui ou ali; quando não observado pode estar em qualquer ponto do universo. Há inúmeras provas de experimentos a esse respeito; por exemplo, o experimento das ‘duas fendas’; um anteparo com duas fendas mostra que um fóton ou um elétron só se manifesta como partícula quando observado por uma mente sencientes; quando não observado, ele não se manifesta no espaço-tempo, continuando como onda de energia.

- A consciência escolhe o resultado do colapso em todo e qualquer sistema quântico, o que quer dizer que a consciência unitiva escolhe. Uma vez que nossa experiência é consciente, nós escolhemos nossas experiências conscientes, embora permaneçamos inconscientes do processo subjacente. É essa inconsciência que leva à separatividade ilusória, à identidade com o ‘eu’ do self, em oposição ao ‘nós’, ou ‘Eu’, da consciência unitiva.

- Na hierarquia entrelaçada, os níveis estão tão misturados que não podemos identificar os diferentes níveis de consciência. Confundimos a consciência local com a não-local. Por isso ficamos presos na ilusão de que existe um ‘eu’ separado dos demais ‘eus’, e separado do universo manifestado e da consciência total.

- É a descontinuidade ou oscilação instantânea e contínua entre um nível e outro, entre manifestação de partículas e não-manifestação, que nos impede de ver através do véu. Como vemos o mundo do ponto de vista e referência de nosso cérebro (visão e audição, particularmente), temos a ilusão de que somos um ‘eu’ separado, que estamos aqui, dois a cinco centímetros atrás do ponto médio entre as sobrancelhas. Contudo, a ciência quântica, como as tradições místicas, concordam em que não há um ‘eu’ pessoal; o ego é apenas uma referência para uso prático, como afirmou Schroedinger, um dos pais da física quântica.

- Para desfazer essa ilusão temos de saltar para fora do sistema do espaço-tempo, ao qual estamos condicionados, e passar para o nível puro, inviolado, a consciência total (o que pode ser possível através da meditação). O ‘eu’ existe devido à ilusão proporcionada pelo cérebro, de cujo ponto de vista experimentamos o mundo (o ‘eu’ e o ‘não eu’).

- O ‘eu’ é conseqüência, portanto, de uma hierarquia de níveis entrelaçados embora nossa consciência seja a mesma consciência do Ser que está além da divisão sujeito-objeto. Não há, no universo, outra consciência. O self da auto-referência e a consciência da consciência original, primária, constituem, juntos, o que chamamos de autoconsciência.

- É a aparência do mundo da manifestação que nos leva à experiência de um self pessoal individual, ou sujeito, separado dos objetos aparentes. Mas, sujeito e objeto manifestam-se simultaneamente no instante do colapso do estado quântico do cérebro-mente, o que produz tanto o cérebro-mente quanto os objetos ‘lá fora’. Sem colapso não há mundo manifestado, nem cérebro-mente para perceber, nem objetos para serem percebidos, portanto, nem sujeito, nem objeto, nem observador, nem coisa observada. Enquanto o cérebro não entra em colapso, o sujeito-observador e o objeto-coisa observada são uma coisa só: o todo.

- O ego é o local onde acontece a auto-referência de todo o universo (como disse Krishnamurti: ‘por ser a mente vazia, existe o cérebro no espaço e no tempo’, isto é, existimos para preencher a mente total, somos os olhos e ouvidos do Absoluto). Em nós o universo divide-se em dois: a parte do universo que vê e a parte do universo que é vista; isto é, o sujeito que observa e o objeto que é observado, ambos ilusórios.

- O mecanismo de observação-medição do cérebro cria uma memória de cada colapso, isto é, de todas as experiências que temos como reação a um dado estímulo. Se o mesmo, ou um estímulo semelhante, é reapresentado, o registro do cérebro reproduz a velha memória. Esta reprodução torna-se um estímulo secundário para o sistema quântico cérebro-mente, que responde em seguida. O sistema mede a nova resposta e assim continua. Essa interação repetida de observações-medições ocasiona uma mudança fundamental no sistema quântico cérebro-mente e este perde seu caráter regenerativo. (Todo sistema quântico tem características regenerativas instantâneas; daí serem sempre e sempre sistemas novos e sem memória; no entanto, como o cérebro perde seu caráter regenerativo em face da repetição de estímulos e dos estímulos denominados secundários, o cérebro que, como todo sistema quântico não tem memória, passa a tê-la, advindo daí a ilusão de um ‘eu’ que tem continuidade no tempo e é separado dos demais ‘eus’, no espaço e no tempo).

- Antes que a resposta a um dado estímulo se torne condicionada, antes que nós a experimentemos pela enésima vez, o conjunto de probabilidades, as superposições coerentes, entre as quais a consciência escolhe a resposta, abrange os estados mentais comuns a todas as pessoas, em todos os lugares, em todos os tempos. Com o aprendizado, porém, as respostas condicionadas tendem a, gradualmente, ganhar mais peso probabilístico do que as outras respostas não repetidas. Esse é o processo de formação dos comportamentos condicionados, aprendidos e conservados na memória de cada indivíduo. Uma vez aprendida uma tarefa, em todas as situações que a envolvam estará presente, em quase cem por cento, a probabilidade de que uma memória correspondente desencadeie uma resposta condicionada, impedindo as respostas criativas, novas, que a consciência traz. Livrando-se do condicionamento, o homem poderá ter soluções criativas, não experimentadas antes, e poderá ter despertados, em si mesmo, o amor, a compaixão e a sabedoria.

- Para livrar-se do condicionamento é necessário fazer morrer o ‘eu’, que são os pensamentos, memórias, imagens, associações, emoções, desejos, medos, ilusões, advindos da genética, cultura, costumes, crenças, religiões, que nos sujeitam, e dessas coisas ficamos dependentes, presos a elas, mesmo sem saber se são verdades absolutas ou se um dia se realizarão. Cessado o ‘eu’, cessam essas distrações ou desatenções, e poderá então despontar aquele amor, aquela compaixão e aquela beleza acima de tudo o que imaginamos.

- Muito cedo, no desenvolvimento do ser humano, numerosos programas aprendidos se acumulam e dominam o comportamento do cérebro-mente, a despeito do fato de que respostas quânticas não condicionadas estejam disponíveis para novas experiências criativas, especialmente como resposta a estímulos não aprendidos ainda. Se a potência criativa do componente quântico do cérebro-mente deixa assim de ser usada (em face do condicionamento adquirido), a hierarquia entrelaçada do sistema cérebro-mente torna-se uma hierarquia simples, apenas referida aos programas aprendidos e condicionados. Nessa fase, a incerteza criativa sobre ‘quem é que escolhe as respostas’ é eliminada e começamos a assumir um self-ego separado totalmente, individual, que pensa que escolhe e que tem livre-arbítrio. Mas, como afirmam os sábios, ‘aquele que pensa que escolhe é imaturo’. Quem escolhe, como vimos antes, é a consciência unitiva, Deus.

- Em nossa ignorância, identificamo-nos com uma versão limitada do sujeito cósmico e concluímos: “eu sou este corpo-mente”. Perdemos, em face da ilusão dos dualismos, eu-não eu, mente-corpo, vida-morte, espaço-tempo, a identidade com o todo.

- Informações armazenadas de estados de consciência anteriores (memória) podem voltar à consciência. Dessa maneira torna-se possível à consciência ver seu próprio reflexo no espelho da memória, embora sempre com uma defasagem temporal, que é o tempo de reação entre o colapso quântico de um evento no espaço-tempo, e a experiência do ego baseada em introspecção (memória) provocada pelos estímulos secundários.

- Nossa preocupação com o processo secundário (indicado pela defasagem temporal) torna difícil que nos tornemos percebedores de nosso self-quântico, primário, real, e de experienciar os estados mentais puros, acessíveis no nível quântico antes do colapso. As práticas de meditação têm por objetivo eliminar a defasagem temporal e colocar-nos diretamente em contato com esses estados mentais em sua essência mais pura. Provas demonstram que a meditação reduz a defasagem temporal entre os processos primário (consciência pura, não-local) e secundário (cérebro-mente, consciência local), permitindo que se encontrem, o que proporciona a percepção do todo absoluto.

- A defasagem temporal da introspecção secundária permite que a experiência que temos em relação ao ego dê a impressão de ser contínua; e o denominado fluxo ininterrupto de consciência que percebemos em nós é o resultado de uma conversa introspectiva que ocorre em nossa mente espontaneamente, o filme emotivo-imaginativo, que, sem cessar, passa por nosso cérebro, como diz o Zen-Budismo.

- A consciência divide-se em sujeito e objeto através do colapso da função onda do cérebro-mente. O colapso é um evento (advindo de fora do espaço-tempo) de descontinuidade no espaço-tempo, mas experienciamos, assimetricamente, a divisão sujeito-objeto na modalidade aparentemente contínua do ego. Dificilmente (talvez somente pela meditação) percebemos o imediatismo da experiência disponível no nível quântico.

- O mundo manifestado não é maya. A verdadeira maya é a separatividade. Sentirmo-nos e pensarmos que somos realmente separados do todo, essa é toda a ilusão. O ego, também, nada mais é que um engodo, um feixe de memórias condicionadas, o passado, portanto o que já é conhecido.

- O self separado, o ego, não tem livre-arbítrio à parte do self quântico, da consciência unitiva, pois como vimos, nada escolhemos.

- O ‘eu’ não é uma coisa, mas uma relação entre a experiência consciente e o ambiente imediato. Nessa experiência, o mundo parece dividir-se entre sujeito e objetos. Ao ser refletida na memória, pelos processos chamados secundários, essa divisão produz a experiência dominante do ‘ego’, a imagem que formamos do experimentador aparente de nossos atos, pensamentos, e sentimentos do dia-a-dia. Essa identificação, no entanto, jamais é completa. Sempre a consciência deixa alguma abertura para o novo, o desconhecido, a novidade incondicionada, o que torna possível, embora muito raramente, aquilo que conhecemos como livre-arbítrio; pensamos que decidimos, quando quem decide é o sujeito cósmico. O ego, ‘eu’, está associado à experiência de percepção secundária, mas não à primária; esta está além do espaço-tempo, é o self-quântico, a própria divindade.

- Em algumas experiências, a identificação do self-quântico com o ego é muito menor que o habitual, como na experiência criativa, na qual o experienciador freqüentemente descreve o ato como inspirado por Deus. Tais experiências ocorrem de uma clara descontinuidade (o salto quântico), em contraste com a continuidade do ego, mais comum, no fluxo da consciência. São as experiências chamadas transpessoais, uma vez que não é dominante a identidade com a pessoa, ou o ‘eu’ particular do experienciador. Experiências paranormais, como a telepatia, a sincronicidade, ‘projeções’ etc., estão aí explicadas, bem como a chamada visão à distância e a coerência das ondas cerebrais geradas pela meditação.

- A nova física vem mostrar que essas experiências podem ser reais, e, assim, a ciência, sempre hostil às grandes tradições religiosas, pode, hoje, caminhar junto com elas no sentido de levar o ser humano à percepção de sua verdadeira natureza e de seu verdadeiro lugar no universo.

- Não há um poder causal que possa ser atribuído ao ego; seu comportamento é inteiramente determinado pela memória e informações recebidas do ambiente. Portanto, o ego não tem poder de decidir, nem de escolher.

- No processo primário (self-quântico), não existe condicionamento; em conseqüência, não há restrições à liberdade de opção. Já no processo secundário (self-ego), nossas respostas são condicionadas (idéias, pensamentos, decisões, sentimentos, serão condicionados pelas experiências anteriores que se acham gravadas na memória devido às repetições). O indivíduo que penetrou no atemporal (que teve a percepção do self-quântico), sempre agirá corretamente pois, descondicionado, pode escolher, e sua escolha será sempre a correta; seu livre-arbítrio é o próprio arbítrio (escolha, vontade) do todo (ou de Deus, como dizemos).

- Na meditação, a concentração da atenção num objeto mental, no fluir dos pensamentos, ou em todo o campo da percepção, permite que nos tornemos apenas testemunhas (pois o ego deixa de interferir) dos fenômenos mentais que surgem na percepção, do desfile de pensamentos e sentimentos condicionados.

- A meditação cria um hiato entre o despertar das respostas condicionadas mentais e a ânsia física de agir de acordo com elas e, desse modo, pode reforçar a capacidade de ‘nosso’ livre-arbítrio, de decidir contrariamente às respostas e aos atos condicionados, com isso enfraquecendo nosso condicionamento que, com a persistência na prática de meditação, poderá ser superado.

- No sonho e na hipnose, o self torna-se, principalmente testemunha (isto é, vê mas não interfere) e entra num estado que se caracteriza pela ausência de eventos de percepção secundária; assim, são enfraquecidas as inibições normais contra o colapso de estados mentais reprimidos. Por esse motivo, sonho e hipnose são úteis para trazer o inconsciente à percepção consciente. Na EQM, experiência de quase morte, o imediatismo desta libera grande volume do condicionamento inconsciente reprimido, tanto coletivo quanto pessoal; por isso, numerosos pacientes saem dessa experiência transbordantes de alegria e paz, pois, sem condicionamentos, a percepção da realidade é expandida.

- Como superar as esmagadoras possibilidades de respostas condicionadas para conseguir as respostas novas, não condicionadas, criativas? - 1.º) minimizando o condicionamento mental, mantendo conscientemente uma mente aberta ao novo, o que tende a aumentar a possibilidade de respostas não condicionadas; 2.º) pela persistência, que vem aumentar as probabilidades de que uma idéia criativa, mesmo de baixa possibilidade, se manifeste; a persistência aumenta o número de colapsos do estado quântico da mente-cérebro relativo à questão, elevando a probabilidade de conseguirmos uma resposta nova; 3º.) uma vez que a observação consciente é que produz o colapso da superposição coerente existente relativa ao problema, há certa vantagem no processamento inconsciente (meditação, sonho, hipnose) das quais pode aflorar o desconhecido. Disse Spencer Brown: ‘nenhuma atividade, nenhum raciocínio, nenhuma cálculo, nenhum comportamento agitado, nenhuma conversa (cérebro em silêncio); apenas contemplação, mantendo em mente, sem esforço, simplesmente, aquilo cuja resposta desejamos’.

- A atenção, na meditação, a todo o campo da percepção, ou a um mantra, ou objeto mental, desvia nossa atenção de pensamentos ociosos, pois nossa consciência não pode focalizar duas coisas ao mesmo tempo. O mundo externo, que existe em nós como um mapa interno, começa a ceder à medida que nos tornamos mais competentes na atenção ao processo da meditação. Finalmente, chegamos a um ponto em que a própria mente parece habituar-se: embora os eventos no campo da percepção secundária ainda estejam presentes, eles serão poucos e muito separados entre si e, nesses hiatos, os processos primários (do self-quântico) podem revelar-se em sua essência.

- A percepção do processo primário é a percepção atemporal, além do espaço-tempo; o meditador estará livre do espaço-tempo, além do ego e, como afirmam os sábios, e as escrituras ditas sagradas, entre elas o Velho Testamento, ‘quando o eu não é, Deus é’; é, portanto, a percepção do Absoluto ou, se quisermos, a percepção da divindade, a percepção de Deus.

- Como ensinou o profeta, ‘Aquieta-te e sabe: eu sou Deus’, isto é, quando conseguimos silenciar o ‘eu’, quem está ali não é mais nosso ilusório ‘ego’, com suas memórias, expectativas, emoções, desejos, apegos; quando o ‘eu’ não está, quem está é o próprio Deus. O ‘eu’, a consciência localizada do ego cessando, pela perseverança na meditação, abre espaço que pode ser preenchido pela própria Divindade. Por isso, aquietando-se o ego, sabemos que quem está ali é o próprio Deus. O aquietamento do ‘eu’ se consegue pela perseverança na meditação.

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Um comentário:

  1. E surge a NOVA CIÊNCIA: a comunhão entre a ciência e a religiosidade! : )

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